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Rubens Figueiredo: ‘A exportação do fracasso’

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ARTIGO

 

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Um livro que dá uma excelente ideia do funcionamento do jeito petista de ser é Euforia e fracasso do Brasil grande: política externa e multinacionais brasileiras na era Lula, do jornalista da Folha de S. Paulo Fábio Zanini (Editora Contexto, 2017). A obra mistura megalomania, uma série de trapalhadas de fazer inveja aos melhores filmes de Stan Laurel e Oliver Hardy, dinheiro público à profusão gasto em outros países e a monumental sem cerimônia com que se articulam e interpenetram o assim chamado “interesse nacional” e o de empresas escolhidas por serem amigas do Rei.

Um exemplo de plano absolutamente desconectado da realidade foi a tentativa de “apenas” transformar o Oceano Atlântico numa extensão do território nacional. Para tanto, levou-se a efeito uma ruidosa aproximação política com a África através do presidente Lula que, em 2003, proferiu a célebre e infeliz frase em Windhoek, capital da Namíbia: “Estou muito surpreso, porque quem chega a Windhoek não parece que está num país africano”.

Apesar desse início aparentemente pouco promissor, os contatos entre autoridades da Namíbia e empresários brasileiros patrocinados pelo governo petista se multiplicaram. Em fevereiro de 2013, o então ministro da Defesa Celso Amorim foi ao país africano levando consigo representantes das empresas Avibras, Agrale, Imbel, Embraer e Condor. O objetivo era vender produtos como mísseis, jipes militares, fuzis, carabinas, o avião Super Tucano (estranho o governo petista não ter mudado o nome deste avião…) e gás lacrimogêneo.

A maneira que se dava a venda é típica dos padrões nacionais. O onipresente BNDES tem uma linha de crédito muito atrativa: trata-se do financiamento pré-embarque. Os países compradores de nossos produtos recebem créditos a juros mais baixos do que os praticados no mercado internacional. Segundo Zanini, o esquema “é vantajoso para o país que compra, é vantajoso para a empresa brasileira que vende e é vantajoso em termos geopolíticos para o Brasil, que expande sua influência global. Mas nem sempre é vantajoso para quem tem que pagar essa conta, que é o Tesouro brasileiro, fonte de recursos e aportes para o banco de fomento” (pg 40).

Outro exemplo espetacular de ineficiência estatal nos últimos anos é a construção da estrada que ganhou o pomposo nome de Carretera Interoceânica Sur, ou Estada do Pacífico, que liga o Brasil à costa peruana. Não é possível encontrar iniciativa que exponha de forma mais transparente atos seguidos de decisões equivocadas moldadas por delírios governamentais. No início da obra, em setembro de 2005, o presidente Lula, com a humildade que lhe é peculiar, sapecou: “Este ato da instalação da pedra fundamental não só marca a relação entre o Brasil e o Peru, como também inaugura um novo capítulo na região amazônica e no Brasil como um todo” (pg 124).

O objetivo do projeto era criar uma nova rota para a exportação de produtos brasileiros – soja, principalmente – para a China e outros mercados asiáticos. Como se sabe, os produtos produzidos pela região Centro-Oeste brasileira são escoados através de um custoso e lento transporte rodoviário até o porto de Santos para, então, serem embarcados em navios que deverão contornar a região Nordeste e atravessar Canal do Panamá, numa viagem que costuma levar 45 dias. Imaginava-se à época que, pela Estrada do Pacífico, a operação poderia ser realizada em cerca de 15 dias.

Segundo Zanini, “nunca na história desse país, como diria o bordão consagrado por Lula, uma previsão esteve tão errada“ (pg. 125). A descrição que o autor faz em seguida é definitiva. Ele percorreu de carro 1.600 Km da Estrada do Pacífico, de Cuzco até a fronteira do Acre, ida e volta. Diz ele: “No trajeto, equivalente a dois terços da rodovia, não cruzei com um único caminhão carregando soja vindo do Brasil” (pg 125). Um oficial da aduana do Peru declarou que em um ano de atividade, jamais havia visto uma carreta levando soja em sua caçamba.

A decisão de construir a estrada foi totalmente irresponsável. Caminhões carregados de soja pesam de 60 a 70 toneladas e não são apropriados para subir e descer a Cordilheira dos Andes. Em longos trechos, às vezes a velocidade média não ultrapassa os 20 km/h. Um consultor do BID chamou a atenção da epopeia que é subir de 100 metros do nível do mar a 4.800 metros em 100 km. Estudos comprovaram que a rota peruana poderia gerar uma economia de, no máximo, quatro dias, até o destino final, o que estaria longe de justificar o investimento e o esforço realizados.

Não é difícil adivinhar o que aconteceu depois da decisão de realizar as obras. Entraram em campo as indefectíveis grandes empreiteiras brasileiras que, como de praxe, dividiram o trabalho entre si. A Odebrecht ficou com o maior trecho (656 quilômetros) e o consórcio Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa abocanhou um pedaço de 306 quilômetros. Como as estimativas de tráfego estavam exageradas, a pavimentação da estrada é de asfalto de alta qualidade. Fosse o planejamento realizado com os pés no chão, o custo da obra seria 30% do efetivamente gasto.

O livro ainda tem outros capítulos com fracassos monumentais. São eles a tentativa de achar petróleo na Namíbia, as estripulias da Odebrecht em Angola (onde se associou a uma ditadura que está no poder há 40 anos), a aventura de implantar uma estrutura de agronegócios no norte de Moçambique e a construção de uma cidade no meio da selva na Guiné Equatorial, uma empreitada que faria o alucinado Fritzcarraldo (imortalizado na interpretação de Klaus Kinski) se sentir um pacato comerciante de loja de roupas de shopping center tradicional.

Entre 2003 e 2015, o BNDES liberou US$ 14 bilhões para 575 projetos no exterior, em 11 países da África e da América Latina. No campo diplomático, o Brasil tinha, em 2015, embaixadas em inacreditáveis 139 países, sendo que 34% delas haviam sido criadas depois da primeira eleição de Lula. Entre as novas, o Brasil achou produtivo manter unidades em Maláui, Granada, Nepal, Belarus e outras potências. Como diria um renomado apresentador de televisão: “loucura, loucura, loucura”…

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