Propostas para consolidar os ganhos da classe média nos países iberoamericanos

17-03-2014
José Maria Aznar, ex-primeiro-ministro da Espanha

 

Com a participação de representantes de 12 países ibero-americanos, teve início nesta segunda-feira (17) em São Paulo, o Seminário Internacional Respostas Modernas e Democráticas às Demandas Sociais, realizado conjuntamente pela espanhola FAES (Fundação para Análises e Estudos Sociais) e pelo Espaço Democrático, fundação do PSD para estudos e formação política.

É o primeiro evento organizado pelas duas fundações desde que assinaram protocolo de cooperação, em abril de 2012. AFAES, vinculada ao Partido Popular da Espanha e presidida pelo ex-primeiro-ministro José Maria Aznar, é um grande laboratório de ideias e programas que embasam a ação política do pensamento de centro da Espanha.  Parte das atividades da fundação é conduzida pelo Centro de Estudos Iberoamericanos, que funciona como um observatório da política e da economia dos países ibéricos e da América Latina.

Na abertura do seminário, o secretário-geral da FAES, Javier Zarzalejos, destacou a importância do encontro para debater princípios que são base de sustentação da FAES: a democracia, a liberdade política e econômica e o Estado de Direito como caminhos mais adequados para alcançar o desenvolvimento completo e sustentado da região.

Javier Zarzalejos, secretário geral da FAES

O presidente do Espaço Democrático, ministro das Micro e Pequenas Empresas e vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif, lembrou de como surgiu a integração com a FAES e lançou uma proposta aos participantes: a criação de um tratado de livre comércio para as pequenas empresas, englobando a América Latina, os países da África que falam o português, além de Espanha e Portugal.

A necessidade de reformas na estrutura do Estado e do sistema político e a redução da presença dos governos na vida das pessoas e na economia foram algumas das conclusões do painel “Reformas Políticas para Melhorar a Democracia e Atender as Novas Demandas Sociais”, neste primeiro do dia.

Na parte da tarde, o tema principal foram as “Reformas Econômicas para a prosperidade e a consolidação das classes médias”, com a participação de representantes de Portugal, Peru, Argentina e Brasil.

Guillermo Lasso, presidente do Partido Creando Oportunidades, do Equador.

Do painel “Reformas Políticas para Melhorar a Democracia e Atender as Novas Demandas Sociais” participaram Guillermo Lasso, presidente do partido equatoriano CREO (Creando Oportunidades), o senador chileno pela UPLA (União dos Partidos Latino-Americanos), Jovino Novoa, o presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), Ricardo Patah, e o deputado federal pelo PSD de São Paulo Guilherme Campos. Durante o painel foi apresentado um depoimento gravado do jornalista venezuelano Miguel Henrique Otero, publisher de um dos mais tradicionais jornais do País, o El Nacional. Otero sensibilizou os participantes do painel ao descrever seu país como um “caso de estudo sociológico”. Segundo ele, a situação é “dramática, de um país rico que está sendo transformado em pobre, onde a marginalidade cresce e os salários recuam a cada dia”.

Classe média

A consolidação das classes médias na América Latina foi o tema do segundo painel da segunda-feira. Moderado pelo ex-senador de Santa Catarina, Jorge Bornhausen, o debate teve a participação de representantes de Portugal, Peru, Argentina e Brasil.

Miguel Relvas, ex-ministro de Governo de Portugal

Para o português Miguel Relvas, ex-ministro de governo de seu país, após três anos de intervenção da chamada “tróica” (que reúne o Banco Central Europeu, Comunidade Econômica Européia e FMI), Portugal vem apresentando números bastante positivos, mas tem grandes desafios pela frente.

“Fomos um dos poucos países europeus que apresentaram crescimento da produtividade nos últimos anos e implementamos diversas reformas estruturais que podem servir de exemplo para outros que estão na mesma situação”, afirmou. Em sua opinião, o país tem hoje uma economia mais ágil e mais produtiva, em condições de abrir um novo ciclo de crescimento.

“Mas, se é verdade que o país está melhor, é também verdade que as pessoas não estão melhores”, disse. Para ele, ao final de três anos de intervenção, “somos novamente donos do nosso destino, mas agora precisamos trabalhar para corrigir desigualdades, elevar salários e, enfim, melhorar a vida das pessoas”.

Raúl Díez Canseco, ex-vice-presidente peruano, relatou que seu país vem crescendo de forma consistente nos últimos anos, o que propiciou a expansão da classe média, que hoje já representa 34% da população. “A preocupação agora é preservar os benefícios, temos que elevar a produtividade, melhorar a educação e investir em tecnologia digital, entre outras coisas”, disse.

Canseco acredita que, quanto mais consolidados estiverem os benefícios à população e a infraestrutura econômica, “mais afastaremos aventuras totalitárias ou populistas”.  Para ele, são questões centrais, nesse processo, o fortalecimento da cultura do empreendedorismo e da democracia direta, estimulando a participação do eleitor, via ferramentas digitais, nas decisões políticas. “Quando mais participativa seja a população, mais segura estará a democracia”, afirmou.

Marcos Madureira, vice-presidente do Grupo Santander, falou sobre a situação brasileira, mostrando que nos últimos anos o País conseguiu reduzir a desigualdade e elevar a renda média, mas agora pode estar preso na chamada “armadilha da classe média”.

Segundo disse, foram poucos os países que viveram processo semelhante e conseguiram ultrapassar esse patamar, continuando a crescer. Produtividade e eficiência são, em sua opinião, duas palavras-chave dessa nova etapa da história brasileira. “A estratégia de estímulo ao consumo não serve mais para ajudar o País a crescer; em educação, por exemplo, é preciso aumentar a qualidade do ensino, mesmo que não seja possível elevar o investimento público nessa área. Nosso mais problema é gestão, não falta de recursos”, disse.

O deputado federal Eduardo Sciarra (PSD-PR), ex-líder da bancada na Câmara, lembrou que a realidade brasileira apresenta grandes dificuldades para escapar dessa armadilha. “Não se pode fazer política social a custa dos empreendedores, é preciso reduzir o ônus de quem produz e gera empregos”, disse. Em sua opinião, sem reformas nessa e em outras áreas, “não será possível resolver o problema de competitividade da economia para continuar alavancando a classe média”.

Encerramento

O seminário termina na manhã desta terça-feira (17), com dois eventos. Primeiro, a palestra “Visões da Economia Mundial: Perspectivas para a América Latina”, do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Depois, o painel “A Oportunidade dos Vínculos Atlânticos”, do qual participarão o ex-presidente do Uruguai Luis Alberto Lacalle; o ex-vice-ministro da Defesa da Colômbia Rafael Guarín; o ex-ministro da Agricultura de Portugal Jaime Silva; o embaixador e coordenador do Conselho Temático de Política Externa e Comércio Exterior do Espaço Democrático, José Botafogo Gonçalves; e o diretor de Assuntos Jurídicos da Fundação Miguel Estrada Iturbide, do México, Mario Fernandéz.

Às 12hs, haverá um “Diálogo de Encerramento” com o tema “Respostas modernas e democráticas às demandas sociais”, que reunirá o presidente nacional do PSD, ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, e o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar.