Roberto Macedo: ‘O novo Nobel de Economia e a (ir)racionalidade econômica’

08-11-2017

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

Muitas reportagens e opiniões se seguiram ao anúncio do nome de Richard H. Thaler como o Nobel de Economia de 2017. Também vou escrever sobre o assunto, mas, como de hábito ao abordar esse prêmio noutros anos, tomando como base as razões apresentadas pela Real Academia Sueca de Ciências (RSAS), a outorgante do prêmio. Isto, conforme seu comunicado à imprensa na ocasião e respectivos anexos, que podem ser consultados aqui.

A RSAS deu suas razões em dois documentos: um que chamou de fundamentação científica popular (popular science background), com seis páginas, e outro detalhado, que denominou fundamentação científica (scientific background), com 39 páginas. Vou focar no primeiro, pois usa linguagem mais acessível ao público em geral, e também porque a cientificidade da segunda não seria cabível neste espaço.

O documento analisado destaca inicialmente que Thaler teve papel importante na integração da psicologia à análise econômica, integração essa conhecida como economia comportamental, que inclui as finanças comportamentais. A análise econômica tradicional supõe que as pessoas têm acesso adequado à informação necessária para tomar decisões, as quais são processadas racionalmente e sem distorções comportamentais, também chamadas de vieses desse tipo, como a crença de que o comportamento do preço passado de um ativo se repetirá no futuro. Essa análise também supõe que as pessoas sempre podem executar seus planos, e motivadas por ganhos pessoais, como a satisfação derivada do consumo.

Trata-se de modelo simplificado do comportamento humano e que por décadas permitiu explicar como seres humanos resolviam problemas econômico-financeiros importantes e complicados. Mas a própria aplicação desse modelo despertou a atenção para suas falhas, evidenciando discrepâncias sistemáticas e importantes entre teoria e realidade. Nesse contexto, Thaler contribuiu para expandir e refinar a análise econômica adicionando-lhe três aspectos que sistematicamente afetam decisões econômicas: a racionalidade limitada, as percepções sobre o que é justo e falta de autocontrole.

É importante ressaltar que ele fala de racionalidade limitada. Ao escrever ou falar sobre o Nobel concedido a Thaler, vi gente dizendo que ele afirmou que as pessoas são irracionais, o que não é verdade. O que marcou o surgimento do ser humano foi o florescer de sua racionalidade, e o que a economia comportamental faz é examinar o que ocorre fora dos seus limites. Quanto a isso, um exemplo dado pelo documento analisado foi o da “contabilidade mental”, que descreve situações em que as pessoas separam suas poupanças em contas com finalidade específica. Por exemplo, para compras natalinas, férias, educação dos filhos e outros objetivos. O banco com que trabalho fornece contas de poupança separadas nesse formato. Idealmente, as pessoas deveriam juntar tudo numa conta só, com o que se credenciariam a rendimentos maiores. E há também casos em que essa contabilidade é mantida mediante empréstimos e seus custos para atender a outras despesas que vão surgindo. Entendo que é interessante refletir sobre esse comportamento, mas não necessariamente para condená-lo. Se for essa a forma com que certas pessoas conseguem poupar, é melhor deixar que prossigam assim do que insistir noutras práticas que acabem prejudicando sua poupança.

Sobre a noção do que é justo economicamente, Thaler argumentou teórica e experimentalmente que preocupações de consumidores quanto ao que é justo podem impedir firmas de aumentar preços em períodos de forte demanda, mas não naqueles de custos maiores. De um modo geral, avaliações desse tipo podem servir de base para estratégias de marketing e de preços de empresas.

Quanto ao autocontrole pessoal, ele é particularmente importante, pois a sua ausência traz implicações econômico-financeiras muito sérias, como o exagero no consumo e a carência de recursos para a aposentadoria, ou para custeio dos vários riscos da longevidade em geral. Essa ausência de autocontrole oferece muito espaço para medidas que possam aliviá-la.

