No cinema, a relação de amor e ódio entre EUA e Europa

21-09-2017

Emmanuel Macron, presidente da França, e Donald Trump, presidente dos EUA: relação tumultuada entre norte-americanos e europeus é um fenômeno social e cultural interessantíssimo

 

A recente abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas revelou mais um episódio da centenária mistura de amor e ódio que une e separa os Estados Unidos e a Europa. Um dia após o contundente discurso do presidente Donald Trump, que ameaçou destruir a Coreia do Norte, atacou o acordo nuclear com o Irã e criticou até a ONU, o presidente francês Emmanuel Macron subiu à tribuna para contestar o norte-americano e vestir a roupagem de político anti-Trump.

Muitos filmes revelam, há décadas, essa relação tumultuada entre norte-americanos e europeus, um fenômeno social e cultural interessantíssimo. Fascinado pelo tema, o jornalista Sérgio Vaz, autor e editor do site 50 Anos de Filmes, diz que essa mistura já estava presente na época da própria fundação da nação americana:

“Os founding fathersThomas Jefferson, George Washington, Benjamin Franklin – foram influenciados de maneira decisiva pelo pensamento do inglês Thomas Hobbes e do francês Jean-Jacques Rousseau sobre os direitos naturais dos indivíduos. Essas noções inspiraram a Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, que por sua vez influenciou de volta os franceses na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, na Revolução Francesa, em 1789”.

Em longo texto sobre o assunto, Sérgio Vaz relaciona um punhado de filmes que contêm referências a essa troca de influências e ações entre norte-americanos e europeus. Ele lembra:

– Diz a declaração americana: “Todos os homens são criados iguais, sendo-lhes conferidos pelo seu Criador certos direitos inalienáveis, entre os quais se contam a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. Diz a declaração francesa: “Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundar-se na utilidade comum.” Franceses apoiaram os americanos na luta contra os ingleses pela independência da então colônia, e americanos apoiaram os revolucionários franceses que derrubaram a monarquia.

Seguem alguns trechos do texto de Sérgio Vaz:

“O filme americano mais cult entre todos os cults é um filme sobre americanos e franceses, em uma época em que um precisava demais do outro: Casablanca, no Marrocos, todos se lembram, estava sob o jugo do governo de Vichy, do Marechal Pétain, marionete dos nazistas na França ocupada e colônias da França ocupada. Uma das seqüências mais emocionantes do filme americano é aquela em que, no Café Americain do expatriado Rick (Humphrey Bogart), todos se põem a cantar “Allons enfants de la patrie, le jour de gloire est arrivé”, a canção raivosa que os franceses cantaram na Revolução Francesa.

 

Cena de “Jefferson in Paris”

“Essas influências cruzadas são mostradas em Jefferson in Paris, o filme de James Ivory, o mais inglês dos diretores americanos, em que Thomas Jefferson – tido como o autor do texto da Declaração de Independência e interpretado no filme por Nick Nolte – é o embaixador americano na corte de Luís XVI, pouco antes da Revolução Francesa. Em Casanova e a Revolução, o italiano Ettore Scola mostra Thomas Paine (interpretado por Harvey Keitel), um dos líderes da luta pela independência americana, passeando pela França logo após a derrubada de Luís XVI, onde ajudou a disseminar os ideais revolucionários.

Nick Nolte em “Casanova e a Revolução”

“Alguns anos depois da Revolução Francesa, no entanto, França e Estados Unidos tiveram um período de quase guerra aberta nos mares, como diz um professor da Université de Haute-Bretagne – Rennes II, Gildas Le Vogueur: ‘De 1797 a 1800, não menos que 830 navios americanos foram vítimas da marinha de guerra francesa ou de piratas a soldo da França’. Esse professor citou, em longo ensaio sobre os desentendimentos entre os Estados Unidos de George W. Bush e a Europa sobre a questão iraquiana, logo após o 11 de setembro de 2001, um trecho de uma entrevista do então presidente Jacques Chirac à revista Time. Vale a pena reproduzir o que dizia Chirac:

“Elas (as relações franco-americanas) foram, são e serão sempre conflituosas e excelentes. É da natureza das coisas. Você não pode mudar uma cultura. Aconteça o que acontecer com a cultura francesa, a América terá sempre um lugar à parte. Da mesma forma, existe nos Estados Unidos uma certa ideia da França. Nós nos lembraremos sempre que os boys vieram nos salvar duas vezes. Como os americanos se lembram de que os franceses os ajudaram a conquistar sua independência. Isso cria uma ligação. Os Estados Unidos acham a França insuportavelmente pretensiosa. E nós achamos os Estados Unidos insuportavelmente hegemônicos. Haverá sempre brasas, mas fogo, não. Isso não vai mudar. O dia em que um precisar do outro, o outro estará lá.”

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