Luiz Alberto Machado: ‘Uber e destruição criativa’

06-11-2017

 

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Volta e meia surgem, quer nos meios acadêmicos quer nas redações ou conversas entre especialistas, discussões do tipo: Qual o maior economista brasileiro? Ou ainda, qual o maior economista do século XX?

São, evidentemente, perguntas de difícil resposta, uma vez que há sempre algum grau de subjetividade por parte de quem responde a qualquer uma delas. Sem contar que há outros aspectos que interferem na resposta, como, por exemplo, o local em que a pergunta é respondida, a preferência ideológica de quem a responde e a própria circunstância temporal, podendo estar a economia num ciclo de crescimento ou num período de crise e recessão.

Mesmo considerando todas essas restrições, nas discussões sobre o maior economista do século XX, os nomes que aparecem com maior frequência são os de John Maynard Keynes, inglês que deu origem a uma escola de pensamento que leva seu próprio nome; de Friedrich Hayek, da terceira geração da chamada escola austríaca; do norte-americano Milton Friedman, grande expoente da escola monetarista; e de Joseph Schumpeter, nascido em Triesch, na Moravia, província austríaca hoje pertencente à República Checa, mas cujo pensamento, de difícil enquadramento, seguramente não o faz um integrante da escola austríaca.

Nestas últimas semanas, o nome de Schumpeter me veio à cabeça várias vezes em decorrência da discussão em torno da proibição ou não do Uber, o controvertido aplicativo que tem gerado uma série de tensões não apenas no Brasil, mas em diversas outras partes do mundo.

Mas o que me levou a escrever esse breve artigo foi uma nota de Artur Mendes publicada em 2016, no jornal O Povo, que nestes tempos de discussão acirrada, viralizou na internet. O texto da referida nota, num comentário a respeito da inovação tecnológica que tem revolucionado o comportamento das pessoas no mundo e dos mecanismos que irão substituir diversas profissões nos próximos anos, é o seguinte:

No século VXIII, Thomas Edison irritou acendedores de lampião. Em 1900, Ford irritou cocheiros. Em 1920, Marconi irritou gravadoras. Nos anos 30, a TV irritou o rádio. Hoje, Uber irrita taxistas, WhatsApp irrita teles, Netflix irrita TVs e Tesla irrita petroleiros. Enfim, o progresso é esperança dos povos e o desespero dos acomodados.

A nota de Arthur Mendes remete diretamente à noção de destruição criativa, um conceito criado por Schumpeter no livro Capitalismo, socialismo e democracia, que foi publicado em plena Segunda Guerra Mundial, no ano de 1942.

Tal conceito, de certa forma um complemento da ênfase atribuída por Schumpeter à importância do empreendedor e da inovação como motores da evolução do capitalismo, é assim descrito pelo professor de empreendedorismo da UFCG (Universidade Federal de Campina Grande) Robert K. Menezes:

As tecnologias realmente destroem, ao mesmo tempo em que criam. Cada nova tecnologia destrói, ou pelo menos diminui, o valor de velhas técnicas e posições mercadológicas. O novo produto ocupa o espaço do velho produto e novas estruturas de produção destroem antigas estruturas. O progresso é consequência deste processo destruidor e criativo.

O processo de destruição criativa promove as empresas inovadoras, que respondem às novas solicitações do mercado, e fecha as empresas sem agilidade para acompanhar as mudanças. Ao mesmo tempo, orienta os agentes econômicos para as novas tecnologias e novas preferências dos clientes. Elimina postos de trabalho ao mesmo tempo em que cria novas oportunidades de trabalho e possibilita a criação de novos negócios. Para Schumpeter, o desenvolvimento econômico está fundamentado em três fatores principais: as inovações tecnológicas, o crédito bancário e o empresário inovador. Este empresário inovador, mencionado por Schumpeter, é capaz de empreender um novo negócio, mesmo sem ser dono do capital.

Nas palavras do próprio Schumpeter:

O capitalismo, então, é, pela própria natureza, uma forma ou método de mudança econômica, e não apenas nunca está, mas nunca pode estar, estacionário. E tal caráter evolutivo do processo capitalista não se deve meramente ao fato de a vida econômica acontecer num ambiente social que muda e, por sua mudança, altera os dados da ação econômica; isso é importante e tais mudanças (guerras, revoluções e assim por diante) frequentemente condicionam a mudança industrial, mas não são seus motores principais. Tampouco se deve esse caráter evolutivo a um aumento quase automático da população e do capital ou aos caprichos dos sistemas monetários, para os quais são verdadeiras exatamente as mesmas coisas. O impulso fundamental que inicia e mantém o movimento da máquina capitalista decorre dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria.