Nessa linha, um exemplo do mesmo documento sob análise é o da dificuldade de as pessoas pouparem para uso futuro. Costumam sentir dificuldades de fazer isso porque essa poupança pode reduzir o quanto consomem no presente. Mas Thaler percebeu que podem ter maior disposição para poupar no futuro se houver a expectativa de que seus rendimentos irão crescer. Nesse caso, ele, em conjunto com Shlomo Benartzi, criou o plano “Poupe mais amanhã”, com que algumas empresas passaram a incentivar uma poupança maior nos seus fundos de pensão. Nesse programa, o interessado se compromete a aumentar sua taxa de contribuição para o fundo, também com a contrapartida da empresa, como proporção dos seus futuros aumentos de salários. O plano tem marca registrada, e creio que Thaler o trata como um negócio ao orientar sua aplicação em empresas.

Quanto a isso, cabe informação que não recebeu maior atenção nas e análises da premiação. Thaler é professor da Universidade de Chicago, cujo Departamento de Economia é famoso por pregar a racionalidade dos agentes econômicos. Mas Thaler não integra esse departamento, o que, se fosse o caso, levaria à pergunta de como ele, que vai contra esse paradigma tradicional, teria sido tratado por seus colegas. Mas a pergunta não cabe, pois ele é professor da Escola Booth de Negócios da mesma universidade, onde seu cargo tem a pomposa designação de Professor de Ciência Comportamental e Economia, com Distinção pelos seus Serviços (“Distinguished Service Professor of Behavioral Science and Economics”).

Voltando ao “Poupe mais Amanhã”, ele envolve o que Thaler designou como “nudge”, um “empurrãozinho” para conduzir pessoas pelo caminho da racionalidade. Hoje em dia, na literatura sobre economia e finanças comportamentais, bem como, de modo mais amplo, no contexto das ciências comportamentais em geral, nota-se um empenho na busca de “nudges”, inclusive para aplicação em políticas públicas. Assim, também no caso dos fundos de pensão corporativos, percebeu-se nos EUA que muitas pessoas não aderiam a esses fundos, embora sejam de sua conveniência, pois a adesão implica em receber a contribuição que a empresa também faz em nome do empregado. Entre outros aspectos, a não adesão ocorria por desleixo, procrastinação e para evitar o gasto, de novo mirando no consumo presente. Com base nessa percepção, nova regulamentação dos planos estabeleceu que a inscrição dos empregados passasse a automática, sem impedir, contudo, a opção de sair do plano. Em outras palavras, a opção para entrar transformou-se na opção de sair, com o que aumentou a adesão aos fundos.

Passando ao Brasil, a regulamentação desses planos ainda não foi alterada para fazer essa mudança, mas soube que um dos grandes planos já a teria adotado. Não vou citar o nome, pois ainda não confirmei a informação por outras fontes. Mas há outro exemplo local quanto à adoção de um empurrãozinho, no caso do cadastro positivo de crédito, que mostra tanto a inadimplência dos seus cadastrados – como hoje no cadastro negativo da Serasa –, como também o bom comportamento de outros, o que poderia garantir-lhes menores taxas de juros em face do seu menor risco. Esse cadastro foi instituído por lei há poucos anos atrás, mas não teve maior alcance, pois depende da inscrição voluntária de seus participantes. O empurrãozinho veio num projeto de lei aprovado no Senado recentemente (25/10/17), admitindo que as instituições que administram cadastros de crédito e as financeiras possam trocar dados entre si para construir cadastros positivos sem autorização dos cadastrados que, contudo, terão a opção de pedir a sua exclusão.

Não sei se as ideias de Thaler foram explicitamente levadas em conta na discussão do assunto. Mas, em qualquer caso, o espírito delas “baixou” na discussão, o empurrãozinho veio,e é o que interessa. Esse projeto de lei passou à Câmara dos Deputados para exame. Espero que ela também dê o seu empurrãozinho. Se o projeto se tornar lei, será um grande avanço no aperfeiçoamento do sistema de crédito brasileiro.

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