Conquistadores: uma história fascinante

25-10-2017

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 
No Espaço Cultural da Marinha, no Rio de Janeiro, está ancorada uma réplica da Nau Capitânea (lá descrita como a Nau do Descobrimento) com a qual Pedro Álvares Cabral atravessou o Oceano Atlântico, veio dar no Brasil, em 1500, e daí viajou para as Índias. Por ocasião dos 500 anos do descobrimento, um grupo de empresários brasileiros resolveu construir uma cópia da embarcação, que apresentou problemas de falta de lastro, mau dimensionamento do mastro principal e falha no motor (que obviamente, na época do descobrimento, não existia). O barco, de 24 metros, que deveria fazer uma viagem festiva na efeméride – de Salvador a Cabrália –, mostrou-se um fiasco do ponto de vista de navegação e não apresentou condições de participar da festa. Isso 500 anos depois da viagem dos portugueses.

Quem olha aquela embarcação fundeada no Rio e se transporta 500 anos para o passado fica imaginando como era possível os marinheiros se lançarem ao mar, com equipamentos hoje considerados rudimentares, sem saber direito para onde estavam indo e confinados desconfortavelmente naquelas precárias embarcações durante meses a fio, às vezes anos. A eletrizante história da navegação dos portugueses durante o século XVI é contada de forma magistral no livro Conquistadores (Editora Crítica, 420 pgs.), de autoria do historiador de Cambridge, Roger Crowley. O texto é saboroso. Apesar da sua vasta cultura e profundo conhecimento sobre o assunto, Crowley não é um historiador hermético inoculado pelos vírus do academicismo pedante, mas quase um romancista, que capta o caráter épico dos acontecimentos mesclado com a dimensão humana dos protagonistas.

O expansionismo marítimo lusitano é impressionante pelo número de países conquistados, a inacreditável eficiência da armada, o monumental choque de culturas que protagonizou (os muçulmanos acreditavam que os portugueses bebiam sangue), a dimensão dos valores financeiros envolvidos, distâncias percorridas e a descomunal superioridade náutica portuguesa. Para se ter ideia da dimensão da empreitada, os portugueses rodearam o cabo das Tormentas (ou Boa Esperança) e alcançaram a Índia em 1498, descobriram o Brasil em 1500, criaram um Império na Índia nos primeiros anos do século XVI, chegaram à China em 1514 e ao Japão em 1543. Tudo isso sacolejando nas caravelas e outras embarcações, em precaríssimas condições de higiene, muitas vezes comendo apenas bolachas e sucumbindo ao escorbuto.

O subtítulo do livro – Como Portugal forjou o primeiro império global – está longe de ser exagerado. A aventura foi extraordinária. Quando se olha o mapa das travessias oceânicas é possível ter uma ideia da ousadia que beirava a irresponsabilidade dos navegadores. Cada saída de uma expedição de Portugal era marcada por cerimônias nas quais predominavam o choro e as lamúrias dos familiares daqueles que iam não se sabia bem para onde nem por quanto tempo. Normalmente, os homens voltavam, quando voltavam, anos depois.

Os portugueses tinham uma “ética da guerra” toda peculiar. Não bastava vencer as batalhas. A vitória deveria vir do embate corpo a corpo, onde os guerreiros demonstravam sua verdadeira valentia e honra. Com inquestionável superioridade de bombardeio, simplesmente abrir fogo contra as embarcações inimigas não bastava. Uma demonstração inequívoca de busca da vitória com honra foi a campanha em Chaul, na qual os muçulmanos foram encurralados pelos portugueses e eram alvos fáceis, em suas fustas, galeotas, galeões e carracas. Diz Crowley: “O fogo de canhões, a solução simples e mortal, representava quase uma covardia no código de honra dos fidalgos” (pg 227). Os portugueses decidiram pela abordagem, “de modo que pudessem ganhar a glória na ponta da espada” (pg 228). Neste caso específico, os portugueses não foram tão felizes. Esse estilo predominou durante boa parte das batalhas e Portugal, um país pequeno e com população pouco numerosa, conseguiu a façanha de dominar os principais entrepostos comerciais das Índias, as áreas mais cobiçadas do mundo à época.

Vale um comentário sobre o papel fundamental de Afonso de Albuquerque durante o período das conquistas. Albuquerque foi um guerreiro violentíssimo, quase medieval, implacável com seus inimigos, a quem muitas vezes ordenou aniquilar depois de vencidos. Mas também era moderno, à frente do seu tempo, no que tange à organização militar e noção de sociedade. Estrategista brilhante, invadia cidades com dezenas de milhares de habitantes liderando apenas algumas centenas de homens.

Albuquerque “alimentava a ideia de que o minúsculo Portugal poderia controlar o centro do mundo, que Manuel seria o maior dos reis cristãos, e ele indicou como deveria ser feito” (pg 359). O legado das conquistas não foi pequeno: marcaram o início de 500 anos de predomínio do Ocidente. E uma influência na cultura, arte, história, alimentação, costumes, línguas e tradição que dificilmente pode ser minimizada.