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Roberto Macedo: ‘Índices de confiança e as condições da macroeconomia’

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Artigo

 

  Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Antes de abordar esses índices, cabe uma breve retrospectiva para entender as condições em que se encontra a economia brasileira numa visão macroeconômica, voltada principalmente para o Produto Interno Bruto (PIB), que alcança a economia como um todo, sem distinguir regiões, setores e ramos de atividade, entre outros de seus aspectos.

A crise econômica ainda em andamento teve seu início marcado por fortes quedas do PIB em 2015 e 2016, 3,5% no primeiro e 3,8% no segundo. Nesses dois anos, o PIB trimestral registrou oito quedas consecutivas, levando o PIB a um buraco do qual até agora não saiu. Em 2017, o PIB teve variações trimestrais positivas e um pequeno crescimento no ano, de apenas 1%. Isso marcou o fim da recessão segundo convenção estabelecida entre economistas, que define recessão quando o PIB cai por dois trimestres consecutivos, e a saída dela se num mesmo período as taxas de variação se revelam positivas. Em síntese, em 2017 o Brasil saiu da recessão assim definida, mas não da crise ou do buraco em que ainda se encontra, pois a recuperação de 2017 foi muito fraca e insuficiente para tirá-lo dessa situação. Em outras palavras, o PIB está apenas rasteja rumo à superfície.

Quanto a 2018, no seu início houve a esperança de que esse movimento seria bem mais forte. Assim, as previsões para o crescimento do PIB começaram bem melhores, com o Relatório Focus do Banco Central, que semanalmente capta estimativas de operadores e consultores do mercado financeiro, prevendo no final de janeiro um aumento de 2,66% para o PIB anual e elevando essa projeção para 2,89% no final de fevereiro.

Mas ao longo do ano essas taxas foram caindo, e as últimas do final de cada mês foram: março(2,84%), abril(2,76%), maio(2,37%), junho(1,55%), julho(1,50%), agosto(1,44%) e setembro(1,35%), esta última tomada do Relatório Focus de 21 de setembro. Quando escrevíamos este artigo, a última previsão do mês, no dia 28, ainda não havia sido publicada, o que só ocorreria no dia 30.

Como se percebe das taxas citadas, as quedas mais fortes ocorreram em maio, junho e setembro. Nas duas primeiras pesou fortemente o efeito da greve dos caminhoneiros e na última, cujo dado, vale repetir, é ainda da terceira semana e não da última do mês, entendo que teve efeito muito forte o clima eleitoral gerador de incertezas quanto ao futuro da política econômica. Isso diante da ascensão, nas pesquisas eleitorais, do candidato Bolsonaro, que não se entende bem nem com seu principal assessor econômico, e de Fernando Haddad, que para muitos prenuncia o retorno de políticas petistas que não deram resultado, particularmente na gestão de Dilma Rousseff.

Buscando mais razões objetivas e para o conjunto dessas quedas em 2018, além da greve dos caminhoneiros também atuou o fato de que a inflação voltou a subir neste ano, revertendo assim o efeito de sua queda muito forte em 2017, o que então contribuiu para o crescimento do poder aquisitivo de salários, com estes corrigidos pela inflação maior dos doze meses anteriores aos reajustes, e passando a um período de uma inflação menor. Além disso, em 2018 deixou de existir o efeito positivo que em 2017 veio da liberação das contas inativas do FGTS. Também foi apontado, pelo economista Affonso Celso Pastore, que em 2017 foram criados 1,7 milhão de empregos informais, ao mesmo tempo em que 21 mil empregos formais foram eliminados. Com o aumento da parcela de empregos informais, a média salarial ficou prejudicada e, além disso, os informais são menos propensos a tomar crédito para consumo, em face da maior instabilidade de sua renda, além de problemas de comprovação dela, acrescentamos que fatores como os apontados estariam prejudicando uma recuperação mais robusta do comércio varejista e das atividades que o abastecem.

Passando a índices de confiança, eles são importantes porque quando os consumidores decidem consumir particularmente no caso de bens duráveis financiados suas decisões são afetadas pela forma como veem o futuro. Assim, o receio de desemprego ou de menores ganhos no mercado informal inibem suas decisões de consumo. No caso dos empresários, sua visão do futuro, centrada em expectativas de lucros, também afeta suas decisões de investir e o leitor há de convir que o futuro da política econômica governamental e, assim, da economia do país, está coberto de muitas incertezas. Os índices são também afetados de outras formas, com destaque para o fato de que uma sequência de notícias ruins, espalhada pelos meios de comunicação e/ou pelo boca-a-boca nas comunidades onde as pessoas vivem, é um processo de efeito contínuo e cumulativo que fica na dependência de um conjunto de notícias boas para ser revertido.

Assim, é muito importante acompanhar a confiança dos agentes econômicos. A Fundação Getúlio Vargas realiza mensalmente o levantamento de vários índices de confiança, com destaque para os apresentados na tabela abaixo, oriundos de pesquisas junto a consumidores e empresários de quatro setores.

Em cada caso, esses índices se baseiam em dois outros. O primeiro faz uma avaliação da situação atual e o outro pergunta pelas expectativas quanto ao futuro. As séries analisadas começam em 2008, 2010 ou 2011 e, em geral, seus picos ocorreram em meados de 2010, só uma mostrando seu pico em 2012, a dos consumidores. No caso dos vales, ou pontos de menor valor dos índices, eles se concentram no segundo semestre de 2015, já prenunciando a queda do PIB que viria em seguida. Em 2017 veio uma recuperação que produziu seus últimos picos no início deste ano, e a partir deles, como visto acima, as previsões para o desempenho do PIB começaram a fraquejar. Note-se que os últimos picos estiveram longe de atingir os valores observados nos maiores picos da série como um todo. E os valores registrados em setembro último já revelam índices em queda ao longo do ano, com destaque para o dos consumidores, provavelmente afetados pela má situação que ainda domina o mercado de trabalho.

Tudo indica, portanto, que a economia se encontra num compasso de espera, hoje com ritmo determinado principalmente pelas incertezas quanto ao que vai ser feito pelo futuro presidente.

Não vi nenhum candidato dizendo que: “Tudo farei para recuperar a confiança dos consumidores, dos empresários e dos demais agentes econômicos”. Seria uma boa síntese de um programa econômico, pois haveria muito o que fazer, e assim também espaço para uma ampla cobrança de resultados por parte dos eleitores, resultados esses sintetizados em índices como os que apresentamos.

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