Rubens Figueiredo: ‘Política e comunicação no governo Temer’

31-08-2017

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

O governo Temer nasceu diferente. Fruto do impeachment da presidente da República, ele representava, aos olhos da opinião pública, continuidade. Afinal, o vice-presidente fora eleito na chapa encabeçada por Dilma Rousseff e, durante anos, o partido do qual era presidente, o PMDB, foi o principal parceiro dos governos petistas. Mas, desde o início, posicionou-se como um governo de mudança, um promotor de reformas que alteraria completamente a política até então implementada pelo PT.

O começo não foi fácil. Havia uma crise política de grandes dimensões. O governo, com ampla reestruturação da divisão de poder (afinal, era necessário acomodar todas as forças políticas que apoiaram o impechament), teve que ser montado em sete dias. A oposição acusava Temer de golpista, o PT estrebuchava e a Operação Lava Jato continuava trazendo suas novidades. No front econômico, a maior crise da história, com PIB negativo, desemprego e aumento do endividamento. Para se ter uma ideia do descalabro, não se sabia nem mesmo o tamanho do déficit público.

Além das dificuldades políticas e econômicas, a sociedade brasileira passava (e passa) por uma monumental crise de valores. Os eleitores se sentiram traídos por Dilma, que prometeu uma coisa na campanha e fez exatamente o contrário no governo. Os cidadãos perderam a confiança nas instituições. De 2009 para 2015, segundo o Ibope, a confiabilidade no Congresso Nacional caiu de 35% para 22% e nos partidos políticos de 31% para 17%. A opinião pública estava azeda.

Apesar de tudo isso, o governo Temer começa encarnando a mudança. No início do mandato, o presidente era o oposto de sua antecessora que, entre outras barbaridades, saudava a mandioca e queria estocar vento. Sóbrio, falando um português correto, avesso à “marketagem”, Temer imprimiu um outro estilo à Presidência. Ciente da necessidade de aprovar as reformas, aumentou a interlocução com a classe política.

Outro ponto importante foi a aposta no ajuste fiscal. O governo escolheu apostar na transparência e encaminhou ao Congresso uma proposta de meta fiscal de R$ 170 bilhões. Aprovou a PEC do Teto – o que representou uma conquista espetacular. Afinal, pedir para políticos brasileiros limitarem gastos públicos é mais ou menos como pedir às raposas que não comam as galinhas. A questão é que medidas dessa natureza, embora necessárias, estavam longe de empolgar a opinião pública. Ou alguém já viu uma manifestação favorável à disciplina fiscal?

Outras iniciativas importantes foram adotadas. O governo substituiu Graça Foster por Pedro Parente na Petrobras, conferindo um ganho de qualidade de vastíssimas proporções na administração da estatal. Aumentou as exigências para nomeações nas estatais. Formulou um ambicioso programa de concessões e prometeu um ambiente de negócios mais amigável. Na política externa, houve uma guinada: acabou o alinhamento internacional em função de simpatias ideológicas.

Temer também encaminhou duas propostas antipáticas, mas necessárias: a da Previdência e a trabalhista, que provocaram ampla reação de setores sociais organizados (as corporações). No caso da Previdência, a comunicação falhou feio. Ao invés de dramatizar a situação e usar o simbolismo (“vamos acabar com os privilégios”, seria um bom mote), o governo optou por um discurso técnico-racional que não logrou êxito. A maioria da população se posicionou  contra a reforma. Apanhado na delação de Joesley Batista, todo esse esforço foi rapidamente esquecido pelos brasileiros que ainda mantinham alguma boa-vontade com o governo e estavam “esperando para ver” os próximos capítulos.

Tudo que Temer fez de bom foi para as catacumbas da opinião pública no momento em que o áudio do Joesley foi divulgado. A administração reformista que pensava no futuro se transformou na administração que luta diariamente para não ser apeada do poder. Hoje, o governo tenta avançar nas reformas em meio a uma crise política de grandes proporções. A impressão que se tem é que parcela ponderável da classe política sente que precisa “jogar o jogo” junto com o presidente – e que o fracasso do governo seria o fracasso de todos.

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