Luiz Alberto Machado: ‘Plano Real, um registro interessante”

12-06-2017

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Está em cartaz desde a última semana de maio o filme Real, o plano por trás da história, que se propõe a relatar os dias que antecederam a implementação do Plano, as polêmicas que cercaram seu anúncio e os anos subsequentes, até o início de 1999, quando houve o ataque à nossa moeda, que provocou a saída de Gustavo Franco da presidência do Banco Central.

Dirigido por Rodrigo Bittencourt, o filme tem por base o livro 3.000 dias no bunker, de Guilherme Fiuza, mas o diretor não se prendeu totalmente ao texto – o que recomendaria mais um documentário –, permitindo-se incluir partes que, como em qualquer ficção, podem ter uma ligação tênue com a realidade, mas dão ao filme um tom bem mais agradável.

O filme retrata um momento crucial da nossa história, qual seja, o da conquista da estabilização da nossa moeda depois de quase uma década marcada por uma sucessão de planos de estabilização malsucedidos: Cruzado (fevereiro de 1986), Cruzado II (novembro de 1986), Bresser (junho de 1987), Verão (janeiro de 1989), Collor I (oficialmente chamado de Plano Brasil Novo, março de 1990) e Collor II (fevereiro de 1991). Todos esses planos, de caráter heterodoxo, tinham como estratégia central a artificialização da economia por meio do congelamento de preços e salários.

Para quem não viveu esse período, ou não tem gravado na memória, a inflação anual do Brasil, em 1993, o ano que antecede a adoção do Plano Real, foi de 2.567%, enquanto a média dos países da América Latina (que na década de 1980, em sua maioria, a exemplo do Brasil, conviveram com a combinação autoritarismo político, estagnação prolongada e inflação elevada) foi de 22%.

Ou seja, os governos civis que conquistaram o poder durante a década – que, na perspectiva política, não pode ser chamada de “década perdida”, por ter sido o período em que os países que iniciaram a década sob regimes autoritários (quase todos) conseguiram fortalecer as instituições democráticas, elegendo livremente seus novos governantes – obedeceram a estratégia de estabilizar as moedas de seus respectivos países e, em seguida, retomar a trilha do crescimento econômico. Com o fracasso dos sucessivos pacotes econômicos, o Brasil tornou-se o “patinho feio” da região.

A meu juízo, fazendo um balanço de ordem estritamente pessoal, o filme Real, o plano por trás da história deixa um saldo bastante positivo como registro de um momento fundamental de nossa história recente.

Não vou me ater à qualidade cinematográfica da obra, pois evidentemente não sou um expert no assunto. Meus comentários a seguir, portanto, refletem o que vi de mais ou menos positivo no filme.

Começando pelo lado pior, os aspectos que me pareceram capazes de dar uma visão muito distorcida do que aconteceu naqueles episódios. A escolha de Gustavo Franco como protagonista pode ser justificada por diversas razões. Quanto a isso, nenhum problema. Porém, o filme dá esse protagonismo ao ex-presidente do Banco Central desde a fase da elaboração do Plano Real, quando o papel por ele desempenhado nessa fase foi de coadjuvante, uma vez que os principais responsáveis por sua concepção foram Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha. Não há dúvida que, com o decorrer do tempo, a participação de Gustavo Franco foi se tornando cada vez mais importante, mas daí a colocá-lo como um dos principais artífices da elaboração do Real vai certa distância.

Também me pareceu superdimensionada a reação de Pérsio Arida ao ser substituído na presidência do Banco Central por Gustavo Franco. Sem deixar de reconhecer a existência de uma espécie de conflito de egos, talvez natural em circunstâncias semelhantes, a reação de Pérsio Arida, segundo integrantes da equipe, não chegou ao extremo mostrado no filme.

Por fim, fiquei com a impressão de que, ao dar o protagonismo a Gustavo Franco, o diretor exagerou no papel de coadjuvantes de alguns integrantes da equipe que, a rigor, tiveram papel preponderante durante todo o governo FHC, como é o caso de ministro Pedro Malan.

Por outro lado, acredito que o diretor foi muito feliz em capturar, em rápidas passagens, o papel de personagens destacados naquela época, alguns dos quais mencionados nominalmente, como os presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e os ministros Rubens Ricupero e José Serra, e outros com nomes fantasia, mas facilmente identificados como Aloysio Mercadante (o Gonçalves do PT) ou a jornalista Miriam Leitão (Vilela, no filme).

Meritória também a coerência de Gustavo Franco refletida no filme em pelo menos dois aspectos. O primeiro deles diz respeito à sua coerência ideológica, ao se colocar claramente e em diversos momentos como um defensor do pensamento econômico liberal. Diferentemente de muitos atores do nosso cenário político-econômico, que procuram omitir sua preferência ideológica, Gustavo Franco jamais escondeu sua inclinação claramente liberal. O segundo diz respeito a suas convicções em termos de teoria econômica, retratada na defesa da não desvalorização da moeda brasileira. Essa intransigente defesa fez com que ele superasse as crises da Ásia, do México e da Rússia. Mas quando o alvo do ataque especulativo foi o Real, a intransigência custou a Gustavo Franco a própria presidência do Banco Central.

Enfim, seria possível fazer diversas outras considerações, o que não é minha intenção, pois poderia reduzir o interesse dos leitores em assistir ao filme. O próprio Gustavo Franco, em depoimento a O Estado de S. Paulo, disse ter se sentido incomodado de ser personagem central do filme afirmando que “isso não deveria diminuir o fato de que foi um esforço coletivo, de equipe”. Reconheceu, na mesma entrevista, que “para um público que não teve exposição a isso [o filme] é muito bacana”.

Tendo assistido ao filme numa sessão seguida de debates exclusiva para professores e alunos do primeiro ano do Curso de Economia da FAAP, concordo plenamente com a opinião de Gustavo Franco. O interesse dos alunos pelo tema cresceu consideravelmente depois dessa experiência.

 

Referências bibliográficas

FIUZA, Guilherme. 3.000 dias no bunker. Rio de Janeiro: Record, 2010.

FRANCO, Gustavo. ‘Filme sobre o Plano Real é uma fábula’. Entrevista a Vinicius Neder. O Estado de S. Paulo, 4 de junho de 2017, p. B 5.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *