Helio Michelini: ‘Primavera e pragmatismo’

11-04-2018

 

 

 

Helio Michelini Pellaes Neto, advogado, professor de Relações Internacionais da FAAP e colaborador do Espaço Democrático.

 

A história sugere a primavera como tempo oportuno para mudanças. Por um lado, o despertar das flores sinaliza a esperança de calor e alegria, em contraste ao quase sempre gélido e triste inverno. Por outro, certos discursos de ruptura da ordem vigente foram amplamente encorajados pela primavera, vestindo corações apaixonados em cores hoje obsoletas, à época algo oportunas, mas sempre carregadas de simbolismo.

Assim se revelaram estimulados, por exemplo, os levantes ocorridos em meados do século 19, primeiro na Itália, seguida pela Hungria, Áustria, Alemanha e França, em movimento conhecido como a Primavera dos Povos.

Neste corte heterogêneo, capaz de reunir manifestos similares apenas pela contínua veia revolucionária, a reprimenda imposta aos modelos autoritários vigentes na Europa Ocidental e Oriental partiu de valente resistência liberal, casos da Itália e da Áustria, nacionalista, hipóteses húngara e alemã, e do brado socialista elucidado na infrutífera rebelião dos trabalhistas franceses ante o contorno conservador que circundaria a Segunda República nas mãos do sobrinho de Napoleão.

O avançar do século 20 impõe novo crédito reformista à primavera, desta vez com destaque para a ousadia impressa na antiga Checoslováquia, cujos eventos, sumamente relevantes, ainda que pouco efetivos, sedimentaram a referência à Primavera de Praga.

Digno salientar que neste caso, muito embora a pretendida flexibilização de ordem liberal não tenha logrado resistir ao pesado freio soviético, o abalo sísmico causado naquele país encontrou solução nada menos que na sua fragmentação em dois novos países, deixando sequelas que ensinariam além-mar.

Finalmente, já em princípios do século 21, replica-se matematicamente a lição emancipadora no mundo árabe, começando pela Tunísia, atravessando o Egito, justificando uma guerra civil na Líbia e explicando, em parte, as atrocidades ainda hoje observadas na Síria.

Somados a estes, eventos de maior ou menor magnitude então evidenciados na Argélia, Barein, Djibuti, Iraque, Jordânia, Omã, Iêmen, Kuwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental, consolida-se o grito por reformas atribuídas à Primavera Árabe, cujo alvo mira a opressão imposta por clãs mais ou menos legítimos, sem que as cores azul ou vermelha necessariamente imperem na apresentação das armas em punho.

Pois bem, fato é que a primavera, bem mais que qualquer outra estação do ano, motiva casamentos e divórcios. Nos casos europeus, vimos a pretensão liberal pautar ruptura em face da opressão absolutista, assim como a explosão igualitarista enfrentar inicialmente o poder econômico concentrado, para então projetar termo ao egoísmo de um regime totalitário. Finalmente, o clamor árabe expôs o ocidente (criticando o suporte estadounidense à incógnita ditatura saudita), sem deixar de atingir o Oriente (atacando a sombra russa sob um cruel governante sírio).

O Brasil, país quente, promove eleições também sob a primavera, embora os novos quadros sejam lotados apenas no verão. A ruptura que em 2018 floresce, esperamos, não deve apresentar cores inoportunas, mas sim viabilizar a implementação de reformas pragmáticas claramente urgentes, além de conferir fôlego para que se persista na desconstrução de uma ordem corruptiva que contamina diferentes paixões e impede o desenvolvimento da nação.

Se mantivermos tal ritmo, quiçá possamos desfrutar também a esperança de uma primavera renovadora, evitando a armadilha de mais um verão entorpecido por amores e estereótipos exaustivamente conhecidos.

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