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Luiz Alberto Machado: ‘Mais incertezas do que avanços em 100 dias’

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ARTIGO

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

Tradição nos Estados Unidos. Está virando moda por aqui: analisar os primeiros 100 dias de um novo governo.

Tarefa complicada, considerando que o Parlamento, no Brasil. permanece em recesso nos primeiros 30 desses 100 dias. Impossível, portanto, avançar qualquer ação que dependa do Congresso.

Fui convidado a participar de um painel sobre os primeiros 100 dias do governo Bolsonaro. E devo confessar que minha primeira reação foi chegar lá e dizer “Bom dia e… até logo”.

Depois de refletir, porém, concluí ser possível fazer considerações que permitem boas reflexões.

Vamos a elas.

Eleito com expressiva margem de diferença de votos, ainda que em segundo turno, Bolsonaro adquiriu considerável capital político e, nesse sentido, fez algo acertado: logo que possível mandou ao Congresso projetos considerados essenciais e sabidamente de difícil tramitação, como a reforma da Previdência, encaminhada pelo ministro da Fazenda, Paulo Guedes, e o projeto anticrime, pelo ministro da Justiça Sergio Moro.

Muito antes disso, no entanto, Bolsonaro tomou diversas decisões que talvez não tenham recebido a merecida repercussão. Entre elas, faço questão de dar destaque a quatro: redução de 17 ministérios; forma de escolha de ministros que, longe de perfeita, foi diferente – e melhor – do que a que vinha sendo utilizada nos últimos governos, quando prevaleceu o método do “toma lá, dá cá”; extinção de milhares de cargos comissionados; redefinição das funções do BNDES, que deverá devolver R$ 316 bilhões ao Tesouro Nacional.

Além do elevado capital político obtido nas eleições, Bolsonaro encontrou uma série de fatores favoráveis que, se bem aproveitados, poderão ser fundamentais nesse início de governo. Como afirmou o consagrado filósofo Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Nesse sentido, além do elevado capital politico, o governo Bolsonaro dispõe de circunstâncias favoráveis que se constituem numa verdadeira janela de oportunidade, na expressão utilizada pelo economista Gesner de Oliveira. Essas circunstâncias são: i) reservas internacionais elevadas; ii) inflação baixa; iii) juros baixos para nossos padrões históricos; iv) capacidade ociosa e elevado hiato do produto; e, por fim, mas não menos importante, v) uma população cansada de ver tanta coisa errada e disposta a dar seu apoio para ver o País retomar a trilha do crescimento em níveis satisfatórios.

Examinando o que ocorreu nesses primeiros 100 dias e considerando o elevado capital político e as circunstâncias favoráveis já apontadas, o que se constata é que as intenções e as promessas têm sido superiores aos resultados e às ações concretas. Pior do que isso, uma série de desencontros e ações descabidas têm produzido uma preocupante diluição do capital politico do governo, cuja aprovação popular vem caindo mês a mês, de acordo com as pesquisas.

Entre os principais problemas, o que mais chama a atenção é a fraca capacidade de articulação do governo com os principais atores, em especial os partidos políticos, o Congresso e a imprensa. Não querer prosseguir com as práticas condenáveis do passado é uma coisa. Dar as costas para esses atores é outra completamente diferente. Mais do que isso, é uma atitude ingênua e perigosa.

Apesar do caráter genérico e de difícil quantificação das intenções anunciadas pelo governo, das intromissões indevidas dos filhos do presidente e das posições incompatíveis com as prioridades do governo e declarações descabidas do ministro de Relações Exteriores, foram observadas algumas ações concretas muito positivas nesses primeiros meses de governo, tais como a aprovação do cadastro positivo, melhorias no ambiente de negócios, concessões aeroportuárias com resultados acima das expectativas e continuidade da redução da máquina pública. Parece pouco, mas quem conhece os meandros da politica brasileira sabe que não é bem assim.

Como em qualquer parte do mundo, noticia ruim vende mais do que notícia boa. E, sendo assim, vale a pena não ficar muito impressionado com a avalanche de criticas e más notícias que nos chegam todos os dias pelos diferentes veículos da mídia.

Resta torcer para que o governo, composto por muitos integrantes talvez sem a experiência necessária para o desafio que tem pela frente, tenha aprendido com os acontecimentos desses primeiros 100 dias, aperfeiçoe o que vem dando certo, corrija o que precisa ser reparado, e siga aproveitando o que ainda tem de capital político e as circunstâncias favoráveis que encontrou pela frente.

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