Um perfil das governadoras e senadoras eleitas no Brasil

04-10-2017

 

 

Rogério Schmitt, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

O aumento da participação feminina na política é um dos grandes desafios da democracia brasileira. Infelizmente, esse debate quase sempre desconsidera os resultados eleitorais agregados e se restringe à discussão de personagens individuais. O objetivo desse artigo é mapear, no agregado, os casos em que as mulheres foram vitoriosas nas eleições majoritárias estaduais realizadas no país sob a vigência da Constituição de 1988.

Os dados apresentados a seguir se referem exclusivamente às sete rodadas de eleições para os governos estaduais e para o Senado Federal realizadas entre 1990 e 2014 nas vinte e sete unidades da federação. Esses dois tipos de eleição obedecem ao princípio majoritário, no qual se elegem, necessariamente, os candidatos mais votados nas urnas. Trata-se, portanto, de um ambiente privilegiado para examinar a real competitividade eleitoral das mulheres – no sentido de que não há transferências partidárias de votos envolvidas.

Ao longo dessas duas décadas e meia, foram eleitos pela população 189 governadores e 274 senadores. As mulheres eleitas representaram 5,3% do total de governadores, e 12% do total de senadores. Em números absolutos, foram 10 governadoras e 33 senadoras eleitas. No entanto, se descontarmos os casos em que as mesmas mulheres foram eleitas mais de uma vez para os mesmos cargos, ficaremos com somente 7 mulheres eleitas para os governos estaduais, e com apenas 28 eleitas para o Senado Federal.

O quadro abaixo, elaborado a partir dos dados do Tribunal Superior Eleitoral, mostra quantas mulheres foram eleitas para os dois cargos selecionados ao longo do tempo. As mulheres chegaram mais cedo ao Senado Federal (em 1990) do que aos governos estaduais (em 1994). Nesse segundo caso, o número de mulheres eleitas a cada eleição sempre oscila entre um e três. No caso das senadoras, o número de eleitas oscila entre dois e oito (mas vale ressaltar que foram eleitos dois senadores por Estado em algumas eleições, e somente um em outras). O número absoluto de mulheres eleitas nos quatro pleitos mais recentes é mais que o triplo daquele registrado nas três eleições realizadas na década de noventa.

 

Por sua vez, o próximo quadro, também extraído das estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral, mostra a origem regional das mulheres eleitas para os governos estaduais e para o Senado Federal. Todas as cinco regiões geográficas do País já elegeram mulheres para o Senado, mas a região Centro-Oeste é a única que nunca elegeu uma mulher para um governo estadual. O fato de as regiões Nordeste e Norte terem um número bem maior de mulheres eleitas (28 contra 15 das outras três regiões) se deve ao fato de que nelas também estão concentrados 16 dos 27 Estados que integram a Federação.

 

Se examinarmos ainda a distribuição das mulheres eleitas por Estado, constataremos que há apenas cinco unidades da Federação em que as mulheres nunca venceram uma eleição majoritária, nem para o governo e nem para o Senado. São elas Amapá, Piauí, Paraíba, Pernambuco e Distrito Federal. Por outro lado, não deixa de ser surpreendente constatar que os Estados que mais elegeram mulheres para cargos majoritários têm um perfil regional muito similar. São eles: o Rio Grande do Norte (duas governadoras diferentes em três eleições – além de duas senadoras), o Maranhão (a mesma governadora, em três eleições – além de uma senadora) e Roraima (uma governadora – além de duas senadoras, em três eleições).

A distribuição regional das governadoras e senadoras eleitas sugere que suas vitórias nas urnas podem ter se devido não somente ao fato de serem mulheres, mas também a outros fatores – como eventuais laços de parentesco com lideranças políticas tradicionais em seus Estados. Mas a tarefa de separar o joio do trigo ficará para o próximo artigo dessa série.

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