Rogério Schmitt: ‘Pesquisas feitas um ano antes da eleição têm algum valor?’

14-07-2017

 

Rogério Schmitt, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

 

O título acima é uma pergunta direta. Portanto, devo começar o artigo dando também uma resposta direta. E essa resposta é sim! De fato, pesquisas eleitorais feitas no ano anterior às eleições têm um grande valor analítico. Mas, como veremos, não pelos motivos habituais.

Ao divulgar essas pesquisas, naturalmente prestamos atenção nas taxas de intenção de voto dos possíveis candidatos. Acontece que esses não são os números estrategicamente mais importantes revelados pelas pesquisas quando ainda resta mais de um ano para as eleições. Os dados relevantes de verdade costumam ser quase ignorados. E o distinto público acaba ficando com uma impressão equivocada sobre o que poderá acontecer.

Ainda faltam 15 meses para a próxima eleição presidencial – e 13 meses para o início efetivo da campanha. Nesse momento, quase todas as análises de pesquisas eleitorais se limitam a apresentar o desempenho dos possíveis candidatos nos diferentes cenários propostos. A uniformidade dessas opiniões impressiona. Fala-se temerariamente em nomes “favoritos” e “natimortos”. É como se as análises se limitassem a comentar os “press releases” divulgados pelos institutos.

A rigor, sequer sabemos quem serão realmente os candidatos ao Planalto em 2018. E essa incerteza necessariamente se refletirá nos cenários eleitorais das pesquisas. Tomemos, por exemplo, a recente pesquisa Datafolha, que foi a campo entre 21 e 23 de junho. Ela testou nada menos que OITO simulações diferentes de 1º turno, alternando 12 nomes de possíveis candidatos. A pesquisa testou também OITO simulações diferentes de 2º turno, num rodízio entre sete possíveis candidatos. Em sete dos oito cenários de 1º turno foram incluídos oito nomes. Mas, no oitavo cenário, foram incluídos apenas quatro nomes. Uma confusão dos diabos!

As duas tabelas a seguir descrevem a participação dos diversos possíveis candidatos nas simulações de 1º e 2º turnos testadas pelo Datafolha. Para cada nome, a tabela indica, por um lado, a quantidade de cenários em que o possível candidato foi incluído e, por outro lado, a variação (em pontos percentuais) entre o seu melhor e o seu pior desempenho. Não é preciso ser especialista em pesquisas para notar que – frente às flutuações nos dois indicadores – a mera análise das taxas de intenção de voto confunde bem mais do que esclarece. No entanto, foi exatamente nisso que se centraram quase todas as análises que li até o momento.

 

Vamos, então, olhar para os indicadores que realmente importam nessa pesquisa Datafolha (ou em todas as pesquisas feitas um ano antes das eleições)? Quase ninguém reparou, por exemplo, que metade (48%) dos eleitores está indecisa. Ou seja, 1 em cada 2 eleitores ainda é incapaz de citar espontaneamente o nome de um possível candidato ao Palácio do Planalto. Um fato, aliás, absolutamente normal nessa altura do campeonato. A eleição é algo ainda muito distante no calendário da maioria dos brasileiros.

O gráfico abaixo compara as taxas de conhecimento e de rejeição dos 12 possíveis candidatos a presidente testados pelo Datafolha nessa última pesquisa. Esses indicadores são mais relevantes – e menos voláteis – do que as taxas de intenção de voto. Basta dizer que eles não dependem da combinação dos nomes escolhidos para as diferentes simulações, tanto de primeiro como de segundo turno. A taxa de conhecimento é a proporção de eleitores que já ouviram falar de cada possível candidato. E a taxa de rejeição corresponde àqueles que declaram que jamais votariam no nome indicado.

Quatro dos cinco nomes mais conhecidos pelo eleitorado são de políticos que já disputaram outras eleições presidenciais. Na sequência, aparecem quatro nomes conhecidos por cerca de 60% dos entrevistados, dos quais três também são políticos. Os três nomes remanescentes também já foram candidatos a presidente no passado, mas eles são conhecidos por, somente, cerca de 40% dos eleitores. Apenas um nome é rejeitado por mais de 40% dos eleitores. Outros três têm rejeição próxima a um terço dos entrevistados. A rejeição de todos os demais oscila em torno de 20% do eleitorado.

Para que um candidato à Presidência seja realmente competitivo, o primeiro atributo com que ele (ou ela) deve contar é uma estrutura partidária minimamente consolidada, com capilaridade nacional (por exemplo, em prefeituras). Também precisa dispor de um razoável tempo de propaganda na televisão e no rádio. Finalmente, a sua taxa de rejeição deve ser relativamente pequena quando tomada como proporção da sua taxa de conhecimento. Se, no decurso de uma campanha, um candidato é rejeitado por metade (ou mais) dos eleitores que o conhecem, será quase um milagre que consiga vencer uma eleição em dois turnos. Portanto, taxas elevadas de intenção de voto a um ano da eleição frequentemente ocultam candidaturas presidenciais inviáveis.

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