Helio Michelini: Inspiração “Omotenashi”

12-05-2017

Helio Michelini Pellaes Neto, professor de Relações Internacionais da FAAP e colaborador da Fundação Espaço Democrático.

 

 

“Omotenashi” é a palavra que autoridades japonesas destacaram nas diversas celebrações que seguiram a inauguração da Japan House no Brasil, em 30/04/2017. O termo, comumente empregado para explicar a sensível hospitalidade japonesa, traz consigo a ideia de amplo compromisso com qualidade, o que a seu turno parte da incrível capacidade nipônica de equilibrar o respeito às tradições e o espírito inovador, ambos enraizados naquela cultura popular, em busca da eficiência.

A dispendiosa casa de cultura subordinada à pasta das relações exteriores do Japão (MoFA), ora inaugurada no coração financeiro de São Paulo, assume o ambicioso desafio de reapresentar o país ao Brasil e fomentar negócios e enlaces de interesse geopolítico.

Vale recordar que a enorme capacidade que o Japão possui de se reinventar, frente os desafios que os tempos lhe trouxeram, reporta a uma longa história de sucesso. A exemplo, foi assim que o governo japonês decidiu rever, em 1853, dispositivos legais que por dois séculos estabeleceram o fechamento dos seus portos ao comércio mundial, bem como souberam, os governantes à frente do Japão pós-guerra, ajustar a proibição da ação militar à orientação liberal-democrática e à mobilização de fundos ao desenvolvimento que lhe renderiam, poucas décadas depois, créditos capazes de alicerçar o processo de revitalização econômica do país, assegurando-lhe posição de destaque no ranking das grandes potências ao final do século XX (KISSINGER, 2015, pp. 182-193).

Igualmente, o setor industrial japonês avança o século XXI orientando um novo debate com foco em competitividade,a partir de estratégias de: a) redução do excesso da capacidade produtiva; b)incentivo a empresas com vocação global; e,c) apoio a uma gestão corporativa pautada em meritocracia (MCKINSEY & CO., 2011, pp. 428-438).

Ora, se é bem verdade que os dilemas da sociedade contemporânea alcançam antes o Japão – digno de nota o dilema do envelhecimento da população– também as soluções hão de partir da terra do sol nascente, iluminando rotas que certamente serão replicadas em outras geografias.

Nesta esteira, em tempos de revisão da agenda que orienta a política externa brasileira, cabe admitir por positiva a oportunidade que a Japan House confere ao fortalecimento das relações entre o Brasil e o Japão, quiçá projetando a experiência de instituições como a JICA (Japan International Cooperation Agency), a JETRO (Japan External Trade Organization) e o JBIC (Japan Bank for International Cooperation), sob seus paralelos ABC (Agência Brasileira de Cooperação), APEX (Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

A tarefa não parte do zero. Brasil e Japão desenvolveram uma história de cooperação mutuamente gratificante em diversas áreas estratégicas, como energia, meio ambiente, agronegócio, entre outras.

No setor da energia, o Japão fez-se bastante presente, facilitando recursos técnicos e financeiros destinados à exploração de petróleo, à construção de gasodutos, e, mais recentemente, à produção de biocombustíveis.

Quanto ao espectro ambiental, o governo japonês assistiu o Brasil em projetos como a limpeza do rio Tietê em São Paulo e da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Infelizmente, a participação japonesa em tais projetos não recebeu publicidade suficiente no Brasil, e poucos brasileiros têm conhecimento desses exemplos de cooperação internacional.

Também investidores privados japoneses, tais como a gigante Mitsui, financiaram setores de relevante interesse para a economia brasileira. Nesta linha, das destilarias de etanol, apoiadas com vistas à produção de álcool combustível posteriormente destinado à exportação para o Japão, a projetos ligados a infraestrutura e agricultura, nota-se o massivo esforço japonês orientado para a realização de benefícios auferidos por brasileiros em terras nacionais e estrangeiras – cabe salientar que o cultivo de soja no Brasil foi introduzido pelo Japão, sendo hoje o Brasil o primeiro produtor mundial deste cereal (LANDAU, 2010).

Tais exemplos, entre muitos outros, justificam o bravo movimento da diplomacia nipônica, buscando renovar, e assim fortalecer, vínculos que já demonstraram surtir amplos e concretos benefícios. Resta agora, por mais que oportuno, aguardar resposta semelhante vinda das autoridades no comando do Itamaraty, então inspiradas ao melhor estilo “omotenashi”.

 

KISSINGER, Henry. 2015. Ordem Mundial. 1a ed. Objetiva: Rio de Janeiro.

LANDAU, Georges. 2010. Reflexões que orientaram ciclo de videoconferências proferidas aos alunos da Meiji University (Tokyo) e da FAAP (São Paulo).

MCKINSEY & CO. 2011. Reimaging Japan: The Quest for a Future that Works. VIZ Media LLC: San Francisco..

Um comentário sobre “Helio Michelini: Inspiração “Omotenashi”

  1. O Japão é sempre um exemplo de excelência em administrações públicas pois fazem seus projetos visando anos a frente. Ao contrário, o Brasil mantém suas políticas imediatas e caóticas, com pouco planejamento.
    Pena que nossos representantes não se espelham no modelo nipônico pois assim, teríamos uma melhor administração dos recursos públicos, nos projetando no cenário mundial como a grande potência da América Latina.
    Por hora, somos apenas os palhaços no circo mundial…

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