Tulio Kahn: ‘O diabo mora nos detalhes’

05-06-2017

 

 

 

Tulio Kahn, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

 

O sonho de todo investigador – incluo aqui policiais, juízes, recrutadores, analistas de fraude, pesquisadores etc – é uma ferramenta que detecte de forma automática e infalível quando alguém está faltando com a verdade.

O pressuposto subjacente é que mentir é uma atividade estressante, que deixa rastros fisiológicos e comportamentais. A técnica consiste, geralmente, em comparar amostras de indicadores numa situação padrão, que serviria de controle, com indicadores de respostas a questões comprometedoras. Estes indicadores podem ser os mais variados: respiração, frequência de batimentos cardíacos, suor, tonalidade e velocidade da voz, atividade cerebral, direção e retração da íris e tempo de reação, entre outros. Para além da fisiologia, sinais corporais são tradicionalmente interpretados por psicólogos e recrutadores na busca pela sinceridade dos depoimentos.

Diferentes ferramentas e técnicas foram criadas para tentar medir essas diferenças fisiológicas: polígrafo, análise de estresse vocal, entrevistas computadorizadas e ressonância magnética funcional estão entre as mais conhecidas. Agências policiais em todo mundo fazem uso destas ferramentas, em especial do polígrafo. Apesar da aparente objetividade, estas ferramentas e técnicas estão longe de serem infalíveis. É preciso de investigadores bem treinados para utilizá-las, coletar amostras confiáveis dos interrogados numa situação “normal” e existem técnicas que o interrogado pode utilizar para falsear os testes. As mais confiáveis, como a tomografia, tem custos e logísticas impensáveis, o que limita seu uso cotidiano, até agora restrito a estudos.

Boa parte das vezes o uso dos equipamentos é meramente intimidatório, para tentar obter confissões; os resultados são probabilísticos e raramente considerados como provas judiciais ou elementos definidores de uma decisão, no caso de contratações ou detecção de fraudes. Eles apenas agregam evidências adicionais numa investigação, que deve contar com uma série de outras evidências materiais e testemunhais.

Nesta era da pós-verdade e do uso de grampos e delações premiadas nas investigações de corrupção, é tentador recorrer a estas ferramentas e técnicas. “Especialistas” são frequentemente convocados nos programas de televisão para analisar o comportamento não verbal e a fala dos investigados, quando faltam as evidências objetivas. Na ausência de uma “máquina da mentira” infalível e de provas materiais, existem outros recursos disponíveis? A sociologia e outras ciências humanas podem contribuir de algum modo para distinguir verdades e mentiras nos discursos?

Também os sociólogos enfrentam dúvidas sobre veracidade da informação recebida ao confrontarem-se com depoimentos e respostas a entrevistas e questionários de pesquisa. Sabe-se que mentir é um comportamento bastante frequente, revela habilidades sociais e cumpre mesmo funções importantes para permitir o convívio em sociedade. Técnicas foram desenvolvidas pelos pesquisadores para checar a veracidade dos depoimentos, com perguntas de checagem, perguntas com “pegadinhas” para verificar contradições, garantias de anonimato das entrevistas, criação de uma relação de confiança, ocultação do objetivo real do estudo, uso de questões projetivas, filmagens escondidas e diversas outras.

Ao invés de se prender exclusivamente ao discurso dos entrevistados, muitos pesquisadores passaram a dar mais atenção ao que no linguajar policial chamamos de “detalhes reveladores”. São pormenores insignificantes aos quais não se dá muita atenção como prova objetiva, mas que ajudam a formar a convicção sobre a veracidade ou falsidade do que está sendo dito.

Há alguns anos uma corrente de pseudo-historiadores começou a negar a existência de câmaras de gás e do genocídio durante a Segunda Guerra, corrente que ficou conhecida como revisionismo histórico, hoje amplamente refutada. O assassinato em escala industrial pela desenvolvida e civilizada sociedade alemã parecia a muitos como inverossímil. Pouco adiantavam as evidências documentais, testemunhais ou fotográficas comprovando o genocídio. Muita gente se recusava a acreditar, assim como muita gente duvida que o homem chegou à lua ou que o aquecimento global exista… A coleta de testemunhos de sobreviventes em vídeo foi um recurso adotado para documentar todos os detalhes envolvidos no morticínio. Num dos vídeos, por exemplo, um interno que trabalhava diretamente nas câmaras de gás relatava que toda a vez que abria a porta havia uma espécie de hierarquia mórbida: os corpos das crianças ficavam por baixo, seguido dos mais velhos e das mulheres e no topo os cadáveres dos homens mais jovens. Esta “organização” bizarra ocorria quando as pessoas percebiam o que estava acontecendo e tentavam escapar pela porta. É o “detalhe revelador” de quem estava lá e viu as coisas com os próprios olhos. São evidências que dão forte credibilidade ao relato, mais do que centenas de livros com estatísticas sobre a indústria da morte. São pequenos fragmentos de informação que parecem muito difícil alguém ter inventado.

As denúncias e investigações de casos de corrupção que se multiplicaram no País nos últimos anos contêm centenas destes pequenos “fatos reveladores”. São codinomes sugestivos em planilhas, nomes de usuários de e-mails inventados para trocar mensagens secretas, nome dos familiares nos pedalinhos, atos-falhos, lapsos verbais, a familiaridade revelada nas conversas telefônicas, coincidências inacreditáveis como cozinhas idênticas em Atibaia e Guarujá… E quem se preocupa em saber, afinal, como morreram os marrecos do sítio, senão o proprietário do mesmo? É o acúmulo dos dados, o modo como foram produzidos, o encaixe preciso, que dão sentido à história.

Estas pequenas evidências de caráter anedótico podem não ser provas aceitas judicialmente para estabelecer a verdade dos fatos e condenar alguém. Só permitem presunções subjetivas. Mas para investigadores, pesquisadores e recrutadores, são por vezes dados mais concretos e incriminadores do que delações, gravações, transações bancárias e outras provas materiais. Não permitem certezas, mas ajudam a formar a convicção. Como dizia Holmes, se você conhece 1.000 fatos, é fácil conhecer o 1.001.

Como ainda não inventaram um “detector de mentiras” – para sorte de corruptos e maridos – reconhecer a veracidade de um relato envolve a atenção aos detalhes reveladores, à lógica interna do discurso, à intuição, ao cheiro. Para o bem ou para o mal, revelar a veracidade dos relatos ainda é mais arte do que ciência. Os resultados são probabilísticos. Sempre é possível bater os pés é jurar que é tudo mentira!

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