Rafael Auad: ‘Muito mais que uma fraude’

09-05-2018

 

Rafael Ganzerli Auad, engenheiro de Minas pela Escola Politécnica da USP, coordenador do PSD Jovem no Estado de São Paulo e pré-candidato a deputado estadual em São Paulo pelo PSD.

 

Quando tive a oportunidade de passar uma semana em Washington DC, em março do ano passado, participando de um seminário sobre campanhas eleitorais, o tema em discussão não tinha como ser outro que não a eleição de Donald Trump.

Goste ou desgoste do presidente americano, o fato é que a vitória eleitoral do bilionário chacoalhou o status quo dos especialistas e da imprensa ao redor do mundo. De todos os reflexos sísmicos desse abalo estrutural, um, em especial, é o objetivo desse texto.

A consolidação de uma expressão tão simples, mas ao mesmo tempo tão forte, que persiste até hoje como uma preocupação: You’re Fake News!

Dia após dia, durante e após a sua eleição, o presidente americano trouxe à luz um pouco mais da expressão fake news (FN) para justificar as “mentiras” que os veículos tradicionais traziam contra sua imagem.

Como estamos diante de uma eleição nacional, o caso americano serve de exemplo para o brasileiro, despertando o interesse da imprensa nacional e da Justiça Eleitoral sobre o tema das FN.

A existência de notícias falsas, como traduzido ao pé da letra, não é exatamente um fenômeno recente. Muito pelo contrário, os registros de notícias falsas datam de séculos. Então, por que será que só agora se da tanta atenção ao assunto, tanto aqui como lá fora?

Evidentemente, a internet e as redes sociais desempenham um papel fundamental nessa resposta, uma vez que a velocidade de propagação da informação no século XXI tomou proporções nunca antes pensadas, e ajudam a desorganizar (descentralizar) o debate político e do Estado tal qual ele se pautava no século XX, exclusivamente através da mídia tradicional.

Contudo, há algo a mais.

Como observou o jornalista Eduardo Oinegue em debate promovido pela Fundação Espaço Democrático sobre o tema, para compreender de verdade o fenômeno das FN é preciso fazer uma diferenciação entre notícias falsas divulgadas por engano e aquelas divulgadas com o objetivo intencional de prejudicar a imagem de um indivíduo; as notícias fraudulentas.

FN são fraudes intencionais, ou seja, crime. Não só contra o indivíduo a quem se dirigem (a vítima, propriamente dita), como também contra os cúmplices desse crime, que são o conjunto da sociedade.

De mão em mão, a FN se espalha em uma velocidade incontrolável, apoiada em um fenômeno químico e cognitivo do nosso cérebro que nos remete ao efeito manada, de querer fazer parte de um grupo que está alinhado sobre uma determinada informação, mesmo que esse grupo seja, num primeiro momento, constituído de robôs programados para espalhar essa informação.

É claro que existem orientações para lidar com esse fenômeno, como checar as fontes da “notícia”, verificar se ela parte de um veículo confiável e, principalmente, em caso de dúvida, não compartilhar.

Mas essas orientações apenas mitigam as consequências de um mal inevitável. Como não vivemos dentro do filme Minority Report, é impossível prever a geração de notícias fraudulentas ou mesmo quem são seus autores antes que ela surja e se espalhe.

Talvez por isso, seja mais importante que nós nos atentemos à forma como reagimos às notícias do que focar em combatê-las em sua raiz.

Até porque a forma como reagimos é o que de fato traz impacto para as notícias, e isso é algo válido para muito além das consequências políticas. Não só a imagem e a reputação das pessoas que podem ser destruídas por conta de uma fraude, como a vida, em si pode correr riscos.

Há dois anos, no dia 3 de maio de 2016, Fabiane Maria de Jesus foi espancada no Guarujá (SP) após correrem boatos nas redes sociais acusando-a de sequestrar crianças para a prática de bruxaria. Ela morreu dois dias depois.

Quando as fraudes influenciam nossas atitudes, deixam de ser notícias e se tornam uma doença, e doenças têm que ser combatidas. Deve-se, assim, por obrigação, combater as Fake News.

Breves exemplos desse combate são de festejar. Projetos como a Agência Lupa – especializada em fact checking – que busca desmontar informações inverídicas em circulação, e também o projeto internacional Internet Fact-Checking Network, que serve como uma certificadora de sites que se especializam em avaliar a veracidade de notícias, caem como antibióticos em um organismo virtual desprovido de defesas.

Mais do que se espelhar em tais iniciativas, que transformam as adversidades em motriz para mudanças no uso da internet, cabe-nos também um contínuo esforço crítico da forma com a qual patrocinamos, em nossas navegações particulares, a proliferação de Fake News.

Uma mudança de hábitos que nasça do próprio cidadão tem toda força para alterar os padrões de multiplicação desse vírus.

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