Mais do mesmo, em defesa da dependência

27-10-2017

 

 

 

 

 

Helio Michelini Pellaes Netoadvogado, professor de Relações Internacionais da FAAP e colaborador da Fundação Espaço Democrático.

 

Vale, de antemão, contextualizar a obra ora resenhada. A primeira edição do livro Quinhentos anos de periferia, de Samuel Pinheiro Guimarães, data de 1999 e reporta, assim, aos efervescentes debates em torno ao projeto de constituição de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), cuja proposta tinha sido assinada cinco anos antes, pelo então presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, em Miami.

De salientar que, por seus contornos originais, que apostavam na livre circulação de bens, serviços e capitais – sem que a livre circulação de pessoas estivesse igualmente pautada –, a proposta encontrou forte rejeição em uma América Latina resignada à precária competitividade de sua indústria e a uma mão de obra pouco qualificada.

Neste sentido, Pinheiro Guimarães dedica amplo esforço a demonstrar ganhos e perdas do projeto, leia-se, ganhos exclusivos dos Estados Unidos frente a inúmeras perdas para os demais países do continente, ditos pelo autor “periféricos”.

Superado, portanto, o entrave referente à ALCA, o valor da leitura em tela repousa, quando muito, no prisma histórico, trazendo reflexão passível de enquadramento no dito popular “mais do mesmo”, ao endossar uma antiga lição cepalina, instituição que há muito já nos remetia à substituição das importações e à integração regional, no caso, entre pares.

Nesta esteira, cabe frisar o estado dormente em que o Brasil se encontra. Vimos, nos últimos 14 anos, o Mercosul adotar passo letárgico face o entusiasmo, quase infantil, pelo eventual avanço das negociações da Rodada Doha, estabelecida no âmbito da OMC. Paralelamente, o projeto UNASUL, conquanto evolução da estratégia IIRSA lançada a debate com o pragmático fim de aproximar a matriz energética no Cone Sul e facilitar uma via de escoamento de produtos brasileiros ao pacífico, assume, no brado inconsequente do então presidente venezuelano já falecido Hugo Chávez, ampla dose de resistência ideológica obsoleta e inoportuna. Finalmente, o intercâmbio entre Brasil e Ásia, seja com a China, segunda maior economia mundial, seja com o Japão, país que ocupa a terceira posição neste ranking, senão negligenciado, resta em larga medida ainda precário e subaproveitado.

Por consequência, entendemos que uma abordagem coerente das perspectivas que atualmente se apresentam à ampliação da participação do Brasil no comércio internacional deve iluminar, outrossim, certas lições que emanam de países como o Chile e o Peru, voltados para ambiciosos planos de aproximação ao continente asiático, bem como de um México ponderado e responsável face à irracionalidade dos discursos que o vizinho gigante lhe direciona.

Finalmente, o escrito de Pinheiro Guimarães carece de fôlego ao recomendar, com relativa timidez, medidas de fomento à tecnologia e inovação nos países em desenvolvimento, tema que nos parece sumamente saudável para reverter um panorama de trocas internacionais desfavoráveis, mas que encontra obstáculo em sucessivos governos populistas que mais bem buscam retroalimentar-se das mazelas de uma população ávida por políticas paliativas, capazes apenas de salvar vidas e perpetuar quadros no comando da nação.