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Maior seca da história gera tensões

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Índia

A decrépita rede de fornecimento de água de Shimla, construída na época do governo colonial britânico há mais de 70 anos, depende de funcionários públicos

 

Por Maria Abi-Habib e Hari Kumar, do The New York Times

 

SHIMLA, ÍNDIA – Em Shimla, as pessoas não concordam a respeito de muitas coisas ultimamente. Uma seca em um resort do Himalaya fez com que os moradores acusassem os agricultores, a indústria do turismo e se culpassem reciprocamente por esvaziarem as escassas reservas de água. E todo mundo está revoltado com os homens das chaves.

A decrépita rede de fornecimento de água de Shimla, construída na época do governo colonial britânico há mais de 70 anos, depende de funcionários públicos conhecidos como os homens da chave, para abrir e fechar as válvulas que abastecem cada bairro. A escassez atual, que em maio deixou algumas casas sem água por 20 dias, provocou grande fúria contra os homens da chave – acusados, em quase todos os bairros, de privá-los da parcela que lhes cabe de direito – a ponto de um tribunal ordenar escolta da polícia para eles.

“Ficava muito nervoso com telefonemas em que me chamavam de todos os nomes – idiota, sem vergonha – à 1 ou às 2 da manhã”, contou Inder Singh, 44, que há 24 anos é um dos homens da chave. “Era cercado por dezenas de pessoas quando tentava ir ao trabalho”, ele disse enquanto introduzia a chave – um objeto de um metro de comprimento – no chão, para abrir uma válvula.

O turismo é a principal atividade econômica desta cidade nas montanhas, que as autoridades coloniais britânicas tornaram sua capital de verão para escapar do calor brutal de Nova Délhi. A população de Shimla dobra no verão. Mas a seca – acompanhada por temperaturas inusitadamente elevadas, acima dos 32º C – tem sido tão forte que em maio, alguns moradores escreveram no Twitter pedindo aos turistas que ficassem onde estavam e deixassem a água para as pessoas do lugar.

Trinta por cento das reservas de hotel da cidade foram canceladas desde o mês passado por causa da preocupação com a água, disse Sanjay Sood, o presidente da associação de hotéis e restaurantes do norte da Índia. Algumas destas reservas foram canceladas pelos turistas, outras pelos próprios hotéis.

Um recente relatório do governo disse que a Índia experimenta a pior crise de água de sua história, ameaçando milhões de vidas e seus meios de subsistência. Cerca de 600 milhões de indianos, aproximadamente a metade da população, enfrentam uma escassez de água de alta para extrema, e cerca de 200 mil morrem a cada ano pela falta de acesso à água potável.

“Há um alerta global em toda a Índia, e Shimla não é nenhuma exceção”, disse Vineet Chawdhry, secretário do estado de Himachal Pradesh, cuja capital é Shimla.

Mas além disso, o antigo sistema de fornecimento de água perde cinco milhões de litros diários de água por causa dos vazamentos, acrescentou Chawdhry. Uma reforma de US$ 105 milhões do sistema está prevista para ser concluída em 2023.

Muitas cidades do país têm redes de distribuição de água ultrapassadas, afirmou Rajendra Singh, o fundador de um grupo que trabalha pela conservação. A Índia também não dispõe de medidas  destinadas à conservação, como a coleta da água da chuva ou da água do degelo, ele disse.

“Há cerca de 90 cidades na Índia sofrendo pela água”, afirmou Singh. “Shimla recebe uma maior atenção da mídia, mas são muitas as áreas que enfrentam a escassez”.

Entre elas a capital, Nova Délhi. Este ano, no bairro de Wazirpur da cidade, cronicamente desprovido de água, pai e filho morreram quando uma briga irrompeu entre pessoas que esperavam na fila de um carro-pipa.

Rahul Kumar, 18, ficou mortalmente ferido na luta, no calor asfixiante de março, que começou quando um vizinho acusou ele e o irmão de terem furado a fila. O pai, Lal Bahadur, 60, morreu de ataque cardíaco ao tentar intervir.

A mãe de Kumar, Sushila Devi, disse que Wazirpur ficou sem água em janeiro – mais cedo do que o comum para a estação. Outros moradores de Wazirpur contaram que nos raros momentos em que há água nas torneiras, é suja e impossível de tomar. “Meu marido e meu filho morreram por causa da água”, disse Sushila.

Em Shimla, a crise da água abrandou um pouco desde o mês passado. As autoridades dividiram a cidade em três zonas, distribuindo água para elas em caráter rotativo para que ninguém fique sem por mais de dois dias. Os moradores se queixaram de que a prefeitura demorou para tomar providências, mas acima de tudo, agora as tensões diminuíram.

E desde que o tribunal ordenou uma escolta da polícia para os homens da chave – cercados por um verdadeiro cortejo -, alguns deles afirmam que nunca se sentiram tão importantes na vida.

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