Um caminho para acompanhar a evolução da economia

25-05-2017

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

O Relatório Focus do Banco Central (BC), é o que acompanha mais de perto como evolui a conjuntura econômica, fazendo isso semanalmente. Também apresenta previsões para o futuro, em bases mensais e anuais, dependendo da variável abordada. Foca no que chama de expectativas de mercado, pois representa a visão do mercado financeiro baseando-se no levantamento semanal dessas expectativas conforme percebidas por analistas, operadores e consultores que atuam nesse mercado.

O levantamento semanal ocorre toda sexta-feira, e o relatório sai na manhã da segunda-feira seguinte, com divulgação por e-mail a quem se inscrever para recebê-lo, em português, inglês ou nesses dois idiomas. A assinatura pode ser feita no site do Banco Central (clique aqui). E a remessa é gratuita.(*)

O relatório vem em quatro páginas. Com exceção da segunda, são mais focadas em variáveis de maior interesse do BC. Como se sabe, cabe-lhe controlar a inflação medida pelo IPCA do IBGE, mas também fica de olho no IGP-DI e  no IGP-M, da Fundação Getúlio Vargas, e no IPC, da Fipe, entidade ligada à USP. Também estão nas mesmas páginas as expectativas quanto à taxa básica de juros, ou Selic, administrada pelo BC, e quanto à taxa de câmbio, que exerce efeito importante sobre a inflação.

A página 2 é mais abrangente e é aquela à qual recorro com maior frequência. Na sua parte de cima, ela apresenta para 13 variáveis ou indicadores econômicos o valor de sua expectativa há quatro semanas, há uma semana, na data do levantamento. E como se comportaram as expectativas nessa data, indicando por setas se houve aumento, queda  ou igualdade relativamente à semana anterior. As expectativas são também apresentadas para os valores das variáveis no fim do ano corrente. As 13 variáveis listadas incluem as seis mencionadas no parágrafo anterior mais a Dívida Líquida do Setor Público, o PIB, a Produção Industrial, a Balança em Conta Corrente com o Exterior, a Balança Comercial, o Investimento Direto no País e a evolução dos Preços Administrados pelo governo, como as tarifas de energia elétrica e os dos derivados do petróleo, entre outros.   Para a taxa de câmbio e a taxa Selic são também apresentadas as expectativas quanto ao seu valor médio no ano. Todas essas expectativas têm também listados os seus valores levantados para o próximo ano. Transcrevo em seguida a parte de cima da página 2 do Relatório Focus, levantado no dia 19 e divulgado no dia 22/5/17, em cuja semana escrevi este artigo. (Se tiver dificuldade para ler, clique aqui).

Além de ser a mais recente, escolhi essa edição do Focus porque ela teve como base as expectativas levantadas num dia que veio na sequência de dois outros que marcaram fortemente a semana. Assim, na quarta-feira, dia 17/5, veio o anúncio, depois de já fechados os mercados, de delação do empresário Joesley Batista, do grupo JBS (Friboi). Ele envolveu o presidente Temer em irregularidades, levando a Procuradoria Geral da República a formular pedido de investigação focado no Presidente. Tal pedido foi acolhido pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. Na quinta-feira, dia 18/5, o assunto teve forte impacto nos mercados financeiros  com queda do Ibovespa e alta do dólar, entre outros desdobramentos. Na sexta-feira, dia do levantamento que leva ao Relatório Focus, o dólar reverteu parte da alta e o Ibovespa também recuperou parte de suas perdas.

Contudo, conforme se percebe da página 2, relativamente a uma semana antes as expectativas para 2017 não tiveram alterações de relevo. As da inflação medida pelo IPCA, e do câmbio tiveram até setas indicativas de queda, mas as alterações foram insignificantes, revelando estabilidade. A da meta Selic permaneceu inalterada, em consonância com a estabilidade do IPCA.  E note-se que o Focus não trata do Ibovespa, onde o impacto das notícias vindas de Brasília foi maior.

Nessas condições, tudo indica que os atores do mercado financeiro que responderam ao levantamento do BC adotaram uma atitude de esperar para ver. Ou seja, tomando o impacto das más notícias como ainda transitório, sem alterar de modo significativo suas expectativas quanto ao final do ano, em particular quanto à variável do Relatório Focus mais sensível a essas notícias, a taxa de câmbio.  O mesmo vale para as expectativas relativas a 2018.

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Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), consultor econômico e de  ensino superior, e colaborador da Fundação Espaço Democrático.

(*) Edições semanais do Focus também poderão ser consultadas diretamente a partir da segunda-feira em que estiver disponível. A conexão para a divulgada no dia 22/5/17 é

http://www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/readout/R20170519.pdf. Para consultar o relatório da semana seguinte basta trocar 20170519 por 20170526.  Outras datas, futuras e passadas, poderão ser consultadas da mesma forma.

 

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