Rogério Schmitt: ‘Um perfil das governadoras e senadoras eleitas no Brasil’

13-11-2017

 

 

Rogério Schmitt, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

O primeiro artigo dessa série foi um retrato agregado das vitórias eleitorais femininas nas sete rodadas de eleições majoritárias estaduais realizadas sob a vigência da Constituição de 1988. Vimos que as mulheres foram vitoriosas em 10 eleições para os governos estaduais (5,3% do total). Nas disputas para o Senado Federal, houve 33 casos de mulheres eleitas (12% do total). Vimos também a distribuição das vitórias femininas ao longo do tempo e por região geográfica.

Esse segundo artigo pretende responder empiricamente à questão levantada ao final do seu predecessor: qual a influência dos laços de parentesco e/ou matrimoniais sobre as vitórias eleitorais dessas governadoras e senadoras? Em outras palavras, o êxito político feminino nas disputas majoritárias estaduais se deve ao próprio prestígio e força política individual das candidatas ou deve-se ao fato de serem – tipicamente – esposas ou filhas de políticos tradicionais em seus respectivos estados?

Naturalmente, sempre haverá abundantes exemplos práticos das duas situações acima mencionadas. Por outro lado, pode haver também situações ambíguas. Uma governadora ou senadora pode ter devido a sua primeira vitória eleitoral ao fato de pertencer a uma determinada família política – mas posteriormente ter conquistado sua ‘luz própria’. A situação inversa também é logicamente possível. Nesse sentido, algumas escolhas metodológicas se fizeram necessárias.

Com base em biografias disponíveis on-line das sete mulheres eleitas para os governos estaduais e das 28 mulheres eleitas para o Senado Federal (nos dois casos, algumas foram eleitas mais de uma vez), procurei identificar se elas integravam alguma família política tradicional em seus respectivos Estados. O critério que utilizei foi dicotômico: a governadora ou senadora eleita era mulher/filha/irmã de algum político que já houvesse previamente ocupado algum cargo eletivo (governador, senador e/ou deputado) no mesmo Estado?

O quadro abaixo apresenta, ao longo do tempo, a proporção de mulheres eleitas governadoras ou senadoras para as quais não foi possível identificar nenhum laço matrimonial ou de parentesco com políticos tradicionais. Essa característica é bem mais rara entre as governadoras (20%, na média) do que entre as senadoras (52%, na média). Das 10 eleições para governador vencidas por mulheres, em apenas duas (ambas no ano de 2006) as vitoriosas não eram esposas ou filhas de ex-governadores (ou de um ex-deputado estadual). Já nas 33 ocasiões em que mulheres foram eleitas para representar os seus Estados no Senado Federal, uma média de pouco mais da metade delas não pertencia a nenhuma família política tradicional. De fato, a eleição de 2010 foi a única em que ao menos metade das senadoras eleitas não possuía essa característica.

 

Proporção das governadoras e senadoras eleitas sem parentesco com políticos tradicionais

 

 

A distribuição regional das mulheres eleitas sem laços aparentes de pertencimento a famílias políticas tradicionais pode ser verificada nesse quadro a seguir. No caso das governadoras, as regiões Nordeste e Sudeste, as mais populosas do país, simplesmente nunca elegeram mulheres com essa característica. No outro extremo, a única governadora eleita na região Sul e uma das duas governadoras eleitas na região Norte tinham carreiras políticas próprias. A região Centro Oeste nunca elegeu uma governadora. Nas eleições para o Senado Federal, as regiões Norte e Nordeste são as que tiveram menos senadoras eleitas de modo independente. No Sudeste e no Centro Oeste, uma ampla maioria de mulheres se elegeu de modo desvinculado dos laços matrimoniais e de parentesco. O Sul está no meio do caminho, próximo da média nacional.

 

Proporção das governadoras e senadoras eleitas sem parentesco com políticos tradicionais

 

O levantamento empírico apresentado nesse artigo permite concluir que os laços de parentesco ou de matrimônio ainda são determinantes para as chances de vitórias femininas nas eleições majoritárias estaduais. Na média dos dois tipos de eleição examinados, 56% das mulheres eleitas eram esposas ou filhas de políticos tradicionais em seus respectivos Estados. Na eleição mais recente (em 2014), essa média ainda foi de exatos 50%. Nesses casos, sempre será possível argumentar que as vitórias eleitorais dessas mulheres decorreram – em alguma medida – do seu pertencimento a uma elite política familiar, mesmo que elas tenham tido méritos individuais. Em suma, os dados comprovam que o aumento da participação política feminina segue sendo um dos maiores desafios da democracia brasileira.

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