Rubens Figueiredo: ‘A opinião pública não existe?’

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ARTIGO

 

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Não é pequena a quantidade de pessoas, algumas de bom nível, que simplesmente declaram “não acreditar” em pesquisas. As pesquisas erram, argumentam alguns. Outros, com menos familiaridade com os princípios da estatística, não se convencem sobre a viabilidade de que amostras proporcionalmente microscópicas (2 mil entrevistas) possam ser extrapoladas para universos aparentemente estratosféricos (mais de 120 milhões de eleitores). Existem também os que dizem que nunca foram entrevistados nem conhecem alguém que tenha sido. Não poderiam faltar os adeptos das teorias conspiratórias, para quem os institutos operam malandramente para manipular dados e fabricar resultados de acordo com suas conveniências de momento.

Esse grupo está em boa companhia. O sociólogo francês Pierre Bordieu é autor de um pequeno, famoso e instigante ensaio cujo título provocativo é: A opinião pública não existe? Nele, o autor cita de passagem questionamentos mais populares às pesquisas (alguns expostos acima) e levanta questões de ordem mais conceitual, defendendo a tese de que a opinião pública não pode ser concebida como tal da maneira que lhe imputam os resultados das pesquisas de opinião. Os motivos dessa falta de correspondência, explica o autor, são três.

Primeiro, não é verdade que todo indivíduo tem capacidade de expressar uma opinião digna desse nome. Segundo, é inconcebível imaginar que a opinião de todos os indivíduos – a de um respeitável professor acadêmico e de um semianalfabeto, por exemplo – possa ter o mesmo valor. Terceiro, a interessante ideia da “imposição da problemática”.

A questão da capacidade de emitir uma opinião e do mesmo valor das opiniões é polêmica. Está subjacente a essa ideia o argumento de que o desnível educacional, cultural ou de informação comprometeria, por assim dizer, a “qualidade” da opinião. Mas a opinião não é uma “verdade em si”. Está mais próxima daquilo que as pessoas “acham” do que daquilo que as pessoas “sabem” sobre algum assunto. Alguém que opina preferir ouvir Wesley Safadão a Mozart tocado pela Orquestra Filarmônica de Londres estará “errado”? Uma opinião, qualquer opinião, não pode ser desqualificada. E, afinal, quem seria o juiz que classificaria as opiniões?

Essa concepção que diferencia opiniões e as hierarquiza também contrasta frontalmente com o princípio do “nivelamento democrático”: cada eleitor, um voto. Não se discrimina uma escolha, até porque todos têm direito a uma opção. Se no momento mais agudo e nobre da democracia, a eleição, todos os eleitores se equivalem, por que haveria de ser diferente nas pesquisas de opinião?

Já a ”imposição da problemática” parece fazer mais sentido. As perguntas feitas quando se elabora um questionário estão sempre vinculadas aos interesses do pesquisador e/ou demandas do contratante. Pede-se que o entrevistado responda sobre questões que passam longe de seu universo de preocupação cotidiano ou ele simplesmente desconhece. E isso gera um enfoque diferente nos entrevistados, vinculado à sua segmentação sócio-demográfica. Diz Bordieu: “Como, por exemplo, as questões que giram em torno dos problemas da moral, tratem sobre a severidade dos pais, as relações entre professores e alunos, a pedagogia diretiva ou não diretiva etc, problemas que são encarados como problemas éticos à medida que se desce na hierarquia social, mas que podem ser considerados como problemas políticos pelas classes superiores.”

A “imposição da problemática” também vem a campo quando os institutos fazem pesquisas de intenção de voto ou pedem para os eleitores compararem governos. O Brasil está no meio de um turbilhão político que se equipara a um tsunami – desemprego, Joesley gravando o presidente da República, Operação Lava Jato na sua quadragésima segunda fase, um procurador geral da República que declara a relação entre o bambu e a flecha, Lula na iminência de ser preso. Aí vem o instituto e pergunta: “Em quem você votaria para presidente da República se a eleição fosse hoje?”. “Quem foi melhor: FHC, Lula, Dilma ou Temer?”.

Conceituar o que é opinião não é fácil. Ela pode significar a expressão de uma reflexão profunda baseada em estudos de anos ou apenas um palpite eventual. Agregá-las de modo racional e sociologicamente aceitável é igualmente complicado. Nosso País, infelizmente, tem uma desigualdade social astronômica. Isso faz com que segmentos sociais específicos tenham visões de mundo significativamente distintas, para não dizer antagônicas. A diferença de opinião entre os mais e menos instruídos é oceânica. Fosse o Brasil um país formado apenas por eleitores mais instruídos, seríamos mais democráticos e liberais, menos estatizantes e intervencionistas. Seríamos melhores. Mas essa é só minha opinião.

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