Rubens Figueiredo: ‘O nobre e o animalesco’

29-05-2017

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

 

As manifestações nas ruas representam o ápice da disposição de participar do processo político. É um momento nobre, no qual existe uma forte corrente de opinião na sociedade, cuja intensidade é suficiente para estimular os cidadãos a se expressarem publicamente em gigantescas movimentações populares. A sensação que embala as pessoas é a de que o custo de sair de casa e colocar os pés no asfalto é muito menor do que os benefícios de se manifestar.

A questão da intensidade da opinião é fundamental. É ela quem define a disposição em demonstrar aquilo que o sujeito pensa sobre determinado assunto. É muito pouco provável que assistamos, em algum momento, uma passeata entusiasmada a favor do voto distrital misto, porque esse tema não é exatamente empolgante para mobilizar as massas. Um militante contra a privatização expressa com muito mais vigor seu modo de pensar do que um defensor da venda de ativos públicos. E por aí vai.

As quatro grandes manifestações do nosso passado recente: Diretas Já (1984), impeachment de Collor (1992), Junho de 2013 e as de Março de 2015, a favor do impeachment de Dilma e contra a corrupção, foram substancialmente diferentes. Em conteúdo e forma.

Nas Diretas Já, impeachment de Collor e impeachment de Dilma, o objetivo dos movimentos era perfeitamente identificado. Nos dois primeiros, havia lideranças bem definidas – Ulysses Guimarães em 1984, por exemplo – conduzindo as mobilizações, que aconteceram através das instituições tradicionais: partidos, sindicatos, associação de estudantes etc.

Nas manifestações de 2015, o alvo também era claro: remover a presidente Dilma do cargo. Mas o caminho foi inusitado. Ao invés de PMDB, PSDB, DEM, CGT, UNE, Sindicatos, os líderes das manifestações foram muito diferentes: Movimento Brasil Livre e Vem Pra Rua. As redes sociais tinham adquirido uma importância central no processo.

Mas desses quatro grandes movimentos populares, o mais fascinante foram as Manifestações de Junho de 2013. O povo saiu às ruas em 360 cidades. Contabilizaram-se mais de 700 protestos. Em alguns deles a população, apoplética, tentou invadir Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e Palácios de Governo.

A grande diferença de junho de 2013 é que o objetivo dos protestos era extremamente difuso. Entrevistada por uma repórter do The New York Times sobre a razão de estar nas ruas, uma manifestante se expressou da seguinte maneira: “Nós queremos tudo. E queremos agora”.

Uma coisa é certa: atingindo seus objetivos imediatos (como nos casos de 1992 e 2015) ou não (1984 e 2013), quando amplas parcelas da população saem às ruas o país muda. O Brasil iniciou uma irreversível trajetória democrática depois de 1984, e ficou muito mais crítico e consciente depois de 2013.

Manifestação é uma coisa, festejar a barbárie é outra bem diferente. É preciso diferenciar os cidadãos que se manifestam em torno de ideias daqueles que saem às ruas para montar um cenário de horror. Povo na rua é construtivo, bandidos quebrando tudo e incendiando prédios públicos merece a mais radical execração. O que aconteceu em Brasília no dia 25 de maio, quando grupos de oposição ao governo Temer promoveram, nas palavras do jornalista José Fucs, “uma operação de guerrilha urbana”, não se circunscreve no terreno da política. É algo, simplesmente, animalesco.

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