Roberto Macedo: ‘Poupar mais? Sábios conselhos de uma economista’

Compartilhe
TwitterFacebookWhatsApp

ARTIGO

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

A Folha de S. Paulo publicou, no dia 29 de abril, reportagem sobre uma economista em visita ao Brasil, onde participou de evento sobre tecnologia e inovação. Essa reportagem chamou-me a atenção pelo seu título e subtítulo: “Governos devem ser responsáveis pela poupança das pessoas, diz economista”, e “Pesquisadora defende automatização de depósitos para garantir recursos para velhice e emergências”. A razão do meu interesse é que tenho me dedicado ao tema da educação financeira, inclusive escrevendo um livro sobre o assunto, e o que a entrevistada disse coincide com aspectos que venho enfatizando ao pregar essa educação.

Wendy de la Rose é o nome da entrevistada. Quando tinha 9 anos, emigrou da República Dominicana para os Estados Unidos com a família. Se envolveu cedo nas discussões sobre dificuldades financeiras, inclusive atuando como tradutora do inglês ligado às decisões por tomar, pois seus pais não dominavam essa língua. “Isso acelerou meu amadurecimento e despertou meu fascínio pelas finanças”.

Hoje, com 29 anos, é fundadora do “Common Cents Labs” – vi na internet que é uma instituição sem fins lucrativos voltada para “soluções com o objetivo de aumentar o bem-estar financeiro para pessoas de nível de renda baixo ou moderado vivendo nos EUA”. Também criou o “Irrational Labs”, da Universidade Duke, um instituto que usa a “economia comportamental para desenhar e testar produtos que ajudam as pessoas no que diz respeito à saúde, riqueza e felicidade”.

Para quem não sabe, a economia comportamental é uma área dedicada ao uso da psicologia nas análises do comportamento econômico das pessoas, no que argumenta que essas pessoas têm racionalidade limitada. Serve, assim, de contraponto à análise econômica tradicional, conhecida como neoclássica, que se baseia no pressuposto que os seres humanos são racionais.

A economia comportamental adquiriu grande prestígio nos últimos 20 anos e já gerou até ganhadores do Nobel de Economia. Percebe-se, portanto, que a entrevistada tem vivência e currículo no assunto de que trata, e segue a moderna abordagem da análise do comportamento econômico das pessoas, o que também procuro fazer.

Vou passar agora a alguns dos conselhos que ela deu na entrevista. No caso da dificuldade que as pessoas enfrentam ao poupar, ela apontou o “viés do presente”, um comportamento no qual as pessoas privilegiam o consumo no presente em lugar dos sacrifícios necessários para poupar para o futuro. Os economistas neoclássicos veem esse comportamento argumentando que ele mostra que algumas pessoas valorizam mais o consumo presente do que o futuro, e chegam até a afirmar que nas suas decisões intertemporais sobre o consumo as pessoas costumam descontar o consumo futuro por uma taxa maior do que aquela com que avaliam o consumo presente. As pessoas não fazem esses cálculos, mas é argumentado que agem como se o fizessem, e os neoclássicos não fazem nenhum juízo de valor quanto a isso ser conveniente ou não para as pessoas. Já os economistas comportamentais argumentam que o “viés do presente” pode prejudicar o futuro pessoal, e defendem a mudança desse comportamento, inclusive mediante políticas públicas voltadas para essa finalidade.

Entre as medidas propostas pela entrevistada está a de programar investimentos automáticos toda a vez que haja recebimento de renda. Na literatura sobre economia comportamental, investimentos desse tipo são considerados produtos de compromisso com a poupança. Nessa linha, costumo recomendar também a compra de um imóvel financiado, com o pagamento das prestações significando simultaneamente um compromisso com a poupança e com o investimento realizado. Aliás, além de poupar é preciso que a poupança seja bem investida.

Outro conselho dela é o de “Em vez de pensar ‘só vou gastar X com restaurante’, estabeleça um número de vezes por mês, marque num calendário e siga o plano de ação.” Mais um: “Arrume alguém que verifique se você está mantendo suas intenções.” E um mais geral: “Não fazer nada significa deixar a maioria despreparada para o futuro.”

Esta percepção também é interessante: “É ingênuo achar que um indivíduo será capaz de vencer o cientista de dados de uma companhia que tem milhões deles e é especialista em fazer as pessoas comprarem”. E outra: “Ninguém é pobre demais para poupar, mostram iniciativas em comunidades muito carentes de países subdesenvolvidos. “Na sua visão, as políticas públicas voltadas para o assunto “devem assumir a responsabilidade pública de assegurar que as pessoas se preparem para o futuro.”

Há outro economista que tem as mesmas preocupações, Richard Thaler, premiado com o Nobel de Economia de 2017. Ele chama os vários vieses comportamentais de “misbehaving”, ou mau comportamento. Aliás, esse é o título do livro que publicou no Brasil neste ano, com o subtítulo de “A construção da economia comportamental” (Intrínseca, 2019). E ele propõe também “nudges”, ou “empurrõezinhos” para que as pessoas adotem comportamentos adequados.

A propósito, a recente aprovação do Cadastro Positivo pode ser vista como um “empurrãozinho”, mas de grande significado. Em lugar de deixar para as pessoas a opção de se inscreverem voluntariamente nesse cadastro, tal como previa a legislação anterior sobre o assunto, o que não faziam por desinteresse ou simples procrastinação, na nova legislação todas as pessoas com cadastro de crédito no sistema financeiro, ou mesmo em empresas prestadoras de serviços públicos, como o de eletricidade, serão automaticamente inscritas. Terão, entretanto, a opção de sair dele, se assim o desejarem. Ou seja, a opção apenas de sair foi o “empurrãozinho” adotado para assegurar a inscrição, baseado na perspectiva de que ela trará um benefício para os inscritos.

Pretendo usar a entrevista da economista Wendy de la Rose nas minhas pregações porque sua história e atuação lhe dão uma grande credibilidade, e serão uma ajuda adicional nos “empurrõezinhos” de educação financeira que recomendo.

  0 Comentários

  Publicações

  Para pensar