3. Significado e pertinência da visão de Tocqueville

21-03-2016

A mensagem de Tocqueville calaria fundo na consciência da elite política européia,  criando condições para que marchasse ao encontro da aspiração cada vez mais difundida em favor do sufrágio universal. Conquistado este para a população masculina –que era a aspiração da época–, no século XX ocorreria sua extensão às mulheres. O resultado não significou, obviamente, o desaparecimento das mazelas no mundo da política. Contudo, no Ocidente pode-se afirmar que a experiência histórica comprovaria os equívocos da pregação de Rousseau, baseada na suposição ilusória de que o homem  poderia ultrapassar as próprias limitações para tornar-ser um ser moral.  A consolidação de regimes democráticos, na sua maior parte,  generalizaria a praxe da negociação dos inevitáveis conflitos sociais, abandonando-se o recurso às armas, o que não quer dizer que não apresente defeitos, sendo merecidas muitas das críticas que lhe são dirigidas, questão na qual nos deteremos oportunamente.

No que respeita especificamente ao texto de Tocqueville, vale registrar o balanço empreendido no transcurso do seus 150 anos (1985). Temos em vista que então publicou, na revista Times, o  conhecido estudioso da política Paul Gray. Ao colocar-se na pele de Tocqueville, destaca que, em 1835, os Estados Unidos tinham apenas 50 anos como nação independente; população de 13 milhões, tendo aumentado para 240 milhões. O número de estados passou de 24 para 50. No mesmo período emerge o poder do automóvel e da televisão. Tudo isto acarretaria, segundo Gray, algumas alterações não previstas por Tocqueville, o que o faria reorientar o sentido de sua crítica.

No tempo de Tocqueville não havia pessoas ricas e certamente não aprovaria o estilo de vida dos atuais. Considera que grande número deles basicamente ocupa-se de criar, para si próprios, condições especiais de vida, desinteressando-se do que é público. Contudo, verificaria com satisfação que o sistema consegue manter escolas e outros serviços públicos de excelente padrão.

No que respeita aos negros, previra o choque inevitável que ocorreria entre o Sul e o Norte e que, a escravidão, como instituição não poderia durar. Escreveria, então: “sejam quais forem os esforços dos sulistas para conservar a escravidão, não o conseguirão para sempre. A escravidão, encerrada num só ponto do globo, atacada como injusta pelo cristianismo, como funesta pela economia política, em meio à liberdade democrática e às luzes de nossa época, não é de forma alguma uma instituição que possa durar.” Reconheceria que a situação evoluiu numa direção em que muitas coisas de positivo seria apontada. Negros encontram-se em posição de autoridade e proeminência. Artistas dessa origem gozam de franca preferência do público. Contudo, viria situações de intolerância e injustiça, a exemplo da concentração de contingentes negros em partes decadentes de grandes centros urbanas, onde se tornam corriqueiras cenas de violência e é grande a incidência de criminalidade.

No que respeita entretanto ao maior temor de Tocqueville, que se cifrava na onipotência e tirania da maioria, Gray observa que ficaria muito surpreso de deparar-se com a grande capacidade de fazer ruído e impressionar a opinião que muitas minorias vieram a conquistar.

Enfim, Gray conclui que Tocqueville, aplaudindo entusiasticamente o sentido da evolução da democracia americana, não deixaria que isto sufocasse o seu espírito crítico. Assim, repetiria o que escreveu há 150 anos: “Os homens não ouvirão a verdade de seus inimigos. Esta lhes será oferecida, muito raramente, pelos próprios amigos”.

Poder-se-ia portanto afirmar que o sistema democrático representativo, sem violentar a natureza humana, tornar-se-ia a mais importante criação da humanidade, no que respeita à convivência social.