Roberto Macedo: ‘Juventude é a maior vítima da crise’

06-10-2017

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

Uma das melhores passagens da minha vida foi conseguir um emprego formal ainda adolescente, num banco, em Belo Horizonte, o que mudou minha vida para muitíssimo melhor, e por várias razões. Entre elas, tornei-me financeiramente independente da minha família, muito grande e de recursos escassos. Ademais, a necessidade deles, inclusive para fins educacionais, crescia na adolescência. E vi que o trabalho insere a pessoa no meio social, fazendo com que se afirme perante seu grupo, cultivando relacionamentos, e aprendendo a resolver conflitos pessoais e grupais. E é o caminho para conquistas maiores.

Volto a esse passado porque, ao ver as chocantes estatísticas de desemprego no Brasil, confirmei que ele é muito maior entre os mais jovens. Mesmo sem ter passado por dificuldades semelhantes, posso imaginar a imensa frustração pessoal, profissional e social que eles sofrem ao procurar e não conseguirem trabalho. Voltaire disse que trabalhar nos livra de três grandes males: o aborrecimento, o vício e a necessidade. No Brasil de hoje, caberia acrescentar ainda outro grave mal: a criminalidade, rota que muitos jovens seguem, até por não terem o trabalho como alternativa.

Antes de números, cito reportagem que também me levou ao tema. Veio na última sexta-feira no caderno de fim de semana do jornal Valor, assinada por Ricardo Lessa e apropriadamente intitulada A juventude encalacrada. Lessa entrevistou moradores das favelas Heliópolis, em São Paulo, e do Sapo, no Rio de Janeiro, onde também foi à Vila Kennedy. Mostra um quadro desolador, de jovens pobres que perderam o emprego e hoje vivem de bicos, ou que já tinham uma ocupação informal, como lavar carros, cujo movimento caiu. Mas permanecem no seu esforço de melhorar de vida, ainda que parecendo acreditar mais em si mesmos do que no País.

Essa reportagem é muito útil para mostrar como a crise chega aos jovens mais pobres, as dificuldades por que passam e o que fazem para enfrentá-las, revelando quão dramático é o impacto da crise. Contudo, a questão é ainda mais séria, pois, por estarem trabalhando, alguns jovens entrevistados nem seriam contados como desempregados, já que as estatísticas usualmente definem como tal as pessoas que não trabalham e procuram trabalho. Ademais, em face do pequeno número de entrevistados, a reportagem não apresenta a enorme dimensão do problema.

Passando às estatísticas, as que tratam do assunto de forma bem ampla vêm da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua (PnadC), do IBGE, que cobre a população brasileira com 14 ou mais anos de idade. A PnadC fornece dados trimestrais e os mais recentes são os do período de junho a agosto deste ano. Eles revelaram uma força de trabalho (ocupados mais desocupados à procura de emprego) de 104,2 milhões pessoas, das quais 13,2 milhões, ou 12,6%, estavam desocupadas.

Os dados também mostram os porcentuais desse total de desocupados por cinco faixas etárias: 14 a 17 anos, 18 a 24, 25 a 39, 40 a 59 e 60 anos ou mais. Esses porcentuais foram, respectivamente, 8,5%, 32,5%, 25,1%, 22% e 2,3%. Tomando as duas primeiras faixas como as dos jovens, ou seja, uma faixa de 14 a 24 anos de idade, ela abrange 40,5% do total de desempregados, ou 5,4 milhões de pessoas. Por idade, constituem o maior grupo, pois as faixas seguintes alcançam um leque muito maior de idades.

Ademais, as taxas de desocupação desses jovens são muitíssimo maiores, o que se revela pelo valor delas em cada uma das cinco faixas citadas: 43% (!), 27,3% (!), 12%, 7,6% e 4,5%, respectivamente.

Em termos de rendimentos, os jovens ocupados também sofreram mais com a crise. Segundo Marcelo Neri, diretor da área social da Fundação Getúlio Vargas, igualmente entrevistado por Lessa, “… enquanto a perda de renda do trabalho da média da população foi de 1,77%, entre 2015 e o primeiro trimestre de 2017, a dos mais jovens, entre 15 e 19 anos, caiu 10,94%. A camada entre 20 e 24 anos perdeu 5,63%”.

A ex-presidente Dilma e seu criador e mentor político, Lula, que levaram o País à gravíssima crise em andamento, e a desdobramentos como esses, deveriam viver algum tempo entre essa juventude encalacrada para sentir a realidade do dano que causaram. E deveriam fazer o mesmo os políticos que vêm atrasando uma saída mais rápida desta crise com sua oposição a reformas indispensáveis de que o Brasil carece, como a da previdência social pública.

Quando diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, no final dos anos 1980, recebi um grupo de alunos que apontavam a má situação da economia e se mostravam preocupados com o mercado de trabalho que enfrentariam após formados. Na conversa comparei a situação deles com a minha, que durante e logo após o curso me vi diante de um mercado de trabalho muito favorável, ao que um deles ponderou: “Quer dizer então, professor, que nascemos na época errada?”. Respondi que era mais ou menos isso, até citei o filósofo Ortega y Gasset, que afirmou: “Você é você e as circunstâncias”. Hoje eu acrescentaria que com os políticos que temos, ressalvadas as exceções cada vez mais excepcionais, os jovens de hoje também nasceram no país errado.

Como noutras corridas, na da vida pessoal, profissional e social o sucesso depende muito de como a pessoa larga na saída. Aliás, a mesma reportagem mostra casos de jovens pobres que usaram o próprio dinheiro para custear estudos, o que também fiz ao começar a trabalhar. Como a crise já vai completar um triênio, e espera-se que a economia ainda vá tomar outro para se recuperar efetivamente, mesmo assim sem perspectivas de um crescimento mais acelerado, milhões de jovens terão o seu futuro pessoal, profissional e social seriamente prejudicado, num processo que já começou.

Artigo publicado na edição de 6 de outubro de 2017 de O Estado de S. Paulo

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