Túlio Kahn: ‘Por que as taxas de homicídios seguem um padrão “U”?’

05-09-2017

 

Túlio Kahn, sociólogo e colaborador do Espaço Democrático

 

Em maio, tomamos os dados do Atlas da Violência 2015, publicado pelo IPEA/FBSP, para mostrar como a variação dos homicídios nos Estados, entre 2005 e 2015, coincide com a variação na proporção de homicídios cometidos como arma de fogo, principalmente nas cidades mais populosas.

A interpretação é de que o indicador proporção de mortes cometidas por arma de fogo é um indicador substituto para a variável desconhecida “quantidade de armas em circulação”, supondo que quando se mata mais com armas de fogo num lugar é porque existem mais armas disponíveis. Trata-se de uma variável “proxy” para armas, assim como proporção de suicídios cometidos por arma de fogo, armas apreendidas pela polícia ou armas perdidas, já que é difícil obter uma estimativa válida para quantidade real de armas em circulação. Aceita esta premissa, mostramos como as duas quantidades variam concomitantemente, no sentido mais armas, mais homicídios e vice-versa.

Durkheim falava na importância dos sociólogos replicarem, sempre que puderem, estudos anteriores, modificando-os ligeiramente no formato, incluindo novos dados ou novas variáveis alternativas de um mesmo conceito (As Regras do Método Sociológico). As hipóteses ficam mais robustas quando confirmadas em diferentes períodos e contextos e assim acrescentamos mais uma corroboração da hipótese que liga armas e crimes.

Além de incluir mais dados às séries e utilizar variáveis alternativas que refletem o mesmo conceito, uma forma adicional para corroborar hipóteses em condições não experimentais é a que Morris Rosenberg definia como processo de elaboração. Entre outros procedimentos, a prática consiste em verificar se os resultados se mantem quando incluímos outras variáveis no modelo. Por exemplo: o que ocorre com a relação entre armas e homicídios quando desagregamos os dados por região, classe de tamanho da população ou níveis sócio econômicos?

No gráfico que pode ser acessado aqui, vemos nas colunas azuis a taxa de homicídios por 100 mil habitantes (média de 2013 a 2015), por região e classe de tamanho de população.

Conseguiram notar o padrão em forma de “U” em cada região, isto é, taxas maiores de homicídios nas cidades menos e mais populosas e taxas menores nas cidades de tamanho médio? O que explica esta distribuição em “U” das taxas de homicídio? Será que o tráfico de drogas e o crime organizado conseguem entrar apenas nas cidades pequenas e grandes e por algum motivo ainda não explicado não conseguem entrar nas cidades de médio porte? Ou talvez o desemprego ou outra variável de cunho sócio-econômico ou demográfico? Variações nas quantidades de recursos policiais? O que quer que seja, a variável explicativa candidata precisa acompanhar esta morfologia, não linear, para se adequar ao padrão observado.

A parte de cima do gráfico traz na linha laranja a proporção de mortes cometidas com armas de fogo em 2015 ou, simplesmente, quantidade de armas. Notaram alguma semelhança? O mesmo padrão em forma de “U”! Tanto nas cidades menores quanto nas maiores, em cada região, é maior o uso de arma de fogo e nas cidades médias é menor. A variável quantidade de homicídios por arma de fogo, neste sentido, se adequa à morfologia esperada e é uma boa candidata a explicar porque as taxas de homicídio são maiores nas cidades muito pequenas e muito grandes, mas não nas médias.

Os dados do Atlas sugerem, deste modo, que não apenas nas tendências temporais, vistas no outro artigo, como também nas espaciais, evidencia-se uma relação entre quantidade de armas e quantidade de homicídios. Morfologia ajuda a entender a etiologia ou, o estudo das formas dos fenômenos ajuda a entender suas causas.

As explicações teóricas alternativas precisam dar conta destas características temporais e espaciais. Quem tiver explicações alternativas, que traga seus dados. Não basta fazer conjecturas plausíveis sobre drogas, crime organizado ou experiências de gestão A ou B. É preciso submeter as conjecturas aos fatos. Do contrário serão sempre conjecturas.

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