Rubens Figueiredo: ‘A impressionante história de D. Pedro I’

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ARTIGO

 

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Dom Pedro I foi um personagem histórico complexo e denso. Seu papel na consolidação da Nação brasileira e na unidade do país dificilmente poderia ser minimizado. Quem não conhece sua trajetória, entretanto, fica com a imagem do Imperador impulsivo, mulherengo e meio irresponsável, sem muita consciência do papel social e político que representava. Seria um “bom vivant”, preocupado apenas em dar vazão aos seus devaneios eróticos e buscar incessantemente os prazeres fugazes da vida. Trata-se de um desserviço que os estereótipos prestam à História.

O livro O Império é você (São Paulo, Editora Planeta, 2012, 496 pgs), de Javier Moro, reconstitui de forma brilhante a época e os acontecimentos vividos por D Pedro I. Se é verdade que nosso primeiro imperador tinha uma queda, muitas vezes irrefreável, pelo sexo feminino, também é que se mostrou um homem extremamente corajoso e determinado ao longo da vida, político com sensibilidade para perceber o momento certo de agir, consciente da sua importância para manter unido o vasto Brasil, um grande líder militar, filho exemplar e excelente pai.

O subtítulo do livro faz jus ao seu conteúdo: “A fascinante saga do homem que mudou a história do Brasil”. Pedro I sempre foi colocado de lado por D. João VI no que se referia ao trato das coisas do Estado. Na primeira oportunidade em que foi convocado, porém, o príncipe herdeiro agiu como um verdadeiro líder. Numa situação de revolta extremamente perigosa, Pedro, excelente cavaleiro, foi convocado pelo pai para negociar, em plena sedição, com os rebeldes que queriam circunscrever o poder real.

A atitude de Pedro, aos vinte e poucos anos, conjugou tino político e coragem. D João VI achava que uma monarquia sem poder absoluto não fazia sentido. Pedro, apesar de herdeiro de um vasto Império e não ser exatamente um homem de muitas letras, inclinava-se às tendências liberais e tinha plena consciência do que estava acontecendo no mundo. Rapidamente, percebeu que era hora de ceder, convenceu D. João a sair do Palácio de São Cristóvão e ir para o centro da cidade aceitar a Constituição. O Rei foi ovacionado e levado pelos rebeldes até a Praça do Rócio, onde foi proclamada oficialmente a aceitação da Constituição.

Essa foi a primeira e marcante experiência pública de D. Pedro. A partir daí, passou a participar das reuniões do Conselho de Ministros. Os rebeldes constitucionalistas, liderados por Macamboa e Duprat, no entanto, insistiam em tomar o poder. E mais uma vez o jovem Pedro I agiu com pulso firme e recolocou as coisas no seu devido lugar. D João reconheceu a ação eficiente do filho e lhe disse que deveria perseguir sempre a unidade do Império. O Rei teria que voltar à Europa.

E foi assim que, ambos aos 22 anos, Pedro e sua mulher Leopoldina assumiam o vasto Império brasileiro, num contexto de grandes dificuldades financeiras: o Estado estava praticamente falido. D. Pedro promoveu, então, numa estratégia que seria tachada de neoliberal pelos esquerdistas de hoje, um vigoroso corte de gastos que provocou o êxodo dos serviçais para Portugal e a irritação dos nobres que não haviam voltado para a Europa com D. João VI. Eram tempos difíceis.

Em março de 1822, D. Pedro empreenderia outra jornada heróica: foi a Minas pacificar o Estado, governado por uma junta insubmissa, e envolto no clima da revolta independentista conhecida como Inconfidência Mineira. A viagem em si já foi uma epopeia. Exigia cavalgar o dia inteiro por picadas estreitas e sob chuvas torrenciais. Não havia nada de nobre no deslocamento: o príncipe regente foi acompanhado por quatro pessoas, um criado, um peão e três soldados, que comiam basicamente toucinho e dormiam em qualquer lugar. A jornada foi extremamente bem sucedida: o Brasil continuaria unido e, naquele momento, em paz.

Um dos episódios mais heróicos da história de Pedro I ocorreu quando ele teve que abdicar ao trono e voltar a Portugal. O Imperador havia sido enganado várias vezes e traído por seu irmão, Miguel, que governava Portugal e era absolutista. Pedro, com seus ideais constitucionalistas, resolve invadir Portugal e retomar o poder. Os acontecimentos que se seguiram são dignos dos melhores filmes de Spielberg.

Pedro troca uma vida que seguia tranquila em Paris, no majestoso Castelo de Meudon, para liderar uma aventura militar que, vista em perspectiva, tinha tudo para dar errado. À frente de uma tropa constituída de uma improvável combinação de “homens liberais fanáticos, estudantes idealistas recém-saídos da Universidade de Coimbra, escritores e poetas em busca de palavras para captar a grandeza heroica que estavam prestes a vivenciar, homens liberais fanáticos, veteranos das campanhas contra Napoleão … desempregados, malabaristas, aventureiros recrutados nas ruas de Paris e Londres e autênticas ruínas humanas que haviam se alistado unicamente para ter o que comer” (pg 453).

Foi com esse “exército” que D. Pedro, financiado pelo banqueiro espanhol Mendizábal, lutou contras as tropas absolutistas de seu irmão Miguel, vencendo-as. O episódio da resistência dos liberais na cidade de Porto está entre as experiências mais incríveis de que se tem notícia. No cerco, D. Pedro se mostrou um líder corajoso, perspicaz e de um vigor físico extraordinário, angariando o respeito e a admiração de seus soldados. Venceu a guerra, restaurou a Monarquia Constitucional e, num gesto de grandeza, negou-se a sacrificar seu irmão e a perseguir os vencidos. Morreu pouco tempo depois, deixando sua segunda esposa Amélia viúva com apenas 22 anos.

Esse foi o começo e o fim da impressionante trajetória de D. Pedro I. No meio do caminho, é claro, uma série de passagens muito menos edificantes, como o sofrimento e a humilhação que impôs à sua primeira mulher, Princesa Leopoldina, ao colocar no Castelo Real ninguém menos que sua amante, Domitila de Castro. O caso teve tanta repercussão na Europa que o Imperador teve dificuldades em conseguir uma segunda esposa, tamanho o escândalo que provocou. Mas isso é outra história.

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