Helio Michelini: ‘Os velhos se renovam. E os novos, envelhecem?’

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ARTIGO

 

 

 

 

Helio Michelini Pellaes Neto, advogado, professor de Relações Internacionais da FAAP e colaborador do Espaço Democrático.

 

A monarquia mais antiga do mundo, o Japão, com 2,6 mil anos de longevidade, se renova nesta terça-feira, 30 de abril.

Embora deposite reconhecido valor à história e às tradições, o Japão, quando necessário ou oportuno, parece conviver em relativa harmonia com a novidade. Foi assim que, submetido à clara ingerência do Comodoro Perry, em nome dos Estados Unidos, firmou com este país o Tratado de Kanagawa, em 1854, abrindo portos antes frequentados apenas por comerciantes locais ou contrabandistas eventuais.

O impulso conferiu novos ares para o comércio japonês, que rapidamente expandiu relações com russos, franceses e britânicos, permitindo ao Japão a experiência de certa pujança econômica. No entanto, o êxito comercial, somado a ampla dose de amargura, compuseram uma fórmula explosiva que fatalmente eclodiria em jornada bélica de enorme impacto na sociedade japonesa.

Ao dramático desfecho da primeira metade do século 20, nova imposição foi apresentada ao Japão, desta vez impedido de recompor sua força militar e novamente obrigado a comerciar em plano internacional.

Mais uma vez o Japão soube conduzir-se nas águas que lhes foram apresentadas, reerguendo-se terceira maior economia mundial, atrás dos Estados Unidos e da China, mesmo em face de crises imobiliária e financeira, ou mesmo de problemas internos, tais como o massivo envelhecimento da população.

Ora, diz-se que os problemas chegam ao Japão antes de alcançar outros países. Fato é que a experiência japonesa sugere, no lugar de uma dificuldade, a identificação de uma oportunidade, e assim a questão demográfica tem aberto o debate para uma série de novos produtos voltados para as idades avançadas, o que certamente lhe renderá frutos no futuro próximo.

Pois bem, rompendo um protocolo milenar, o imperador Akihito cede lugar a seu filho, Narihito, de tradição acadêmica e conciliadora, sinalizando a esperança de um novo tempo, no qual hão de prevalecer o pragmatismo e a temperança para enfrentar, senão a guerra, os resquícios de uma forte recessão e de desastres naturais que afetaram dramaticamente a economia japonesa nas últimas três décadas.

O inusitado movimento requereu a aprovação de leis inovadoras, o que foi possível somente a partir do forte apoio popular angariado pelo Imperador Akihito, que surpreendeu o mundo com revelações da presença de ancestrais coreanos em sua família, ou ainda com um pedido de desculpas pelos males causados durante a Segunda Guerra.

A coesão social promovida pela figura de Akihito, sem dúvida, muito contribuiu para a defesa de objetivos estratégicos que mobilizam a sociedade nipônica.

Longe de cogitarmos a absurda ideia de uma monarquia no Brasil, vale atentar para a lição recebida do país do sol nascente, cobrando, de nossos dirigentes, maior e melhor capacidade de articulação para viabilizar um projeto de desenvolvimento tão necessário em terras tropicais.

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