Roberto Macedo: ‘A queda do PIB no primeiro trimestre de 2019’

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ARTIGO

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Após oito trimestres de variação positiva do Produto Interno Bruto (PIB) no período 2017-2018, sempre relativamente ao PIB do trimestre anterior e com ajuste sazonal, a economia brasileira voltou a experimentar uma queda no primeiro trimestre deste ano, de 0,2%. Isto, numa situação em que ainda se encontra fragilizada pela depressão, ainda não revertida, que cobriu os oito trimestres dos anos 2015 e 2016.

Fragilizada porque nesses dois anos teve duas fortes quedas do seu PIB anual – 3,5%, em 2015 e 3,3%, em 2016 –, que no seu total significaram uma queda de 6,7%. Por sua vez, os oito trimestres de variação positiva inicialmente citados produziram um crescimento de apenas 1,1%, em 2017, e 1,0%, em 2018, totalizando um aumento total de 2,1% nesse biênio. Longe de suficiente, portanto, para recuperar a enorme perda de 6,7% no biênio anterior.

Noutra ótica, o PIB subiu 0,5% no 1º trimestre de 2019 em relação a igual período de 2018, com ajuste sazonal. E o crescimento dos últimos quatro trimestres relativamente aos quatro trimestres imediatamente anteriores foi de 0,9%. Isso mostra que a economia precisaria reagir nos próximos três trimestres deste ano com força suficiente para evitar outra taxa insatisfatória para o PIB de 2019. Se isso não acontecer essa taxa poderá ficar até inferior às dos dois anos anteriores, que conforme assinalado ficaram em 1% ou pouco acima disso.

O que causou a queda de 0,2% no primeiro trimestre de 2019? Do lado da oferta, e sempre olhando o desempenho relativamente ao trimestre anterior com ajuste sazonal, a agropecuária recuou 0,5%, ainda que com bom desempenho, pois teve safra recorde no início de 2017, e pequenas oscilações em seguida, ligadas ao desempenho diferenciado de seus produtos e respectivos preços. Com essa safra ficou mais difícil bater novos recordes. A indústria caiu 0,7% e continuou com tendência de queda, desta vez influenciada por fatores como a menor da demanda argentina por nossas exportações e a suspensão das operações da Vale em Brumadinho. Os serviços cresceram 0,2%, em parte compensando a queda do consumo de produtos industriais, e revelando também o contínuo crescimento da demanda por mais serviços, que já vem ocorrendo há muito tempo.

Do lado da demanda, o consumo das famílias cresceu 0,3%, em parte por conta do atendimento de necessidades básicas de uma população em expansão, e o do governo 0,4%, mas o desempenho trimestral negativo ou fraco nos trimestres anteriores desde 2016 continua associado ao desenrolar da crise fiscal. Os investimentos tiveram queda de 1,7% em sintonia com a menor demanda por bens de capital num cenário de depressão.

Subjacente ao fraco desempenho da demanda agregada, também houve no trimestre uma nova recaída dos vários índices de confiança de empresários e consumidores calculados pela Fundação Getúlio Vargas, após uma recuperação que se desenhou no final do ano passado em função das esperanças geradas pela eleição do novo governo federal. Isso indica que parte dessas esperanças já se frustraram diante do quadro de desacertos e desentendimentos com que o governo vem operando em Brasília.

No setor externo, as exportações caíram 1,9%, também influenciadas pela fragilidade da demanda argentina, e as importações aumentaram 0,5%, no conjunto atuando negativamente para o resultado final do PIB.

Dados preliminares de abril e maio ainda não indicam uma reversão desse quadro do PIB, e há o risco de uma nova taxa negativa ao final do trimestre corrente, o que marcaria o início de uma nova “recessão técnica”, o qual, por convenção entre os economistas, significa uma sequência de duas quedas consecutivas do PIB trimestral.

A política econômica em sentido contrário está tolhida pelas dificuldades fiscais do governo, que impedem uma política expansionista, o mesmo acontecendo no caso da política monetária, pois o Banco Central dá indicações de que não pretende reduzir a mais a Selic, além do fato de que uma redução usual de 0,5% na taxa atual de 6,5% não teria maior impacto em termos de estímulo. Há também dificuldades na gestão governamental, tanto dentro de si mesma, como na arregimentação de apoio político no Congresso para suas propostas.

No horizonte imediato, se o governo federal conseguisse um bom resultado na reforma da Previdência isso poderia levar a um movimento das expectativas de consumidores e empresários numa direção positiva, conduzindo a um desempenho melhor do PIB. Contudo, a política econômica continua carecendo de formulação, gestão e apoio político para um projeto mais abrangente, capaz de estimular empresários e consumidores tanto pela sua natureza como pela sua eficaz e rápida execução.

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