Conteúdo com elevada agregação de conhecimento

23-11-2017

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

“Montar uma organização criativa é difícil, mas mantê-la criativa é muito mais. Por quê? Porque todo paradigma muda, e só os melhores criadores podem mudar junto com as consequências de suas criações.” Kevin Ashton

Um dos mais relevantes conceitos ensinados nos cursos de Economia é o da Lei dos Rendimentos Decrescentes, assim definido pelo professor Paulo Sandroni no Dicionário de economia do século XXI:

Lei dos rendimentos decrescentes. Também conhecida por Lei das Proporções Variáveis ou Lei da Produtividade Marginal Decrescente. Pode ser conceituada da seguinte maneira: ampliando-se a quantidade de um fator variável, permanecendo fixa a quantidade dos demais fatores, a produção, de início, aumentará a taxas crescentes; a seguir, após certa quantidade utilizada do fator variável, passará a aumentar a taxas decrescentes; continuando o aumento da utilização do fator variável, a produção decrescerá. Um exemplo clássico é o do aumento do número de trabalhadores em certa extensão de terra a ser cultivada. Numa primeira fase, a produção aumenta, mas logo se chega a um estado de nenhum crescimento na produção, devido ao excesso de trabalhadores em relação à extensão de terra (que não aumentou).

Considero-o de fundamental importância, entre outras razões, pelo fato de que podemos observar a presença do fenômeno expresso por essa lei no nosso dia-a-dia, quer em aspectos econômicos, quer em não econômicos.

Vou citar um exemplo diferente do contido no verbete do Dicionário, também citado frequentemente. Vou também adaptá-lo aos dias correntes, nos quais parcela substancial da população destina parte de seu tempo à prática de atividades esportivas como forma de cuidar da saúde. Imaginem um(a) atleta que acaba de concluir uma maratona. Muito provavelmente, estará morrendo de sede. O primeiro copo de água tem, para esse(a) atleta, um valor extraordinário. Será, porém, insuficiente para saciar completamente a sua sede, de tal forma que ele(a) recorrerá a outros copos d’água. O segundo ainda será muito apreciado, ainda que, talvez, não tanto quanto o primeiro. O terceiro, da mesma forma em relação ao segundo. E assim por diante. A partir de um determinado momento, já com a sede saciada, o(a) atleta não deseja mais um copo adicional de água, uma vez que o mesmo não agregaria qualquer valor à sua necessidade.

Costumamos utilizar a expressão agregação de valor para se referir ao diferencial ou delta representado por uma unidade adicional de um determinado fator de produção, bem ou serviço para a satisfação de uma necessidade qualquer. Esse diferencial, ou delta, tende a ser decrescente à medida que novas unidades vão sendo consumidas. No limite, existe a possibilidade de rendimento negativo, quando a utilidade de uma unidade adicional de um determinado fator de produção tiver um custo unitário superior ao retorno proporcionado por sua utilização.
Como já mencionei, tal fenômeno pode ser encontrado em diferentes atividades da nossa vida cotidiana.

Fanático por leitura, tenho por hábito dedicar parte considerável do meu tempo a essa atividade. Costumo mesclar livros relacionados com minhas atividades profissionais – economia, criatividade, história e educação – com outros mais diretamente ligados a lazer e entretenimento – romance, ficção, poesia, biografias etc.

Especificamente no que se refere às leituras relacionadas às atividades profissionais, ocorre, inevitavelmente, alguma redução do volume de agregação de valor a cada novo livro acerca de um determinado tema. Confesso até que, não raras vezes, fico em dúvida sobre a real agregação de valor ao acabar a leitura de certos livros.

Com o tema da criatividade, isso ocorre com mais frequência. Sendo um tema que só passou a receber uma atenção sistemática após a Segunda Grande Guerra, quando o volume de recursos destinados à pesquisa na área cresceu em escala geométrica, o número de livros e papers publicados sobre o tema é muito elevado. No Brasil, com um gap de alguns anos, ocorreu o mesmo, sendo que além dos clássicos que foram traduzidos, há uma quantidade razoável de autores nacionais que se debruçaram sobre o tema e também contribuíram com novos títulos.

Por dever de ofício, procuro acompanhar essa produção literária, lendo os novos livros a respeito de criatividade – e também de economia criativa – à medida que vou tomando conhecimento de seus lançamentos.

É exatamente nesse afã de querer sempre me atualizar que às vezes me decepciono e constato, ao final da leitura de certos livros, que o delta de agregação de conhecimento foi nulo ou quase nulo, porque o conteúdo do mesmo não é mais do que uma compilação de contribuições anteriores, não havendo qualquer novidade em ralação ao conhecimento previamente acumulado. Nesses casos, a percepção da Lei dos Rendimentos Decrescentes é muito acentuada. No limite, reconheço que em algumas oportunidades o custo de aquisição do livro foi maior do que o retorno por ele proporcionado.

Kevin Ashton

Definitivamente, essa não foi a sensação deixada pela leitura de A história secreta da criatividade, de autoria de Kevin Ashton, pesquisador britânico do Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde é cofundador do Auto ID-Center e criador de três startups de sucesso. Entre os inúmeros aspectos que a leitura do livro de Ashton representou efetiva agregação de valor ao meu conhecimento, gostaria de mencionar quatro.

O primeiro reforça uma das minhas primeiras descobertas ao iniciar os estudos sobre criatividade. Ao contrário do que muita gente pensa, todos são criativos. Em outras palavras, a criatividade não consiste em magia, mistério ou truque que apenas uma minoria detém. Os responsáveis pela esmagadora maioria das criações são pessoas comuns. Como afirma Ashton, “A criação vem de atos comuns. […] Quando olhamos por trás da cortina da criação, encontramos gente com a gente fazendo coisas que podemos fazer”.

