Roberto Macedo: ‘A Petrobras em recuperação’

01-12-2017

 

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

No último dia 27 de novembro assisti a uma interessante palestra do presidente da Petrobras, Pedro Parente, na Associação Comercial de São Paulo (ACSP). A apresentação que fez nessa ocasião está disponível no portal da Petrobras.

Trabalhamos juntos na equipe do ministro Marcílio Marques Moreira, que entre 1991 e 1992 comandou o então Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento. Parente já vinha de experiências no Banco do Brasil, no Banco Central e no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), do qual foi presidente.

Notei que tinha uma capacidade executiva enorme no âmbito do setor público, no sentido de fazer acontecer o que lhe era solicitado pelo ministro Marcílio, por outros membros da equipe econômica ou mesmo iniciativas suas. Depois acompanhei sua carreira no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, onde passou pela chefia da Casa Civil e destacou-se na gestão do programa de racionamento de energia, entre 2001 e 2002. Ao sair, passou ao setor privado, onde foi vice-presidente executivo do grupo gaúcho RBS, o maior grupo de comunicação do Sul do país. Em seguida, presidente da Bunge Brasil, multinacional voltada para o agronegócio. E no governo Temer assumiu o grande desafio de presidir a Petrobras, que encontrou em estado lastimável. Em retrospecto, entre os que não são políticos de carreira, considero Pedro Parente o mais competente executivo do setor público brasileiro.

Ele assumiu a Petrobras em junho de 2016 e a encontrou com uma dívida bruta perto de US$ 115 bilhões, que chegou a esse número a partir de apenas cerca de US$ 20 bilhões, em 2008. Em termos relativos, em 2016 essa enorme dívida, avaliada no seu valor líquido, equivalia a 3,5 vezes o indicador empresarial conhecido como EBITDA (lucros antes de pagamentos de juros, impostos e provisões para depreciação). Parente comparou essa situação à de outras 11 outras empresas do ramo. Apenas quatro mostravam, pelo mesmo cálculo, valores superiores a duas vezes, o maior sendo 2,7 – a média das onze era 1,6. O Plano de Negócios e Gestão (PNG) da empresa para o período 2017-2021 tem, entre outras metas, a de reduzir o referido valor de 3,5 para 2,5 vezes.

Parente disse que via a Petrobras como uma vítima dos escândalos revelados pela Operação Lava Jato, não se podendo culpar a empresa e seus empregados genericamente. O que houve foi que um grupo de diretores e altos funcionários mancomunados com políticos inescrupulosos foram responsáveis por um enorme escândalo de corrupção que causou enorme prejuízo à empresa, tanto em valores como à sua imagem.

Outra dificuldade, essa vinda do mercado internacional, foi que o preço do petróleo “Brent”, padrão internacional, que chegou a alcançar US$ 108,7 o barril, em 2013, caiu para US$ 98,9 em 2014 e apenas US$ 52,3 em 2015, chegando ao mínimo de US$ 44,1 em 2016. Em 2017, na média até 23 de novembro, mostrou alguma recuperação, passando a US$ 53,3, em particular porque nos últimos três trimestres o mercado passou a enfrentar uma situação de equilíbrio ou de excesso de demanda, enquanto que, conforme os dados apresentados, desde o primeiro trimestre de 2015 era marcado por um excesso de oferta.

Há vários outros desafios. Entre eles, há transformações na oferta com o surgimento de novas fontes de petróleo, mudanças geopolíticas, maior difusão de energias renováveis e de novas tecnologias e materiais para a extração do petróleo. Do lado da demanda, há a difusão de veículos elétricos, mudanças em padrões globais de demanda, tecnologias para armazenamento de energia, novos modelos para distribuição de eletricidade e políticas climáticas que impõem uma redução das emissões de poluentes que vêm do uso do petróleo e seus derivados.

Parente também esclareceu que os investimentos da Petrobras passaram a ser focados mais em óleo e gás e nas reservas do pré-sal, pois apresentam maior rentabilidade, sendo ele também muito competitivo em termos globais, gerando ganhos desde que o preço esteja entre US$ 25 e US$ 35 por barril, conforme dados de 2016. Note-se que na zona hoje de maior rentabilidade, o Oriente Médio, essa faixa está entre USS$ 20 e 40 por barril.

Há programas voltados para a redução da “taxa de acidentados registráveis”, de gastos operacionais gerenciáveis, de número de empregados e de ampliação de parcerias e de desinvestimentos. Essa ampliação deve alcançar US$ 21 bilhões no período 2017-2018. Entre 2017 e 2021 serão adicionadas 18 novas unidades de produção, o que elevará a produção diária de petróleo do país de 2,17 milhões de barris em 2017 para 2,77 milhões de barris em 2021, inclusive o gás natural que vem junto com o petróleo. Recentemente o pré-sal já passou a responder por 51% da produção diária e a perspectiva é que essa porcentagem continue crescendo nos próximos anos, relativamente à obtida no pós-sal e na produção terrestre.

Também mostrou melhorias nos resultados da Petrobras desde 2016. Entre outros aspectos, o endividamento total caiu de US$ 124 bilhões para US$ 114 bilhões entre o segundo trimestre de 2016 e o terceiro de 2017, quando houve também um aumento do valor de mercado da empresa a partir do terceiro trimestre. A taxa média de juros de captação dos títulos da companhia caiu fortemente. Por exemplo, a dos títulos de 10 anos caiu de cerca de 10% ao ano, em junho de 2016, para cerca de 6% ao ano, em novembro de 2017.

A plateia presente ao evento mostrou forte contentamento com a apresentação. Na direção da Petrobras destaco também a pessoa do presidente do seu Conselho de Administração, o economista e contador Luiz Nelson Guedes de Carvalho, que também participou da equipe já citada, como diretor de Fiscalização do Banco Central. Ele era e continua sendo considerado uma pessoa muito dura no acompanhamento que faz das decisões e contas que chegam à sua avaliação.

Os desafios que a Petrobras enfrenta são amplos, complexos. É enorme o desastre deixado pela corrupção que assolou a empresa, mas estou convencido de que sob sua nova direção segue firmemente um intenso processo de recuperação.

 

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