A história entre a rainha e o seu confidente indiano

29-11-2017

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Uma vez mais, num curto espaço de tempo, o cinema nos brinda com um filme baseado na história de uma destacada liderança britânica.

Em 2006, A Rainha focalizou a rainha Elizabeth II num dos momentos mais delicados de seu longo reinado, em decorrência da forma como se portou por ocasião da morte de Diana Spencer, a venerada Lady Di (que, por sinal, também teve mais de um filme a ela dedicado). A brilhante atuação de Helen Mirren no papel de Elizabeth II conferiu-lhe o Oscar de melhor atriz em 2007.

O Discurso do Rei foi o destaque de 2010, com base na história do rei George, que teve de superar sua pronunciada gagueira para fazer um discurso decisivo para as pretensões aliadas em 1939, na fase marcada por forte tensão do início da Segunda Guerra Mundial. No papel do protagonista, Colin Firth também foi laureado com o Oscar de melhor ator em 2011.

Mais uma inesquecível atuação de Meryl Streep em 2011 rendeu, no ano seguinte, mais um Oscar de melhor atriz à sua coleção pelo papel de Margaret Thatcher em A Dama de Ferro.

Em 2017, outros dois filmes baseados em grandes líderes britânicos foram lançados em produções muito bem recebidas pelo público.

Churchill, com Brian Cox no papel-título, focaliza um dos raros momentos de hesitação daquele que é considerado por muitos o maior estadista do século 20, quando, às vésperas da Operação Overlord, em que as tropas aliadas desembarcaram na Normandia para enfrentar o exército nazista, o primeiro-ministro Winston Churchill atuou nos bastidores com o objetivo de retardar a ação, por considerá-la excessivamente arriscada. Rubens Figueiredo, um dos mais consagrados cientistas políticos do Brasil, escreveu um excelente artigo-resenha a respeito para o site da Fundação Espaço Democrático.

Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha, em cartaz atualmente, tem a excepcional Judi Dench no papel principal, sendo esta a segunda vez em que ela interpreta a soberana britânica, uma vez que também a representou em Sua Majestade, Mrs. Brown, filme de 1997.

O longo reinado da rainha Vitória durou 64 anos, tendo início em 1837 e se estendendo até a sua morte, ocorrida em 22 de janeiro de 1901.

Foi durante o reinado de Vitória que o império britânico atingiu seu apogeu, dando ensejo à expressão “império em que o sol nunca se põe”, em razão da existência de colônias nos dois hemisférios, de tal forma que quando era noite num deles, era dia no outro.

Muito se discute a respeito dos fatores que contribuíram para esse extraordinário poderio britânico, havendo entre eles aspectos políticos, econômicos e culturais. No plano político, o aspecto considerado de grande relevância foi a Revolução Gloriosa, ocorrida em 1688, que permitiu um grau de participação política na Grã-Bretanha até então inédito. No plano econômico, a ascensão teve início ainda no final do século 16, quando foram editadas as Leis de Cercamentos (Enclosure Acts), que se constituiu numa verdadeira revolução agrícola, a partir da qual a Grã-Bretanha obteve considerável elevação da produtividade, fator essencial para a consolidação de sua hegemonia com o pioneirismo no processo de industrialização, naquela que é conhecida como a Revolução Industrial ou Primeira Revolução Tecnológica. No plano cultural, considera-se também a importância da valorização do trabalho, fator magistralmente descrito por Max Weber em A ética protestante e o espírito do capitalismo. Some-se a isso tudo o poderio da marinha britânica, e tem-se uma boa explicação da hegemonia britânica que se estende, grosso modo, até a Primeira Guerra Mundial.

O filme, porém, não se preocupa com tais aspectos, concentrando-se no invulgar relacionamento da rainha com Abdul Karim, um dos dois hindus recrutados para entregar a ela uma medalha vinda da Índia, considerada então a joia do império colonial.

O diretor, Stephen Frears, baseou-se no livro Victoria & Abdul: The True Story Of The Queen’s Closest Confidant, não traduzido para o português, da historiadora Shrabani Basu. Esta, por sua vez, baseou-se nos diários de Abdul Karim (que se salvaram da destruição promovida pelo filho, Alberto Eduardo, que a sucedeu como Eduardo VII) e das anotações e notas de aulas da própria rainha Vitória.

Frears optou claramente por uma narrativa leve, com algumas passagens até anedóticas, em vez de um tom excessivamente sério, sobretudo no comportamento da rainha, que é conhecida na história como um exemplo de rigidez. O que o diretor procura ressaltar – com êxito, em minha opinião – é que Vitória tinha admiração por homens que, de alguma forma, tivessem coragem de se contrapor às suas opiniões. Pelo menos, é isso que transparece na relação mais importante de sua vida, o príncipe Albert de Saxe-Coburg Gotha, seu primo mais novo, com quem se casou em 1840. Sua morte precoce, em 1861, com a idade de 42 anos, fez com que Vitória mergulhasse numa profunda depressão. Foi depois desse episódio que Vitória se apegou ao cavalariço escocês John Brown, recobrando o interesse pela vida, episódio focalizado no filme de 1997, Sua Majestade, Mrs. Brown.

A proximidade de Vitória com Abdul Karim, retratada no filme ora em cartaz, seguiria a mesma explicação. Neste caso, porém, a rainha permitiu um nível de influência muito mais forte a seu confidente, tornando-o seu Munshi, ou professor, que lhe dava aulas de urdu (na época chamado de hindustani), provocando, assim, a ira de seus familiares e dos membros da corte.

Este aspecto é, aliás, objeto de passagens marcantes do filme, reveladoras do forte caráter e espírito ferino da rainha. Num determinado momento, seu filho e futuro sucessor no trono lhe faz uma ameaça, dizendo: “Mãe, a senhora está conduzindo a monarquia a uma crise. Ou larga este camponês indiano ou será considerada oficialmente insana”.

A reação de Vitória, que se torna ainda mais inesquecível graças à interpretação de uma atriz do quilate de Judi Dench, é imediata: “Eu tenho 81 anos e sou a rainha de quase um bilhão de cidadãos. Estou há 62 anos no poder, o reinado mais longo da história. Sofro de obesidade mórbida, sou intratável, gananciosa, mal-humorada e detestavelmente fixada em poder… mas, estou longe de ser insana”.

A seguir, diante da ameaça de demissão de diversos integrantes da corte, ela exige a presença de todos numa determinada sala e desafia: “Soube que vários de vocês estão ameaçando se demitir por causa de Abdul, cuja competência e fidelidade fizeram com que chegasse ao que é hoje. Eu esperaria que tivessem a dignidade de dizer isso na minha frente, razão pela qual os convoquei a essa reunião. Quero avisar que ninguém sofrerá qualquer punição ou perseguição por essa decisão. Dito isso, pergunto: quem quer se demitir?”

Diante do silêncio generalizado, ela conclamou todos a voltarem ao trabalho, lembrando-lhes que a única acusação que ouvira a respeito de Abdul é que ele era bajulador e interesseiro. A esse respeito, perguntou: “E por acaso, vocês todos também não são?”

Ao final do filme, confesso que fiquei com uma pontinha de inveja ao constatar que várias lideranças britânicas, do presente e do passado, têm merecido memoráveis filmes em sua homenagem.