Rubens Figueiredo: ‘Avanço da esquerda? Que nada!’

28-09-2017

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

No início de julho de 2017, o jornal Folha de S. Paulo estampou uma manchete preocupante: “Apoio à esquerda sobe e repõe empate ideológico”. A notícia remetia a uma pesquisa realizada pelo Datafolha que, segundo o jornal, apontava alta adesão às ideias associadas à esquerda. Lida rapidamente, a informação poderia ser considerada um “balde de água fria” naqueles que querem ver o Brasil se modernizar, alinhar-se ao mundo desenvolvido contemporâneo e retomar seu crescimento em bases sólidas. E causava muita estranheza: como é possível que as ideias de esquerda, orientadoras de governos que jogaram o Brasil na maior crise econômica e moral de sua história, possam ganhar força no exato momento em que a sociedade mais sofre seus efeitos?

Aceitar o desafio de tentar organizar as preferências dos eleitores tem lá seu mérito. Mas cabe perguntar se ainda faz sentido falar, no mundo de hoje, em ideologias como molas propulsoras do debate político ou de polarização entre direita x esquerda. A esquerda, entendida no seu modelo clássico – União Soviética, Alemanha Oriental, Cuba etc – soçobrou melancolicamente.Existe o populismo de esquerda, também em franca decadência, que tem pouco a ver com o socialismo tradicional.Assim como o fascismo e o nazismo, embora ganhem espaço em alguns lugares, são movimentos residuais, quase curiosidades sociológicas.

A pesquisa Datafolha estabelece critérios situados em dois grandes blocos: comportamental e econômico. No campo do comportamento, indaga-se aos entrevistados questões referentes às causas da pobreza e da criminalidade, aceitação do homossexualismo, contribuição dos imigrantes ao desenvolvimento, direito de possuir arma, papel dos sindicatos, uso de drogas e crença em Deus. Nessa seara,teria crescido o apoio aos conceitos identificados com a esquerda: de 24% para 31% entre 2014 e 2017. A direita teria passado de 55% para 47%.

No plano comportamental, algumas perguntas são passíveis de críticas. A questão da homossexualidade, por exemplo. Nos dias de hoje, concordar que a “homossexualidade deve ser aceita por toda a sociedade”não é algo que se afina com o ideário de esquerda, é quase uma questão de boas maneiras. A aceitação da homossexualidade está se generalizando nas sociedades contemporâneas e a própria Legislação acompanha essa mudança. O Datafolha poderia rever se é adequado manter essa questão, pois a essa resposta enviesa para cima o resultado da esquerda.

É preciso considerar, também, o contexto em que as respostas foram colhidas. A pesquisa de 2017 foi realizada num cenário de crise política, desemprego, desconfiança monumental nas instituições, falta de esperança etc. Para usarmos uma linguagem da físico-química, a sociedade não estava nas suas Condições Normais de Temperatura e Pressão. Em situações desta natureza, os entrevistados se sentem fragilizados e os resultados tendem a apresentar, também, uma distorção.

Um bom exemplo é a questão da pobreza. Durante o governo Lula, quando houve um “boom” no emprego e no consumo, o desemprego era baixíssimo e as pessoas passaram a vivenciar experiências inéditas (viajar de avião e comprar celulares, por exemplo), era natural esperar que os entrevistados enxergassem sua ascensão como produto de mérito pessoal. Ao contrário, em época de dificuldade, fica difícil para o indivíduo creditar seu fracasso às suas deficiências e aceitar a tese de que “boa parte da pobreza está ligada à preguiça de pessoas que não querem trabalhar”.

É de se esperar, pois, que em momento de crise a pobreza seja mais percebida como ligada à falta de oportunidades, o que faria crescer o sentimento de “esquerdização” dos entrevistados na pesquisa, considerados os critérios adotados. Economia em crescimento aumenta a sensação de autoestima e faz com que o indivíduo se sinta um “player” no mercado.

Mas existem questões de caráter menos pessoais, que dizem respeito ao modelo de sociedade que se imagina para o Brasil e do papel do Estado na economia. Neste sentido, chama a atenção o crescimento dos preceitos mais liberais, mesmo num contexto de queda de consumo e desemprego.

A tabela mostra um aumento de cinco pontos percentuais nas respostas que retratam o pensamento entendido como sendo de direita e uma estabilidade nas hordas esquerdistas. Está crescendo o número de brasileiros que quer menos sindicalismo, mais competição e mais mérito. Isso não é pouco para uma sociedade com uma tradição estatal fortíssima como a nossa. Neste sentido, a agenda de reformas do Governo não estaria tão distante assim dos anseios da sociedade – ou, pelo menos, está coincidindo com o fortalecimento de teses menos estatizantes e mais afeitas à iniciativa privada. Talvez estejamos frente a uma das maiores transformações culturais de nossa história – e não estejamos nos dando conta disso.

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