Rogério Schmitt: ‘2017 foi o ano da centro-direita na política’

30-11-2017

 

 

 

Rogério Schmitt, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Ao longo do ano que se aproxima do final, novos governos e/ou maiorias legislativas foram eleitos pelo voto popular em 13 países democráticos de maior visibilidade. Nessa ‘elite’ de países, a largada do calendário eleitoral de 2017 foi no mês de março, quando houve eleições na Holanda e na Bulgária. Em abril, foi a vez da França, seguida pela Coreia do Sul em maio. No mês de junho, houve eleições no Reino Unido e novamente na França. Três democracias (Noruega, Nova Zelândia e Alemanha) foram às urnas em setembro e outras quatro em outubro (Áustria, República Checa, Argentina e Japão). Fechando o ano, o Chile também está atravessando o seu novo ciclo eleitoral, entre novembro e dezembro.

Houve alguma tendência política predominante nesses processos eleitorais recentes? Como seria impossível, nos limites desse espaço, fazer uma análise de todos os países mencionados acima, proponho que observemos apenas as cinco democracias mais importantes, seja pela sua projeção mundial ou pela sua proximidade com o Brasil. Assim, selecionei os casos da França, do Reino Unido, da Alemanha, da Argentina e do Chile.

A França vinha sendo governada há cinco anos pelo presidente François Hollande, do tradicional Partido Socialista (de centro-esquerda). A impopularidade do seu governo se refletiu no fato de que o candidato de sua legenda chegou apenas no quinto lugar na eleição presidencial. Numa disputa muito acirrada, os quatro candidatos mais importantes tiveram entre 19% e 24% dos votos no primeiro turno. O segundo turno acabou sendo disputado entre o centrista Emmanuel Macron (do Em Marcha) e a direitista Marine Le Pen (da Frente Nacional). Favorito nas pesquisas, Macron elegeu-se presidente com tranquilidade, tendo sido apoiado pelos outros candidatos mais importantes. Após negociar uma coalizão com os Republicanos (legenda de centro-direita, do ex-presidente Nicolas Sarkozy, e que lançara a candidatura de François Fillon), Macron nomeou como primeiro-ministro (a França possui um sistema semipresidencialista) o republicano Édouard Phillipe. Juntos, os dois partidos também elegeram 420 dos 527 deputados da Assembleia Nacional.

No Reino Unido, por outro lado, houve continuidade política. Os britânicos são governados pelo Partido Conservador (de centro-direita) desde 2010. O primeiro-ministro David Cameron havia renunciado em 2016 (após a vitória do Brexit), e sido substituído pela também conservadora Theresa May. Nas eleições parlamentares de junho (o Reino Unido possui um sistema parlamentarista), repetiu-se a tradicional bipolarização com o Partido Trabalhista (de centro-esquerda). Os conservadores se mantiveram no poder, tendo eleito 317 dos 650 dos membros da Câmara dos Comuns. Os trabalhistas, liderados por Jeremy Corbyn, aumentaram a sua bancada para 262 parlamentares. Nesse novo mandato, os conservadores perderam (por pouco) a maioria absoluta do Parlamento. No entanto, a primeira-ministra britânica lidera um governo que conta também com o apoio da bancada de 10 deputados do minúsculo Partido Democrático Unionista.

O cenário na Alemanha também foi de continuidade, porém persiste uma incerteza. Desde 2005, o governo alemão está nas mãos da União Democrata Crista (CDU, de centro direita), sob a liderança da chanceler Angela Merkel (o país possui um sistema parlamentarista). A principal sigla de oposição é o tradicional Partido Social Democrata (SPD). A CDU e o SPD haviam formado uma grande coalizão na legislatura anterior. Nas eleições de outubro, o peculiar sistema eleitoral alemão (distrital misto) produziu um resultado inusitado. Por conta do crescimento dos partidos de menor porte, tiveram que ser adicionados 111 assentos ao ‘Bundestag’, que nessa legislatura terá 709 deputados. A CDU e o SPD elegeram, respectivamente, 246 e 153 parlamentares. A chanceler Merkel tentou formar uma nova coalizão de governo, reunindo democracia cristã, liberais e verdes. Essa ‘coalizão Jamaica’ (as cores dessas três legendas são as mesmas das da bandeira do país centro-americano) lhe garantiria uma maioria legislativa de 393 cadeiras. Mas as negociações fracassaram e, nesse momento, o mais provável parece ser a retomada de uma grande coalizão com o SPD.

O fato é que os eleitores das três maiores democracias europeias escolheram, ao longo do ano, ser governados por partidos e coalizões de centro-direita. Na França, o novo presidente é de centro e o primeiro-ministro é de centro-direita. E no Reino Unido e na Alemanha houve a continuidade de primeiras-ministras de centro-direita. Se olharmos para o panorama de nossos vizinhos latino-americanos que foram às urnas em 2017, a correlação de forças não é muito diferente.

Na Argentina, o presidente Mauricio Macri foi eleito em 2015 pela coalizão ‘Mudemos’ (de centro-direita), após 13 anos de governos ligados ao peronismo (de centro-esquerda). Na verdade, Macri é o primeiro presidente argentino que, nos últimos cem anos, não foi eleito nem pelos Peronistas (PJ/FPV) e nem pelos Radicais (UCR), as duas siglas partidárias mais tradicionais do país. Em outubro, os argentinos foram às urnas para renovar metade das cadeiras da Câmara dos Deputados e 1/3 das vagas do Senado. E o grupo político do presidente Macri foi bem-sucedido. O ‘Mudemos’ ampliou a sua bancada legislativa nas duas casas: de 90 para 109 deputados e de 17 para 26 senadores. Ainda que a sua coalizão de apoio não seja nominalmente majoritária no Congresso argentino, o presidente saiu mais fortalecido das eleições, pois a oposição peronista diminuiu significativamente de tamanho.

Finalmente, o caso do Chile. Em novembro, o país andino elegeu um novo Congresso e fez também o primeiro turno das eleições presidenciais. O Chile é governado desde 2014 pela presidente Michelle Bachelet, do Partido Socialista (de centro-esquerda), que está em seu segundo mandato (não consecutivo). O segundo turno das eleições presidenciais chilenas será disputado pelo ex-presidente Sebastián Piñera (da coalizão ‘Chile Vamos’, de centro-direita, que teve 36,6% dos votos) e pelo senador Alejandro Guillier (da coalizão ‘A força da Maioria’, apoiado pela presidente Bachelet, com 22,7% dos votos). A soma dos votos recebidos por Guillier com os de outros candidatos de esquerda superou os 50% no primeiro turno. Mas as pesquisas para o segundo turno mostram, por enquanto, uma situação de empate técnico entre os dois candidatos, com uma ligeira vantagem para Piñera. De fato, a coalizão do ex-presidente elegeu 73 dos 155 deputados, e 12 dos 23 senadores. E a coalizão democrata cristã, que também passou a apoiá-lo, elegeu outros 13 deputados e 3 senadores. Essa correlação de forças sugere que Piñera teria, no mínimo, melhores condições de governabilidade que o seu adversário.

O que essas eleições no resto do mundo projetam para o Brasil? Naturalmente, nenhuma delas possui impacto direto sobre o eleitor brasileiro. Mas é inegável que um padrão muito nítido emerge do balanço feito acima. Parece estar havendo uma preferência por governo e/ou maiorias legislativas de centro-direita nos países democráticos. Antes do Brasil, haverá no próximo ano eleições em países como Costa Rica, Colômbia, Paraguai, Itália e México. É importante ficar atento aos sinais dos tempos.

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