Churchill, um filme e o homem

14-11-2017

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático
Wiston Churchill é justificadamente considerado uma das maiores personalidades da história da humanidade. Sua força moral foi fundamental para encorajar a Inglaterra a continuar resistindo, na Segunda Guerra Mundial, quando o mundo corria o risco de vergar-se sob a força do ódio e da superioridade bélica dos nazistas. Foi ele quem primeiro compreendeu o risco real representado pelo processo de rearmamento alemão e deu o mais vigoroso alerta sobre o colossal perigo que Hitler representava. Como se não bastasse, era habilidoso como político (foi primeiro-ministro durante o período crítico daquela Guerra e ficou mais de meio século na Câmara dos Comuns). E, ainda, competentíssimo estrategista militar e ministro da Defesa. Para completar, teve a experiência de lutar nos campos de batalha na Primeira Guerra Mundial.

Churchill também ficou conhecido por sua genial faceta espirituosa, que lhe rendeu um conjunto de frases famosíssimas citadas até hoje. Suas tiradas eram geniais. Consta que, certa feita, a deputada Nancy Astor disse a ele: “Mr Churchill, se o senhor fosse meu marido, eu lhe daria veneno”. A resposta foi imediata: “E se eu fosse seu marido, eu tomaria”. São deles também duas frases que valem como lição de vida. Primeira: “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”. Segunda: “A sorte não existe. Aquilo que chamamos de sorte é o cuidado com os pormenores”. Suas ironias eram arrasadoras. Ao encaminhar uma votação no Parlamento, declarou: “O que espero, senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todos concordem comigo”. De outra feita, disse sobre um desafeto circunstancial: “Um taxi vazio parou em frente do Parlamento e dele desceu Mr. Attlee”.

No filme Churchill, de Jonathan Teplitzky, com Brian Cox no papel principal, Miranda Richardson (a esposa Clementine) e John Slattery (o sensacional intérprete do publicitário canastrão Roger Sterling, da premiada série Mad Men) como general Eisenhower, o que se vê é um Churchill angustiado, deprimido, hesitante e, incrível, extremamente mau humorado. Nada mais inapropriado para quem teve a missão de ajudar a comandar o Ocidente contra a maior máquina de guerra já vista na história humana. Nada mais distante da imagem de um herói forte, determinado e à altura dos desafios da sua época.

O filme mostra a vida de Churchill nos dias que antecederam a Operação Overload – o desembarque da Normandia, talvez a maior missão coordenada de Guerra da História, que pela sua importância é também chamada de “Dia D”. O grande líder inglês achava a operação extremamente arriscada e fez o que pode para adiar o projeto. Durante a noite, angustiava-se com a possibilidade de milhares de jovens morrerem na operação, como acontecera na Batalha de Galipoli, em 1915, por erros estratégicos e de “timing”. Chega a ficar deprimido, sem forças ao menos para se levantar da cama, naquele que foi um dos momentos mais importantes, senão o mais importante, da II Grande Guerra.

É verdade que nem só de grandes momentos vive um grande homem, mesmo que ele seja Winston Churchill. E ainda que em momentos históricos cruciais e circunstâncias heroicas, a vida no dia a dia segue. É interessante, no filme, acompanhar a atribulada vida conjugal do primeiro-ministro inglês, que vivia às turras com sua mulher, Clementine. Quando a esposa reclama de sua falta de atenção, Churchill responde: “Realmente tenho estado ocupado resolvendo uns probleminhas aí desta guerra”. Ela responde que o general Eisenhower, com toda turbulência e estando fora de seu país, encontra tempo para escrever cartas de amor à mulher que está do outro lado do Atlântico.

O recorte histórico do filme não favorece Churchill. Mostra uma passagem pouco conhecida da sua vida. O espectador sai com uma visão bem menos grandiosa do líder inglês do que sairia se assistisse Into the storm (Na tempestade), outro filme biográfico, estrelado por Blendan Gleeson.

Na sua monumental obra Memórias da Segunda Guerra (1), de 1193 páginas, ele não faz referências a seu desacordo em relação à Operação Overload. O capítulo referente ao Dia D é analisado juntamente com a queda de Roma e tem econômicas seis páginas.

Numa conhecida biografia de Churchill (2), Paul Johnson argumenta que o herói inglês teve a oportunidade de escrever a história da sua própria participação na II Guerra Guerra. Tratam-se de livros muito bem escritos (Churchill era excelente escritor) e fartamente documentados, redigidos por quem viveu os fatos. Como se não bastassem, os livros de Churchill sobre Churchill saíram sete anos depois do final da Guerra, muito à frente das biografias e estudos de seus contemporâneos. Difícil superá-lo.

O filme de Teplitzky mostra um Churchill menos herói, timoneiro hesitante e extremamente angustiado. Talvez aí resida sua grandeza, pois um mito é reduzido (ou elevado?) à sua condição de ser humano.

1- Churchill, Winston S.; Memórias da Segunda Guerra Mundial; Rio de Janeiro; Editora Nova Fronteira; 1995.

2- Johnson, Paul; Churchill; Rio de Janeiro; Editora Nova Fronteira; 2010.