A política suja em ‘Get me Roger Stone’

02-10-2017

O filme faz um mergulho nos bastidores – ás vezes sórdidos – de campanhas eleitorais norte-americanas

 

O documentário “Get me Roger Stone” (EUA, 2017), produzido pela Netflix e dirigido pelo trio Dylan Bank, Daniel Di Mauro e Morgan Pehme, tem provocado muita polêmica desde seu lançamento em maio deste ano. Através do perfil de um famoso e polêmico lobista e marqueteiro republicano, o filme faz um mergulho nos bastidores – ás vezes sórdidos – de campanhas eleitorais norte-americanas, especialmente a eleição de Donald Trump.

Roger Stone é apresentado – e se confessa – como um manipulador do que há de pior no eleitor para levar seu cliente ao poder. Mas há críticos que atacam o documentário por apresentar o marqueteiro como um dos principais responsáveis pela eleição de Trump, embora ele tenha sido demitido pelo presidente ainda no início da campanha. Esses críticos acusam os diretores de tentar vender a tese de que a eleição de Trump se deve apenas a uma conspiração, ignorando a esmagadora vitória que os republicanos obtiveram na maioria dos Estados para os governos e os parlamentos locais.

Seja como for, é muito interessante conhecer esse estranho personagem. O cientista político Rubens Figueiredo, colaborador do Espaço Democrático, assistiu ao documentário. Veja seu comentário:

O marqueteiro do mal

Rubens Figueiredo

 

“Roger Stone é o que os americanos convencionaram chamar de “dirty trickster”, que poderíamos traduzir livremente como uma espécie de marqueteiro do mal. Ele fica feliz ao comentar no documentário Get me Roger Stone, disponível na Netflix, sua primeira traquinagem política. Pouco antes das eleições presidenciais de 1960, a escola onde ele estudava fez uma votação fictícia. Na época, Stone queria que a simulação fosse vencida por Richard Nixon. No intervalo, espalhou aos colegas uma mentira: caso Kennedy fosse eleito presidente, as crianças teriam que ir à escola aos sábados. Nixon ganhou disparado.

No documentário, fica absolutamente claro que Stone se orgulha de sua falta de escrúpulos. Não dá a mínima para a ética, “essa besteira”. Para levar o eleitor a ter ódio do seu adversário, vale distorcer, manipular, disseminar mentiras e ser desleal ao extremo. São de sua lavra as ideias de que Obama era muçulmano e também que não teria nascido nos Estados Unidos. Na eleição de Trump, fez de tudo para desmoronar a imagem de Hillary Clinton, começando pela agitada vida sexual de seu marido.

No final do documentário, você desenvolve quase um nojo pelas eleições, uma rejeição a tudo que possa ser associado à campanha. Stone dá de ombros sobre aquilo que as pessoas acham dele. O que interessa é o efeito da mentira. Uma das suas máximas é a seguinte: “É melhor ser infame do que nunca ser famoso”. Na época das incontroláveis redes sociais, uma mentira genial forjada a poucos dias da eleição pode mudar o destino de um país. Como é ser odiado? Stone responde: “Eu me deleito com seu ódio. Se eu não fosse eficaz, você não me odiaria”. Não deixa de ser interessante que esse cidadão tenha dado conselhos a Nixon, Reagan e Trump. Isso pode explicar muita coisa”.