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Jovens se interessam por política, mas ficam longe das urnas

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Os jovens foram os protagonistas das manifestações de junho de 2013, quando milhões de pessoas saíram às ruas de todo o País para cobrar mudanças na política brasileira. Totalmente integrados à tecnologia digital desde a infância, eles utilizaram as redes sociais para discutir política, se organizar e tomar as ruas reivindicando melhorias. O interesse do jovem por política também foi confirmado por pesquisas como a do Datafolha, divulgada em agosto de 2014, que apontou que 76% dos eleitores entre 16 e 24 anos disseram ter algum interesse pelas eleições, sendo que 30% afirmaram que têm um grande interesse.

Também de 2014, uma enquete do instituto Data Popular apontou que 70% dos jovens acreditam que o voto pode transformar o País, mas 59% opinaram que o Brasil estaria melhor se não houvesse partidos políticos. Essa descrença em relação aos partidos políticos também se reflete no pequeno percentual de jovens que se candidataram nas últimas eleições: somente 6,39% dos candidatos tinham menos de 29 anos.

Se adotado o critério do IBGE, que considera jovens as pessoas até 24 anos, o número cai para 2,7%, ou seja, 542 candidatos num universo de 26 mil concorrentes. Número pouco expressivo para representar um contingente de quase 17 milhões de eleitores na faixa etária entre 16 e 24 anos.

Uma das justificativas para essa baixa participação nas eleições de 2014, explica o cientista político Rogério Schmitt, é a barreira de idade, que exige 21 anos ou mais para concorrer como deputado federal, estadual ou distrital. Nas eleições municipais de 2012, somente 3,9% dos mais de 420 mil dos candidatos a vereador tinham menos de 24 anos.

Apesar de, por lei, todo partido ser obrigado a manter um núcleo jovem, na prática, segundo Schmitt, fatores como baixa escolaridade, concorrência com outros temas e a lentidão na renovação dos partidos influenciam nesse baixo número de candidaturas jovens. ”Geralmente, quanto maior o grau de estudo maior o interesse por questões políticas. Os maus resultados nos exames nacionais refletem nossa deficiência na educação, que acaba influenciando nisso. Também vale ressaltar que, assim como outros setores da sociedade, os partidos são controlados por pessoas mais velhas, com um processo lento de renovação nas direções”, diz.

Para Caíque Rossi, 30, vereador do PSD que está em seu segundo mandato em Penápolis, no interior de São Paulo, é preciso haver mais espaço para os jovens nos partidos. “Geralmente os políticos mais velhos têm uma postura que limita o espaço para os mais jovens mostrarem seu potencial. Os jovens são vistos sempre como o futuro, não como o presente. Os partidos acabam perdendo a chance de juntar juventude e experiência em seus quadros partidários”, lamenta.

Eleito o mais jovem vereador de Penápolis aos 23 anos, em 2008, Caíque se reelegeu como o mais votado da história da cidade em 2012 e também se tornou o mais jovem presidente da Câmara de Penápolis. Como vereador, atuou em defesa da mudança na lei orgânica do município, que garante uma destinação mais eficiente do dinheiro público; pela implantação de uma academia adaptada para deficientes; por dentistas atendendo nos postos de saúde; por ar-condicionado nas unidades do SUS; pela exigência de ficha limpa para cargos comissionados, e pelo financiamento público de exames como tomografia e ressonância a quem não tem condição de pagar, entre outros projetos.

Exemplo de jovem que conseguiu se destacar na política, ele considera que atualmente a internet pode ajudar despertar o interesse dos jovens para as questões políticas. “Numa linguagem mais descontraída, sem a rigidez tradicional, é possível inserir os jovens na política. A juventude não é impedimento para quem tem postura e determinação para ajudar a elaborar soluções que contribuam com a sociedade”, declara Caíque.

Poder de voto do jovem vem diminuindo

Ainda que os jovens, principalmente através das redes sociais, tenham mostrado interesse pela política, outro dado importante a ser considerado, levantado em artigo por Rogério Schmitt, mostra que o poder de voto do jovem diminuiu, resultado da evolução demográfica brasileira, que mostra uma tendência clara de envelhecimento da população. Historicamente, os jovens entre 15 e 24 anos representavam cerca de 20% da população brasileira. No Censo de 2010, essa proporção já caiu para menos de 18%. Com isso, o jovem (15 a 24 anos) vem tendo um peso decrescente no eleitorado como um todo.

A partir das eleições de 2006, o peso do voto jovem vem caindo continuamente, sem interrupções. No ciclo eleitoral do ano passado, apenas 16,7% dos eleitores aptos a votar estavam na faixa etária dos 15 aos 24 anos. O peso do voto jovem nunca foi tão baixo como é atualmente. No Brasil há hoje mais eleitores com idade acima de 60 anos do que eleitores jovens. E não parece que esta tendência vá se reverter no futuro.

Contudo, com quase 90 milhões de pessoas abaixo de 25 anos, os jovens ainda representam uma parcela significativa da população. Resta saber se essa juventude interessada em política, como indicam as pesquisas, também está interessada em fazer política como protagonista, se candidatando a cargos eletivos. “Ainda é cedo para fazer qualquer prognóstico se essa atuante juventude que discute política nas redes sociais e foi as ruas irá gerar mais candidaturas de jovens. Talvez abra um potencial no médio e longo prazo. As eleições municipais, que tradicionalmente geram maior interesse por serem locais, podem ser um bom termômetro para avaliarmos isso”, conclui Rogério.

(Tiago Araújo)

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