Rogério Schmitt: ‘O melhor do Brasil é a política’

23-01-2018

 

 

 

Rogério Schmitt, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

A política brasileira sofre de uma espécie de síndrome do patinho feio. Tendemos a achar que não temos motivos para nos orgulhar das instituições políticas que possuímos. Nos acostumamos a pensar que os nossos principais problemas seriam de natureza política. Ou que a tal da ‘reforma política’ (seja lá o que isso signifique) seria a “mãe de todas as reformas”. Em suma: a política seria o pior do Brasil.

Esse artigo pretende demonstrar o contrário. Sem ignorar o fato de que não vivemos no melhor dos mundos possíveis, defenderei a tese de que o melhor do Brasil é a política. Recorrendo aos mais renomados rankings comparativos internacionais, mostrarei que a qualidade relativa do nosso sistema político é superior ao desempenho do País em vários outros indicadores (institucionais, econômicos ou sociais).

Os dados a seguir são especialmente relevantes para o momento que o País atravessa. Infelizmente, diversos formadores de opinião, movimentos da sociedade civil e mesmo lideranças políticas parecem subestimar a importância do sistema democrático que o país construiu nas últimas três décadas. O discurso autoritário, de desprezo pela política e pela democracia, também é particularmente visível nas redes sociais.

Nessa conjuntura, portanto, nada é mais importante do que revalorizar a política, entendida no seu sentido clássico: a busca do bem comum através da construção de consensos. A radicalização, a polarização e o autoritarismo (de esquerda e de direita) são a negação da boa política. Assim, os dados que apresentarei fornecem evidências empíricas que nossos problemas econômicos, sociais e de corrupção são mais graves e mais urgentes que nossos problemas políticos.

O exercício de comparação que proponho está baseado em quatro indicadores internacionais. Para avaliar o desempenho político, utilizarei o “Democracy Index”, da Economist Intelligence Unit. O “Corruption Perceptions Index” (da Transparência Internacional) será utilizado para avaliar a disseminação da corrupção. Para avaliar o bem-estar social, recorrerei ao famoso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, elaborado pelo PNUD, órgão da ONU). Finalmente, o grau de liberdade econômica (facilidade para os negócios privados) será avaliado pelo igualmente famoso relatório “Doing Business”, do Banco Mundial.

O quadro abaixo mostra a posição relativa do Brasil nesses quatro rankings. O número de países avaliados em cada um deles varia muito pouco, oscilando entre 170 e 190. Para evitar distorções conjunturais, pesquisei o desempenho brasileiro nos três anos mais recentes disponíveis para cada ranking.

 

Posição relativa do Brasil em rankings selecionados

Fonte: EIU, Transparency International, PNUD e Banco Mundial

O indicador em que o Brasil possui o melhor desempenho é justamente aquele que mede os atributos democráticos do nosso sistema político. No relatório referente a 2016, por exemplo, o Brasil foi considerado o 51º País mais democrático do mundo. O fato de estarmos atrás de meia centena de países nesse quesito mostra que ainda temos muito o que avançar. Mas também não se pode negar que a política brasileira é avaliada muito mais positivamente que todos os demais parâmetros selecionados.

Nas dimensões da percepção da corrupção e do desenvolvimento humano, o Brasil aparece sistematicamente entre o 70º e o 80º lugares em ambos os rankings. Ou cerca de 30 posições abaixo de nossa posição no ranking relativo à política. No indicador da liberdade econômica, o desempenho do País deixa ainda mais a desejar, pois estamos quase nas últimas posições do ranking, ou próximos do 120º lugar.

Esses dados mostram que a política brasileira vai muito bem, obrigado – se a comparação for com a economia, com a corrupção ou com o bem-estar social tupiniquins. Em outras palavras, a prioridade dos gestores públicos não deveria ser a reforma da política, ainda que ela apresente problemas. Há obstáculos muito mais graves a serem superados na economia, na distribuição de renda e no combate à corrupção.

Assim, da próxima vez em que nos depararmos com o discurso autoritário da rejeição da política, não custa nada perguntar ao nosso interlocutor se ele seria capaz de dizer qual é a área em que o Brasil se sai melhor nas pesquisas comparativas internacionais. E a resposta correta, que ele porventura aprenderá a dar valor, será: “é na política, estúpido”!

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