Portanto, qualquer pessoa possui um potencial criativo a ser desenvolvido. Porém, o desenvolvimento desse potencial não é um dom que se expressa natural e generalizadamente. E nisso reside o segundo aspecto que desejo enfatizar. Para que esse potencial se desenvolva é necessário esforço, dedicação e muito trabalho. Na sequência da citação já mencionada, prossegue Ashton:

Isso não torna fácil criar. A magia é instantânea, o gênio é um acidente do nascimento. Tire-os e o que sobra é o trabalho. O trabalho é a alma da criação. Trabalho é acordar cedo e voltar para casa tarde, recusar encontros de namoro e abrir mão dos fins de semana, escrever e reescrever, rever e corrigir, repetir e praticar, encarar a dúvida da página em branco, começar quando não sabemos onde é o ponto de partida e não parar quando achamos que não podemos continuar. Não é divertido, romântico nem, na maior parte do tempo, interessante. Se quisermos criar, devemos, nas palavras de Paul Gallico, abrir as veias e sangrar.

O terceiro aspecto em que percebi enorme agregação de conhecimento foi no questionamento de algumas “verdades” reproduzidas por diversos autores, muitos deles consagrados, acerca de determinados mitos. Nesse particular, destaco os questionamentos feitos por Ashton a respeito dos processos criativos quanto (i) à relevância dos insights, ahas ou momentos eureca; (ii) à real importância da incubação; e (iii) à supremacia do trabalho em equipe ao trabalho individual.

Como todo bom pesquisador, Ashton recorre a profundas investigações e é pródigo em bons exemplos para mostrar que na história da criatividade as grandes sacadas, chamadas de insight, aha ou eureca são raríssimas.

Da mesma forma, o surgimento de momentos de luz em meio a fases casuais de incubação é posta em xeque: “Hoje, a maioria dos pesquisadores considera a incubação uma psicologia folclórica – uma crença popular, porém errônea. Quase todas as evidências sugerem a mesma coisa: as lagartas não fazem casulos na mente inconsciente. As borboletas da criação vêm do pensamento consciente”.

Adicionalmente, o autor revela que os grandes criadores conseguiram suas maiores conquistas quando trabalhavam individualmente, embora, nesse trabalho, tenham se utilizado de contribuições prévias de inúmeras pessoas, sendo praticamente impossível enumerá-las em razão do altíssimo grau de continuidade que se observa na evolução do conhecimento humano.
O quarto e último aspecto que faço questão de mencionar neste artigo refere-se à necessidade de perseverança e até de resiliência por parte dos criadores, dada a forte tendência de rejeição que o ser humano tem diante de coisas desconhecidas. Embora este aspecto seja mencionado por diversos outros autores, a forma como Ashton a expõe merece ser parcialmente reproduzida.

Somos criados para rejeitar coisas novas, ou pelo menos para suspeitar delas. Quando estamos diante de situações familiares, células no nosso cérebro, no hipocampo, disparam centenas de vezes mais rápido do que quando nos encontramos perante situações novas. O hipocampo é conectado a duas minúsculas bolas de neurônios chamadas amígdalas, que impulsionam nossas emoções. A conexão entre o hipocampo e as amígdalas é um dos motivos para que o antigo pareça bom e o novo talvez não.

Nós reagimos como nosso cérebro. Oscilamos entre o que parece ruim e o que parece melhor. Se algo é novo, nosso hipocampo encontra poucas lembranças que combinem com aquilo. Sinaliza ausência de familiaridade para as amígdalas, o que nos dá um sentimento de incerteza. A incerteza é um estado adverso: tendemos a evitá-la. Os psicólogos conseguem mostrar isso em experiências. Os sentimentos de incerteza nos levam a preferir a familiaridade e nos impedem de reconhecer as ideias criativas. Isso acontece mesmo quando avaliamos a criação ou achamos que somos bons em criar.

Dois comentários pessoais a respeito dessa reprodução. A primeira diz respeito à força dos paradigmas, no sentido atribuído à expressão por Thomas Kuhn em A estrutura das revoluções científicas, aliás mencionada por Ashton num dos capítulos do livro. A segunda sobre a atividade que ocorre dentro do nosso cérebro diante das situações novas ou desconhecidas, que foi magistralmente descrita por Henrique Szklo, em Você é criativo, sim senhor!, como a luta entre o “Pedrão”, defensor da zona de conforto e que vence na esmagadora maioria das vezes e o “MacGyver”, verdadeiro santo em defesa da criatividade e da inovação.

Evidentemente, o livro de Ashton contém uma série de outros aspectos que representaram expressiva agregação de valor aos meus conhecimentos previamente adquiridos sobre criatividade. Creio, no entanto, que para um artigo dessa natureza, já narrei o suficiente para deixar o leitor com água na boca para conhecer o conteúdo integral.

Referências e indicações bibliográficas

AMABILE, Teresa M. Growing up creative. Buffalo, NY: C.E.F. Press, 1989.

ASHTON, Kevin. A história secreta da criatividade. Tradução de Alves Calado. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 5ª edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 1982.

OSBORN, Alex F. O poder criador da mente – Princípios e processos do pensamento criador e do “brainstorming”. São Paulo: IBRASA, 1972.

SANDRONI, Paulo. Dicionário de economia do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2005.

SZKLO, Henrique. Você é criativo, sim senhor! São Paulo: Editora Jabuticaba, 2013.

TORRANCE, Paul. Creativity – just wanting to know. Pretoria, South Africa: Benedic Books, 1995.