Primeiras interpretações históricas: visão cronológica ou factual e visão cíclica

08-12-2017

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

“O estudo dos ciclos econômicos deve se basear em uma teoria dos ciclos que seja satisfatória. Mergulhar em um maço de dados estatísticos sem um ‘pré-julgamento’ é inútil. Os ciclos ocorrem no mundo econômico, portanto uma teoria útil sobre ciclos econômicos deve ser integrada à teoria econômica geral. E, ainda assim, tal integração, ainda que uma simples tentativa, é a exceção, e não a regra. A ciência econômica, nas últimas décadas, foi perversamente fissurada e dividida em inúmeros compartimentos herméticos — cada esfera raramente se relaciona às outras. Somente nas teorias de Schumpeter e Mises a teoria dos ciclos foi integrada à economia geral.”
Murray Rothbard

1. Considerações preliminares

As correntes de interpretação do Brasil apresentadas até agora foram de caráter predominantemente econômico, embora algumas apresentassem também flagrante conteúdo histórico, como, por exemplo, as correntes marxista, dependentista e patrimonialista.

As duas correntes de interpretação apresentadas neste artigo são, ao contrário, de caráter predominantemente histórico, ainda que a visão cíclica possa também se apresentar com viés econômico.

Tratam-se, a rigor, de duas formas pioneiras de interpretar a história, caracterizando-se muito mais pela preocupação de registrar os principais fatos, isoladamente ou em blocos, do que em analisá-los criticamente. Outra característica desses modelos de análise é a falta de maior preocupação com o estabelecimento de relações de causalidade entre os diferentes fatos elencados, justamente uma das principais preocupações dos modelos de análise mais recentes e sofisticados.

 

2. A visão cronológica ou factual

Caracterização

Procura apontar os principais fatos ocorridos no cenário sócio-político-econômico, normalmente ordenando-os em sequência cronológica, e sem maior preocupação de interpretá-los ou analisá-los.

Tal forma de interpretação transformava a História numa disciplina estanque, na qual decorar datas, nomes e fatos tornava-se o principal objetivo. Muita gente tem verdadeiro trauma do estudo da História, e esse trauma decorre, quase sempre, das exigências, muitas vezes descabidas, de professores que se utilizavam deste modelo de análise atualmente considerado bastante ultrapassado.

Quantos, da minha geração, não ouviram broncas homéricas de seus pais com o seguinte argumento: “Seu vagabundo, tirando nota baixa em História! Em Português, Matemática ou Ciências ainda dá pra aceitar, pois são matérias difíceis, que envolvem muitos conceitos e raciocínios complexos. Mas em História e Geografia, matérias em que basta decorar o assunto, isso é inadmissível!!!”. E haja castigo…

Principais nomes

• Capistrano de Abreu
• Pandiá Calógeras
• Rocha Pombo
• Oliveira Vianna (já se preocupava em fazer uma análise crítica)

 

3. A visão cíclica

Caracterização

Mostra a evolução histórica através da divisão do processo evolutivo em períodos determinados, que recebem o nome de ciclos. Esses ciclos podem ser determinados por acontecimentos políticos, econômicos, culturais ou outros, que sirvam para identificar certo período. No caso específico da economia brasileira, procura-se mostrar a evolução através do papel representado pela predominância de diversos produtos que, em diferentes períodos, foram determinantes para os acontecimentos envolvendo a sociedade brasileira.
A interpretação mais comum é a que identifica a evolução histórica do Brasil dividindo-a em dois grandes momentos: o primeiro, que se estende do descobrimento até a década de 1930, e que compreende o período colonial e o período da economia primário-exportadora, é denominado de modelo de desenvolvimento voltado para fora; o segundo, que vai da década de 1930 aos dias de hoje e que se caracteriza pelo processo de industrialização e seus desdobramentos, é chamado de modelo de desenvolvimento voltado para dentro, como pode ser visto no quadro 1.

Quadro 1
Visão tradicional da formação histórica do Brasil

 

As características fundamentais de cada um desses modelos são:

Modelo de crescimento voltado para fora

• Produção determinada pelas necessidades do mercado externo (exportação);
• Produção restrita quase que exclusivamente ao setor primário (agricultura, pecuária e extrativismo);
• Baixo índice de produtividade;
• Sociedade dualista (praticamente sem classe média);
• Mão-de-obra predominantemente escrava.

Modelo de crescimento voltado para dentro

• Produção voltada prioritariamente ao atendimento das necessidades internas;
• Processo de industrialização baseado na substituição gradual das importações;
• Urbanização e sensível ascensão dos extratos médios da população;
• Diversificação cada vez maior da produção;
• Implantação de métodos mais modernos de gestão e novas tecnologias, permitindo elevação da produtividade dos fatores de produção.

