PIB no buraco e com saída mais lenta  

04-06-2018

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

No dia 30 de maio o IBGE anunciou que no primeiro trimestre de 2018 o Produto Interno Bruto (PIB) da economia brasileira cresceu 0,4% relativamente ao trimestre anterior, descontada a variação sazonal.

A tabela abaixo mostra, na sua primeira linha de dados, essa variação e as quatro anteriores do mesmo tipo, que assumiram valores positivos em 2017, depois de oito trimestres de taxas negativas no biênio 2015-2016.

Fonte: IBGE – Contas Nacionais Trimestrais

Percebe-se na tabela uma queda das taxas mensais já ao longo de 2017, no qual a do primeiro trimestre foi muito beneficiada pela safra agrícola recorde, colhida principalmente nesse período, que então elevou o produto da agropecuária em 13,4%. Para o crescimento de 0,4% do PIB no primeiro trimestre de 2018 o crescimento da agropecuária foi também muito importante. Ela mostrou um desempenho muito bom, mas seu crescimento, dado o já elevado nível da safra anterior, foi só de 1,4%, mas que se mostrou muito superior ao ocorrido, no mesmo período, na indústria e nos serviços, de apenas 0,1% nos dois casos.

Com essas cinco taxas da primeira linha da tabela, o PIB brasileiro ainda permanece no buraco em que se meteu no biênio 2015-2016, quando caiu 3,8%, no primeiro ano, e 3,5%, no segundo. Como se percebe, a recuperação tem sido lenta. Outros dados do IBGE mostram que com o crescimento registrado no primeiro trimestre de 2018, o PIB voltou a um valor um pouco abaixo do que tinha no segundo trimestre de 2011(!).  Mais uma década perdida…

 

Observando-se o PIB pelo lado da demanda, a partir da segunda linha da mesma tabela, o consumo das famílias aumentou 0,5% depois de uma elevação de apenas 0,1% no último trimestre de 2017. Mas no segundo e terceiro trimestres de 2017 esse aumento havia sido de 1,1% em cada caso, mostrando assim menor crescimento nos dois trimestres mais recentes. No consumo do governo, as taxas foram predominantemente negativas, revelando que a queda das receitas tributárias e o teto dos gastos, este no caso da União, impediram o aumento das despesas.

O investimento, ou formação bruta de capital fixo, subiu 0,6% no primeiro trimestre de 2018, taxa essa que representa um declínio relativamente aos valores observados nos dois trimestres anteriores (2,1% e 2%, respectivamente, contando do mais recente), que vinham mostrando um crescimento mais acentuado.

Também no primeiro trimestre de 2018 as importações de bens e serviços subiram 2,5%, enquanto que as exportações tiveram um crescimento menor, de 1,3%, levando assim à usual, mas hoje pequena, contribuição negativa do setor externo para a variação do PIB.

Portanto, 2018 começou pior do que 2017, prejudicando as perspectivas para o crescimento do PIB no ano corrente, que já haviam começado a definhar no longo do primeiro trimestre, conforme as previsões do boletim Focus do Banco Central. Assim, no boletim de 5/1/18, a previsão era de 2,7%, que subiu para 2,9 % em 2/3/18, mas depois passou a cair e estava em 2,4% em 25/5, quando a paralização dos caminhoneiros estava chegando ao ápice e os dados do PIB do primeiro trimestre ainda não haviam sido divulgadas pelo IBGE.

Quando isso ocorreu, as avaliações dos analistas foram de um novo desalento, e quando escrevia este artigo, logo em seguida, a paralização estava em refluxo, mas já se passava à contagem, de modo ainda muito precário, do seu prejuízo para o PIB. Tal prejuízo pode continuar mesmo com o fim da paralização, pois ela pode ter prejudicado a confiança do consumidores e dos empresários quanto ao futuro, o que afetaria negativamente suas decisões de consumir e de investir.

Refletindo com números sobre esse futuro, verifiquei que o crescimento do PIB em 2017 já garantiu um crescimento de 0,85% para o PIB de 2018, desde que mantido o nível a que chegou no seu primeiro trimestre.  Ou seja, fazendo o PIB de dezembro de 2016 = 100, ele atingiu os índices de 101,1, 101,71, 102,01 e 102,22 do primeiro ao quarto trimestre de 2017, o que dá um valor médio de 101,76 ao longo do ano.  Com o crescimento de 0,4% no primeiro trimestre deste ano, o índice do quarto trimestre de 2017 passou a 102,63 nesse primeiro trimestre. Mantido este valor médio ao longo do ano, tal valor, comparado com o valor de 2017, já citado (101,76), levaria ao citado crescimento de 0,85% do PIB em 2018. É o que os economistas chamam de transferência, “carry over” ou arrasto do crescimento de 2017.

Mas esse crescimento não deve ficar por aí. Supondo um crescimento médio de 0,5% por trimestre nos três restantes de 2018, o índice médio do ano chegaria a 103,40, valor que novamente comparado com o valor médio de 2017, já citado (101,76), levaria a 1,6% de variação do PIB em 2018.

Mas as dúvidas em torno desse número são muitas, em face das fortes incertezas que hoje contaminam a economia e a política no País.  Nessas condições, e usando recomendação que fazia quando professor de Estatística e Econometria, optarei por uma previsão por intervalo, de um crescimento de entre 1,4% e 1,8% do PIB em 2018.

 

 

 

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