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Aloysio Azevedo: ‘A corrupção sistêmica está em todo lugar’

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Artigo

 

  Aloysio Azevedo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático.

 

Em dois editoriais da semana passada o Estadão me fez lembrar Pelé, quando declarou que “o povo não sabe votar”. Ao criticar “o comportamento do eleitorado, que tem escolhido displicentemente seus representantes”, o jornal acusou os eleitores por situar a corrupção como “o grande mal e a grande vilã”, dando como exemplo, sempre que elegemos “um campeão contra a corrupção, como Jânio Quadros e Fernando Collor (destaco aqui também as promessas vãs do PT originário), os resultados foram nada menos que desastrosos”. Por quê?

Por acaso, pergunto: a síntese programática janista do “tostão contra o milhão” não contém um mistura de elementos pró-combate à corrupção e à vergonhosa distribuição da renda brasileira? Foi erro ou ingenuidade dos eleitores em acreditar num político que não teve coragem de organizar a nossa vontade, a fim de garantir a sua promessa? E quanto ao Collor, o “combate aos marajás” da época não antecipava o que a mídia faz hoje ao denunciar os privilégios das CORPORAÇÕES ESTATAIS e seu conluio criminoso com o empresariado corrupto? Como, então, responsabilizar o eleitorado por antecipar o certo e não vê-lo realizado pelas mesmas incapacidade e fragilidade de caráter de Jânio?

Sobre a subestimação da corrupção SISTÊMICA, declarada nos dois editoriais, o Estadão comete, como o Celso Rocha de Barros em artigo na Folha no dia 18 deste mês, o mesmo equívoco quando diz no título “É mais crise do que roubo”. Mas quem está falando de roubo, cara pálida? Estamos tratando de corrupção SISTÊMICA, própria do regime PATRIMONIALISTA, inoculada em nossa cultura, de cabo a rabo, por práticas sistemáticas da “lei de Gerson (é preciso levar vantagem em tudo, cerrrto?)”. Essas vantagens faladas no comercial do cigarro Vila Rica após a Copa de 1970, que identificaram a alma do PATRIMONIALISMO, não são decorrentes de uma competição leal, normal, e sim de toda sorte de pequenos mal feitos amplamente praticados e todos esses crimes sem fim que a Lava Jato está apurando, numa ação progressiva a sugerir uma nova Justiça.

Portanto, o que o povo sempre intuiu desses apelos anteriores (que se revelaram demagógicos) é uma visão ampla da corrupção opressiva do SISTEMA, que combina assalto ao dinheiro público, privilégios e JUSTIÇA SELETIVA perpetrados pelos agentes burocráticos com parceiros empresariais. É assim que o povo entende a dita corrupção e não a simples gatunagem prevista em qualquer Código Penal! O PATRIMONIALISMO é uma distorção do capitalismo, especificamente nossa, só nossa!

Quem nunca teve interesse em entender a dimensão que o nosso povo sempre deu à nossa corrupção foi a classe política e sua elite agregada, secularmente privilegiadas, e, exatamente por causa dessa retrógrada resistência, estamos assistindo, felizmente, a uma crise de novo tipo, que anuncia a ruína do PATRIMONIALISMO.

O curioso remédio para essa crise sistêmica é simbólico, mas ao mesmo tempo único e de significado estratégico, “erradicar da nossa cultura a Lei de Gerson a partir da educação, e do nosso calendário a comemoração do golpe militar inútil de 15 de novembro”, pois a realização prática desse remédio pressupõe a adoção de um amplo e viável programa de ações políticas para o enterro definitivo do PATRIMONIALISMO e a implantação de uma verdadeira REPÚBLICA DEMOCRÁTICA no Brasil.

Último aviso: as farmácias dos candidatos não têm remédio.

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