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Rubens Figueiredo: ‘A história depois do fim da história’

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ARTIGO

 

 

 

 Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Em setembro de 1989 foi publicado um dos artigos mais influentes das últimas décadas. “O fim da história?”, escrito por Francis Fukuyama, se tornou um marco na trajetória da publicação francesa Commentaire, fundada por ninguém menos que Raymond Aron. Quase 30 anos depois, a Revista (Numéro 161/Printemps 2018) volta ao tema, trazendo uma reflexão do próprio Fukuyama sobre o assunto, intitulado “Retour sur “la fin de l`historie””.

É muito provável que a história nunca tenha mudado tanto quanto nos últimos 30 anos. É bom que se diga que o “fim da história” nunca significou algo parecido com o fim dos “acontecimentos históricos”. É lógico que, de 30 anos para cá, aconteceram golpes de Estado, crises financeiras, eleições e o 11 de setembro. Fukuyama defende a sua tese argumentando que, no sentido que quis empregar o termo, a “história” pode ser concebida como sinônimo de desenvolvimento ou de modernização.

O autor explica que sua ideia não é original. Hegel e Marx utilizaram-se desse conceito em suas obras. Marx entendia o capitalismo, que continha em seu bojo a semente de sua própria superação (a lei da queda tendencial da taxa de lucro), como uma etapa anterior ao desenvolvimento pleno, o estágio final evolutivo da humanidade com a implementação da redentora utopia comunista. A ideia de Fukuyama, em 1989, era de que, ao invés do comunismo, o mundo assistia ao triunfo da democracia liberal, vista como o melhor arranjo econômico, social e político que a humanidade conseguira produzir.

As técnicas dominantes de determinado período histórico criam as possibilidades de produção que, por sua vez, moldam a natureza da vida social e as formas de organização política. Isso ocorreu de modo avassalador no período da Revolução Industrial. No mundo contemporâneo, quando das primeiras fases da revolução da informação, o monopólio exercido por grupos de elite na produção e difusão das informações foi quebrado. A formação da opinião em duas etapas (do emissor para o receptor) se enfraqueceu e o advento das redes sociais permitiu o fortalecimento da mobilização horizontal. Com isso, mudou qualitativamente a maneira da classe média – entendido em seu sentido mais amplo – participar dos assuntos políticos, já que passou a apresentar uma autonomia crítica em relação às formas tradicionais de liderança via partidos ou sindicatos.

Para exemplificar, Fukuyama chama a atenção para os casos dos países orientais, como Japão, Coréia, Taiwan e China. Com a industrialização da região, as transformações sociais acarretaram uma convergência com os países ocidentais: contingentes enormes da população que viviam na área agrícola foram deslocados para os centros urbanos, os investimentos na educação aumentaram exponencialmente, a classe média se desenvolveu e a divisão do trabalho se tornou mais complexa e interdependente.

Essa argumentação que embasaria a afirmação segundo a qual a democracia liberal seria o derradeiro e mais evoluído estágio de desenvolvimento das sociedades esbarra, admite o autor, em alguns desafios. Quase três décadas após a publicação do festejado artigo, Fukuyama expõe com humildade os problemas que impactam sua teoria. O primeiro deles é que a ideia original se concentrou sobre a democracia e não atentou para a possibilidade da existência de um Estado relativamente impessoal que pudesse manter a ordem social e abastecer a população de bens públicos de razoável qualidade.

O segundo problema é de caráter mais singelo. Existe a possibilidade dos Estados modernos declinarem ao invés de seguir uma inexorável trajetória ascendente ou mesmo manter-se em seu modo de organização social mais sofisticado. O Estado moderno nada tem de “natural”. Não é da natureza social que um conglomerado humano opte por uma organização que privilegie o mérito e a impessoalidade. Ao contrário, deixada à sua própria sorte, Hobbes dá uma surra em Montesquieu. Os interesses dos amigos, das famílias e dos grupos tendem a prevalecer. Haveria a possibilidade, pois, de um processo de “repatrimonialização” (pg. 23).

O terceiro ponto chama a atenção da ascendência das elites sobre as instituições do Estado, o que acarreta a busca incessante para a consecução de seus próprios interesses. A ideia generosa da democracia liberal – “o governo de todos para todos” – não traz em si mesma a garantia do bom exercício do poder político. O predomínio inesgotável das elites irrita a opinião pública. Não por acaso, lembra Fukuyama, o mundo assiste uma onda de movimentos anti-establishment: Viktor Orban, na Hungria, Jaroslaw Kacynski, na Polônia, Mariene Le Pen, na França, os brexiters, no Reino Unido e Trump, nos Estados Unidos.

O quarto problema é o mais desafiador. O autor reconhece que o caso chinês é um ponto fora da curva em seu raciocínio. A China conseguiu um monumental desenvolvimento econômico permanecendo uma ditadura. A vitalidade da infraestrutura econômica não desembocou na sofisticação política. Fukuyama parece incomodado com o assunto e pergunta se o modelo chinês seria durável. Como reagiria a classe média chinesa frente a uma recessão? Durável ou não, a verdade é que a China não se encaixa na tese do fim da história e parece longe de estar com sua história no fim.

O quinto desafio é o desenvolvimento tecnológico. O autor admite sabiamente que é impossível falar no fim da história sem o fim do desenvolvimento tecnológico, se é que o desenvolvimento tecnológico terá fim. Nesse sentido, talvez nada mais adequado do que nos reportarmos ao livro Homo Deus: Uma breve história do amanhã, do israelense Yuval Noah Harari, que dá bem uma ideia da falta de limites que a tecnologia poderá alcançar e sua monumental capacidade de alterar comportamentos e mudar opiniões.

O derradeiro desafio é a questão do desejo do reconhecimento, a necessidade do homem moderno se sentir pertencendo a algum grupo social mais restrito. Diz Fukuayama: “os indivídduos querem se ver não como seres humanos genéricos, mas como húngaros, catalães, muçulmanos, gays, lésbicas, mulheres, afro-americanos etc” (pg 25). Para o autor, há um risco real dessa busca incessante da identidade produzir conflitos e instabilidade nas democracias contemporâneas e mesmo entre países.

O tema é tão fascinante quanto desafiador. Parece razoável supor que a democracia liberal seja, de fato, o ponto culminante da história da humanidade no que diz respeito à forma de organização político-econômico-social. Apesar de todos os problemas apontados pelo autor, o fato é que o mundo moderno experimentou uma notável melhoria no bem-estar das pessoas de 1989 para cá – e tudo indica que esse avanço vai continuar. Não há dúvida, entretanto, que as estruturas políticas atuais deverão ser modernizadas para fazerem frente aos desafios impostos pelas novas tecnologias, que geram aspirações e comportamentos com os quais a democracia liberal de 30 anos atrás não estava acostumada a lidar.

 

 

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