Roberto Macedo: ‘Ainda no vale da recessão’

01-03-2018

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

Em 2017, a economia brasileira iniciou processo de recuperação, conforme demonstrado pelo fato de que as taxas de variação do seu PIB trimestral, relativamente ao trimestre anterior, assumiram valores positivos, 1,3%, 0,7% e 0,1%, no primeiro, segundo e terceiro trimestres do mesmo ano, respectivamente. Isso aconteceu após sequência de oito trimestres, ou dois anos, em que esse mesmo cálculo só mostrou taxas negativas. Como resultado, o PIB anual caiu 3,8% em 2015 e 3,6% em 2016.

Para 2017, a última previsão feita pelo Relatório Focus do Banco Central, que reflete avaliações de operadores e consultores do mercado financeiro, foi publicada em 5 de janeiro deste ano e a taxa prevista para o PIB foi de mais 1%, número que se confirmou. Previsões do mesmo relatório, o último disponível quando este artigo era redigido, o de 23 de fevereiro, indicavam 2,9% de crescimento do PIB, em 2018, e 3% em 2019.

Aliás, essas duas taxas, perto de 2,5% ao ano aproximadamente, refletiriam, se confirmadas, só um diminuto alívio relativamente diante da reduzida velocidade média, a essa taxa, verificada nesta e nas três décadas anteriores, a qual deixou o País para trás e longe na maratona internacional pelo crescimento econômico.

Ademais, se confirmadas as taxas previstas para o período 2017-2019, só em 2020 o PIB terminaria o ano com um valor acima do de 2014. Em números: fazendo o PIB de 2014 = 100, as taxas realizadas ou previstas para o período 2015-2019 levariam a 99,3 nesse último ano, ou seja, ainda 0,7% abaixo do 2014, indicando que só em 2020, e se então a economia crescer 0,7% ou mais, o valor do PIB alcançaria ou superaria seu pico de 2014.

Noutras palavras, e na linguagem da teoria dos ciclos econômicos, depois de uma recessão que levou o PIB brasileiro ao fundo de um vale em 2016, a partir daí iniciando a recuperação ainda em andamento, ainda não chegamos a um pico que iguale ou supere o mais alto até então, de 2014. Sabe-se também que o PIB usualmente segue uma tendência em torno da qual ele oscila com movimentos de recessão e recuperação. No caso brasileiro, a referida tendência, nesta década e nas três anteriores, é a dada pela referida taxa média de 2,5% ao ano.

Nessas quatro décadas houve períodos em que essa média foi claramente superada, mais recentemente se destacando os anos de 2002-2008 e de 2010-2013, com taxas médias de 4,0 e de 4,1%, respectivamente. Mas foram períodos marcados por aquilo que os economistas chamam de voos de galinha, ou seja, que não têm sustentação e a retornam à superfície de onde saiu, dada por essa média. Ou mesmo caindo num buraco ou vale abaixo dela, como aquele em que estamos ainda hoje.

No momento, pelo andar da carruagem do PIB, e também pela maneira como as previsões estatísticas se comportam – com maior probabilidade de acerto em prazos mais curtos –, os 2,9% de crescimento previstos para 2018 têm hoje maior probabilidade de ocorrer do que os 3,0% de 2019.

A razão é que acabamos de passar por um período em que foi deixado de lado um ajuste fiscal mais efetivo e contundente, que incluísse uma reforma, digna do nome, da Previdência Social pública. Isso decorreu de dificuldades políticas para aprová-la, juntamente com a opção por uma intervenção federal na área de segurança do estado do Rio de Janeiro, o que invialibilizou a votação de uma reforma constitucional necessária a essa reforma. Mas, realisticamente, tampouco estavam garantidos os votos para aprová-la.

Além desse abandono da reforma previdenciária, com resgate previsto apenas para 2019, este ano será um ano eleitoral para a presidência e para o legislativo federal e das unidades federativas. Seus resultados, particularmente no caso presidencial, poderão manter ou não, nos consumidores e empresários, a atual confiança quanto aos rumos futuros da economia, confiança essa que determina suas decisões de consumo e de investimento e seu correspondente impacto no PIB.

Essa confiança será particularmente fundamental em 2019, pois em 2020, se voltar ao pico de 2014, a economia precisará de mais investimentos para ampliar sua produção, já que nesta fase de recuperação ela conta com capacidade produtiva ociosa.

Ou seja, há novamente o risco de mais um voo de galinha. Mas não se pode ficar passivamente vislumbrando a perspectiva de sua ocorrência. Pelo contrário, o caminho adequado é que a classe política e a sociedade em geral reflitam intensamente sobre o que e como fazer quanto à economia e ao problema fiscal, este particularmente na sua dimensão previdenciária, e deem sequência a ações voltadas para superar dificuldades de modo convincente. É o que gostaria de ver discutido neste ano eleitoral.

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