A partir dessas considerações, conclui em seguida:

A abertura de novos mercados – estrangeiros ou domésticos – e o desenvolvimento organizacional, de oficina artesanal aos conglomerados como a U. S. Steel, ilustram o mesmo processo de mutação industrial – se me permitem o uso do termo biológico – que incessantemente revoluciona a estrutura econômica a partir de dentro, incessantemente destruindo a velha, incessantemente criando uma nova. Esse processo de Destruição Criativa é o fato essencial acerca do capitalismo. É nisso que consiste o capitalismo e é aí que têm de viver todas as empresas capitalistas.

Portanto, Schumpeter tem uma visão positiva da destruição criativa, argumentando que as inovações, embora tenham impactos negativos sobre determinado grupo de pessoas no curto prazo, representam, no longo prazo, possibilidades de crescimento econômico e novas oportunidades de geração de emprego e renda. Esses impactos tendem a ser maiores nas chamadas inovações disruptivas, que implicam em mudanças de paradigmas (no sentido atribuído à expressão por Thomas Kuhn) do que nas inovações incrementais, de acordo com as tipologias criadas por Clayton Christensen em O dilema da inovação. Para Schumpeter, em resumo, a eficiência histórica do capitalismo se deve em grande parte a essa capacidade de se reinventar permanentemente por meio da destruição criativa.

Os ciclos de mudança ocorrem com mais intensidade nas chamadas revoluções tecnológicas (ou revoluções industriais) e o uso intensivo de aplicativos como o Uber (e o Airbnb, que irrita as redes hoteleiras) é parte integrante da quarta revolução tecnológica, também conhecida como Indústria 4.0, em curso no mundo atualmente, juntamente com a internet das coisas, a impressão em 3D, o big data, o carro autônomo e tantas outras novidades.

Nem todos, porém, pensam da mesma forma. Economistas pertencentes a outras escolas de pensamento, como os keynesianos ou os marxistas, por exemplo, têm explicações diferentes para o processo de crescimento econômico e, não raras vezes, extremamente críticas à destruição criativa. Num livro que tem o sagaz título A inovação destruidora, Luc Ferry contrapõe as visões de Keynes e de Schumpeter. Já um bom exemplo da visão crítica à destruição criativa pela ótica marxista pode ser vista num conceito identificado como obsolescência planejada, magistralmente descrita por István Meszáros no livro Produção destrutiva e estado capitalista.

Encerro este breve artigo reconhecendo: (i) que a grandeza de Schumpeter não é unanimidade entre os analistas; (ii) que a destruição criativa não é bem aceita por muita gente; e (iii) que o capitalismo vive sendo apontado como nefasto e causador de uma série de problemas. Mesmo com tudo isso, concluo recorrendo a uma famosa citação de Winston Churchill sobre a democracia, adaptando-a ao capitalismo: “O capitalismo é o pior sistema econômico imaginável, à exceção de todos os outros que foram experimentados”.

 

Referências e indicações bibliográficas e webgráficas

CHRISTENSEN, Clayton M. O Dilema da Inovação. Tradução de Edna Emi Onoe Veiga. São Paulo: Makron Books, 2001.

FERRY, Luc. A inovação destruidora: ensaio sobre a lógica das sociedades modernas. Tradução de Vera Lucia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 5ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1982.

MACHADO, Luiz Alberto. Grandes Economistas – Schumpeter, o empreendedorismo e a destruição criativa. Disponível em http://www.souzaaranhamachado.com.br/2006/09/grandes-economistas-schumpeter/.

McCRAW, Thomas K. O profeta da inovação. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2012

MENEZES, Robert K. Destruição criativa – a contribuição de Schumpeter para o empreendedorismo. Disponível em http://www.cdvhs.org.br/oktiva.net/1029/nota/450/.

MESZÁROS, István. Produção destrutiva e estado capitalista. Tradução de Georg Toscheff. São Paulo: Ensaio, 1996.

ROSSINI, Silvia (e colegas do curso de bacharelado em Direito do Campus Unic de Cuiabá – Beira Rio 2). Inovações dos Negócios Jurídicos: Transporte Urbano Alternativo – Aplicativo Uber. Disponível em https://asrossini.jusbrasil.com.br/artigos/459802114/inovacoes-dos-negocios-juridicos?ref=topic_feed.

SALENGUE, Daniel. O que é Destruição Criativa? Disponível em https://destruicaocriativa.com.br/destruicao-criativa/.

_______________ Schumpeter, economista, cientista político e pai da Destruição Criativa. Disponível em https://destruicaocriativa.com.br/schumpeter/.

SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do desenvolvimento econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. Introdução de Rubens Vaz da Costa. Tradução de Maria Sílvia Possas. São Paulo: Abril Cultural, 1982. (Os Economistas)

______________ Capitalismo, socialismo e democracia. Introdução de Tom Bottomore. Tradução de Sérgio Góes de Paula. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução de Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 2016.

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