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Rubens Figueiredo: ‘A eleição da primeira vez’

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Artigo

  Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

As eleições de 2018 se aproximam envoltas numa névoa de dúvidas e incertezas. É a eleição da “primeira vez”. Pela primeira vez um candidato que é o favorito nas pesquisas de intenção de voto não terá seu nome estampado na urna eletrônica. Mais do que isso, está preso em Curitiba. Não se sabe qual poderá ser sua participação na campanha eleitoral. Lula poderá gravar vídeos da prisão? Eles poderão ser veiculados nos programas eleitorais na TV? Qual é a real influência que terá sobre os eleitores?

Pela primeira vez haverá financiamento público de campanha. As empresas privadas, historicamente grandes doadoras, não poderão contribuir. Empreiteiras, laboratórios, bancos e a JBS ficarão de fora. Os partidos com maiores bases parlamentares terão mais recursos, pois têm mais fundo eleitoral e partidário. Apesar dessa “garantia”, o volume de dinheiro que será gasto em 2018 será certamente muito inferior ao despendido em eleições anteriores.

Os limites impostos aos gastos sugerem campanhas eleitorais bastante modestas. Um candidato a deputado estadual poderá investir, no máximo, R$ 1 milhão em sua busca por uma vaga nas Assembleias Legislativas. Quem aspirar a uma cadeira no Congresso Nacional poderá dispor de R$ 2,5 milhões. Esses valores ficam claramente aquém do que é necessário para fazer frente às despesas de comunicação, transportes, contratação de cabos eleitorais etc., principalmente nos Estados maiores.

Pela primeira vez, também, a campanha será curtíssima. Terá a duração de apenas 45 dias nas ruas e de 35 dias na televisão. O impacto desse tempo restrito de exposição massiva dos candidatos deve favorecer os candidatos mais conhecidos e aqueles que terão um tempo robusto na televisão. A julgar por esse raciocínio, despontarão nas urnas nomes conhecidos na política, gente com “muito tempo de estrada”, cuja lembrança está viva na cabeça dos eleitores. Aqueles com boa inserção nos governos municipais – deputados que destinaram verbas de emendas às Prefeituras, por exemplo – contarão com a ajuda dos prefeitos e da estrutura da máquina, também saindo em grande vantagem em relação aos seus adversários. Isso pode gerar um efeito perverso: a sociedade clama por mudança, mas elegerá os mesmos de sempre.

Será inédito, ainda, o papel dos Tribunais Eleitorais no sentido de policiar e punir a veiculação de fake news. Não será tarefa fácil. O escritor americano Mark Twain escreveu, certa vez, que “uma mentira pode dar a volta ao mundo enquanto a verdade ainda calça seus sapatos”. Pesquisadores do MIT analisaram cerca de 126 mil notícias veiculadas no Twitter entre 2006 e 2017, tuidadas e retuitadas por mais de 3 milhões de pessoas. Descobriram que a chance de uma notícia falsa ser propagada é 70% maior do que as verdadeiras.

Numa campanha curta, com poucos recursos, na qual o risco de se usar expedientes como Caixa 2 e ser impugnado é enorme, tempo na televisão é ouro em pó. Segundos serão valiosíssimos. Ao contrário do que apregoam alguns especialistas mais interessados em vender seu peixe do que em passar análises corretas para a opinião pública, não serão as redes sociais que influenciarão decisivamente o eleitorado, será a TV.

Quem se dispuser a estudar a Pesquisa Brasileira de Mídia de 2016, realizada pelo Ibope com mais de 10 mil entrevistas em todos os Estados brasileiros, encontrará dados interessantíssimos que corroboram essa tese. Quando se pergunta qual o meio de comunicação mais utilizado pelo entrevistado (apenas a primeira menção), a televisão alcança 63%, contra 24% da internet, 7% das rádios e 3% dos jornais.

Qual a frequência de utilização de nossos meios de comunicação? Um contingente de 77% dos brasileiros entrevistados respondeu que assiste TV todos os dias. Grosso modo, é possível dizer que 8 de cada dez eleitores estarão grudados nos aparelhos durante a campanha. Apenas 3% não assistem TV nunca. No que se refere à internet, 50% dos entrevistados disseram informar-se através dela todos os dias. Mas 37% não a usam nunca. Mais do que isso, quando se pergunta em qual mídia os brasileiros confiam, 54% confiam sempre ou quase sempre na TV, contra apenas 14% dos usuários de redes. A capacidade que as redes sociais terão de influenciar nas campanhas, por conta disso, é perceptivelmente limitada.

Pela primeira vez, na eleição presidencial, temos uma situação inusitada. Nas eleições passadas, de 1994 para cá, os candidatos favoritos pertenciam a partidos fortes e estruturados. Durante anos, PT e PSDB foram os grandes protagonistas das eleições. Desta vez, quem tem intenção de voto não tem partido e quem tem partido não tem intenção de voto. Com Lula fora do cenário, lidera a disputa Jair Bolsonaro, do inexpressivo PSL. Ciro Gomes é do raquítico PDT e Marina Silva é da Rede, que é mais uma “griffe” do que um partido. Resta saber o fôlego que terão esses candidatos, sem partidos, sem recursos e sem candidatos fortes aos governos dos Estados.

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