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Raízes da aventura brasileira

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PARA PENSAR

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

“Todos queriam extrair do solo excessivos benefícios sem grandes sacrifícios”.
Sérgio Buarque de Holanda

 

 

Raízes do Brasil¹ pode ser classificado como um ensaio fascinante e ricamente imaginativo sobre a saga do povo brasileiro. Embora se valesse predominantemente da tradição culturalista alemã (com o uso generoso do conceito dos “tipos ideais” weberianos), uma das influências intelectuais marcantes no início do século XX, Sérgio Buarque de Holanda faz uma instigante análise onde se mesclam o contraste especulativo legitimado pela busca de regularidades sociológicas embasadas em sutis observações comprovadoras. Não por acaso, Antonio Cândido foi capaz de cunhar aquela que se tornou talvez a mais conhecida expressão jamais escrita por um prefaciador brasileiro: trata-se de um livro “que se tornou clássico de nascença”.

A marca da genialidade aparece logo nas primeiras páginas da obra. Aliás, é acentuada a qualidade literária do texto – não fosse um historiador-sociólogo, o autor também teria sucesso garantido como romancista. Ao analisar a diferença entre o conquistador trabalhador e o aventureiro, o autor apressa-se em afirmar que a exploração dos trópicos não aconteceu “por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se, antes, com desleixo e certo abandono” (pag. 12). Uma construção pela via do desleixo e do abandono: eis uma imagem que pode empolgar até um marxista de extração hegeliana…

Já a conquista marcada pelo trabalho impõe planejamento, perseverança, luta, resignação. O trabalhador não busca grandes recompensas em função da ousadia ou do risco desmedido, mas o lucro justo de uma empreitada adrede estruturada. Antes que um leitor mais apressado pense em desancar os portugueses, Buarque de Holanda dá o devido crédito aos nossos descobridores: “na obra da conquista e da colonização dos novos mundos, coube ao ‘trabalhador’, no sentido aqui compreendido, papel muito limitado, quase nulo. A época predispunha aos gestos e façanhas audaciosos, galardoando bem os homens de grandes feitos” (pag. 14).

A aventura não se limita a atravessar o oceano desconhecido sem saber onde os navios iriam dar. Ela se projeta nas relações sociais da terra conquistada. O aventureiro, já estabelecido, busca o sucesso sem o desconforto laboral: é mais importante (e mais fácil) ser amigo do rei do que dono e ter que cuidar da lavoura. Para Buarque de Holanda, essa característica marcante dos nossos conquistadores é responsável por boa parte de nossas fraquezas. Seria nosso “capitalismo de laços” uma demonstração inequívoca dessa, digamos, marca genética?

Uma das características das obras clássicas é a capacidade de provocar reflexões sobre as sociedades contemporâneas. Neste sentido, Sérgio Buarque Holanda passaria despercebido se fosse apresentado como um cronista do Brasil de hoje. Escreve o autor: “o peculiar da vida brasileira parece ter sido… uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras” (pag. 31). Daí nasce toda nossa sanha compulsiva pela transgressão e ojeriza por filas ou regras de trânsito.

Vale comentar mais um aspecto do livro, que busca, com sua riqueza analítica e profusão de “insights”, aquilo que poderíamos chamar de a origem da origem. Ao comparar o estilo espanhol ao português de colonizar, o autor chama a atenção para a “fúria centralizadora, codificadora e unificadora de Castela” e seu gosto pelos regulamentos meticulosos. Por quê? O povo espanhol forjou-se na ameaça constante de desunião (que existe até hoje). E, para permanecer unido, teve que se organizar, disciplinar, regulamentar.

Já os portugueses conseguiram sua unidade política já no século XIII, antes de qualquer outro Estado europeu moderno. Daí o “desleixo”, a aceitação fácil – quando não o estímulo – a algum grau de “bagunça produtiva”, o gosto pela aventura e a busca da recompensa fruto do risco.

Mas a contribuição definitiva de Raízes do Brasil foi o conceito do “homem cordial” e suas implicações. A ideia é multifacetada – e talvez seja interessante chamar a atenção para um de seus aspectos mais subliminares. O brasileiro afável, hospitaleiro e generoso assim não o é por ser portador de “boas maneiras” estabelecidas através de um regramento social que circunscreva suas emoções. Nessa definição, diz o autor, existe algo que se aproxima de civilidade. E civilidade, como demonstra Freud no trabalho Civilização e seus descontentamentos², é, fundamentalmente, coerção. E o brasileiro “cordial”, profundamente emotivo, abomina a coerção. É civilizado mais porque “gosta” do que porque a sociedade estabelece que “precisa” ser. Por essas e por muitas outras é que Raízes do Brasil, além de “um clássico de nascença”, se torna cada vez mais atual.

 

1- Holanda, Sérgio Buarque de; Raízes do Brasil; Rio de Janeiro; Livraria José Olympio Editora; 1981; 14 ed.

2- Freud, Sigmund; A civilização e seus descontentamentos; Lisboa, Portugal; Mem Martins; 2005.

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