A visão cíclica fica claramente evidenciada no modelo de crescimento voltado para fora, ao longo do qual os autores apontam a sucessão dos famosos ciclos econômicos: do açúcar, do ouro e do café, segundo a interpretação mais comum. Alguns autores citam, além desses, os ciclos do pau-brasil, da borracha, do tabaco e do cacau.

A expansão territorial brasileira teve uma relação indissociável com as atividades econômicas. Os ciclos econômicos foram o motor propulsor não apenas da expansão territorial, como também da dinâmica de ocupação, uma vez que os deslocamentos populacionais ocorriam sempre em direção aos polos de maior desenvolvimento econômico em cada época.

Também no modelo de crescimento voltado para dentro, que em certo momento se caracterizou pela estratégia da substituição gradual das importações, que pode ser visualizada no quadro 2, alguns autores identificam certos ciclos, determinados pelo próprio processo de desenvolvimento tecnológico. De acordo com tal interpretação, o primeiro ciclo, que vai, grosso modo, de 1930 a 1945, é marcado pela produção de bens de consumo primário, com destaque para as indústrias siderúrgica, têxtil e alimentícia; o segundo ciclo, que vai de 1945 a 1960/64, é marcado pelo predomínio da produção de bens de consumo duráveis, com destaque para a indústria automobilística que teve grande impulso nesse período, sendo uma espécie de carro-chefe da política econômica do presidente Juscelino Kubistchek; e o terceiro ciclo, posterior a 1964, marcado pela ênfase na produção de bens de capital.

Quadro 2
Evolução do Modelo de Substituição de Importações

 

Para concluir, duas observações.

1ª) Com o passar do tempo, à medida que a metodologia e o foco das análises históricas foram se tornando mais sofisticadas, é possível observar textos que combinam a utilização da visão cíclica com enfoques mais elaborados, como são os casos, por exemplo, dos livros Da substituição de importações ao capitalismo financeiro, da Profª Maria da Conceição Tavares, ou do consagrado Formação econômica do Brasil, de Celso Furtado.

2ª) Saindo da esfera local, a visão cíclica pode ser encontrada também na área da economia do desenvolvimento, na qual predominou, por determinado período – do final do século XIX até meados do século XX, uma abordagem linear do desenvolvimento, na qual os países evoluíam passando por uma série de etapas sucessivas. Nesse processo, cada etapa correspondia a um ciclodo processo evolutivo, mudando apenas a denominação de cada etapa e o seu princípio motivador. Em Marx, cada etapa desse processo consiste num modo de produção e o motor da história é a luta de classes. Em As etapas do desenvolvimento econômico, de W. W. Rostow, que tem o sugestivo subtítulo Uma teoria não comunista, os fatores motivadores que levam à transição de uma etapa para outra são a tecnologia e o knowhow. Outro autor consagrado, que teve obras que se transformaram em verdadeiros best-sellers, com abordagem semelhante, foi Alvin Toffler, durante um bom tempo um dos mais requisitados conferencistas de todo o mundo. Em sua trilogia iniciada com O choque do futuro, continuada com A terceira onda, e concluída com Powershift: as mudanças no poder, a visão cíclica representada pelo processo evolutivo linear fica claramente evidenciada em A terceira onda. Nessa obra, Tofflerdá ênfase à produção, chamando de ondas as revoluções agrícola, industrial e dos serviços, correspondendo cada uma delas a um ciclo determinado.

Principais nomes

• Roberto Simonsen
• Joaquim Silva
• Celso Furtado
• Maria da Conceição Tavares
• Alvin Toffler

 

 

Referências bibliográficas

ABREU, João Capistrano de. Capítulos de história colonial. 7ª ed. São Paulo: Itatiaia, 1988.

______________ Caminhos antigos e povoamento do Brasil. São Paulo: Itatiaia, 1989.

______________ O descobrimento do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil.São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2003.

ROCHA POMBO, José Francisco da. História do Brasil. São Paulo: Editora “Weiszflog Irmãos”, 1919.

ROSTOW, W. W. Etapas do desenvolvimento econômico: um manifesto não comunista. Tradução de Octavio Alves Velho e Sergio Goes de Paula. Revisão de Cassio Fonseca. 5ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

SILVA, Joaquim. História do Brasil.São Paulo: Companhia Editora Nacional, s/d.

SIMONSEN, Roberto. História econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 1978.

TAVARES, Maria da Conceição. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. 5ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1994.

______________ A terceira onda. 26ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2000.

______________ Powershift: As mudanças do poder. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1995.

VIANNA, Oliveira. História social da economia capitalista no Brasil (2 volumes). São Paulo: Itatiaia, 1988.

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