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Rubens Figueiredo: ‘O eleitor brasileiro é contra Bolsonaro?’

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Artigo

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Fica difícil imaginar a possibilidade dos brasileiros serem majoritariamente contra o ideário que elegeu Jair Bolsonaro presidente da República. Nosso presidente não é homem de meias palavras: ele diz o que pensa e, às vezes, até passa do ponto em termos de sinceridade e espontaneidade. Não é um político que primeiro estuda o que a opinião pública está pensando e, depois, tenta adequar seu discurso aos anseios dos brasileiros. Ao contrário, se Bolsonaro fosse uma música, seu refrão seria muito parecido com o verso da música de Paulinho da Viola: “eu sou assim, quem quiser gosta de mim, eu sou assim”.

Pois bem: e não é que o Datafolha encontrou uma maneira de “comprovar” que as principais propostas do presidente da República não guardam consonância com a vontade e as expectativas do eleitorado? Segundo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha e Alessandro Janoni, diretor de pesquisa da mesma instituição, “parcela expressiva da população discorda dos temas centrais da sua plataforma” (de Bolsonaro). Conhecemos presidentes eleitos que propõem uma coisa na campanha e fazem outra quando estão no poder. Agora, eu nunca vi alguém que fosse capaz de ganhar uma eleição propondo o contrário daquilo que os eleitores querem…

O instituto fez uma bateria de 13 perguntas relacionadas a 13 temas, alguns bem polêmicos. O segmento eleitoral bolsonarista ganhou em três, houve empate técnico em dois e os eleitores mais identificados com a “esquerda” teriam sido majoritários em 8 temas.

As vitórias dos eleitores de “direita” foram os seguintes (C significa “concorda” e D “discorda”):

Já os eleitores considerados de esquerda, teriam sido majoritários nos seguintes itens:

Podemos considerar empate técnico nas questões referentes às mulheres ganharem menos que os homens e ao aborto, como mostram os dados abaixo.

 

 

Apesar do esforço de Paulino e Janoni em tentar dissociar a agenda de Bolsonaro dos desejos dos eleitores – sem dúvida, uma pauta muito interessante do ponto de vista jornalístico -, a tarefa não foi bem sucedida. Se tirarmos a média, os eleitores pró-Bolsonaro atingem 45% do total das respostas, contra quase 52% dos eleitores que seriam contrários, ou seja, um resultado muito perto da margem de erro. Dizer, portanto, “que parcela expressiva da população discorda dos temas centrais da plataforma” presidencial é uma meia verdade, porque parcela expressiva dos eleitores – quase a metade! – também concorda com os temas centrais da plataforma bolsonariana.

Mas o pior não é isso. No afã de criticar o presidente, a redação marota das perguntas gera uma distorção que não pode deixar de ser registrada. Se a maneira de questionar o entrevistado fosse mais equilibrada, o resultado seria, inequivocamente, pró-Bolsonaro.

 

Caso as perguntas fossem mais neutras, colocando em questão os argumentos corretos, não há dúvida que aumentaria muito o contingente de eleitores que se alinham às propostas do presidente. Desde a redemocratização, pela primeira vez o vencedor da eleição presidencial não foi o vencedor no contingente de eleitores que ganham até dois salários mínimos. Collor, FHC duas vezes, Lula duas vezes e Dilma duas vezes ganharam entre os mais pobres. Bolsonaro, não. Comparando a intenção de voto em Bolsonaro e Haddad (Datafolha, publicada em 2/10/2018), o militar venceu o petista nos eleitores de ensino superior (32 x 17), no Sudeste (48 x 29) e no segmento que ganha de 5 a 10 salários mínimos (19 x 7). Então, a questão da agenda e os debates de conteúdo das propostas são importantíssimos, pois a batalha da comunicação e o apoio ao governo se dão fundamentalmente entre eleitores da classe média tradicional, com mais renda e mais instrução, que moram nos grandes centros urbanos e são mais bem informados.

É evidente, por exemplo, que a classe média é favorável à educação sexual nas escolas. Trata-se de uma medida altamente civilizada. O que a classe média abomina é a apologia da homossexualidade ou a ideia de que uma criança do sexo masculino seja estimulada a “escolher” sua sexualidade na adolescência. Da mesma forma, é óbvio que deve-se ensinar política nas salas de aula. Ninguém é troglodita. O que os brasileiros são contra é que se faça um ensino enviesado e ideologizado, onde as ideias de esquerda predominem e que facínoras como Fidel Castro, Stálin e Mao Tsé-Tung sejam tratados como os grandes personagens da história mundial, padrões de excelência a serem endeusados por professores petistas e reverenciados por nossas crianças e adolescentes.

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