2. O papel do conflito religioso no surgimento do governo representativo

31-08-2015

     O surgimento do governo representativo corresponde a uma experiência singular das ilhas britânicas. Nesse desfecho atuaram duas circunstâncias, o conflito religioso e  a crise entre   o Monarca e o Parlamento. Dada a importância desses aspectos para o entendimento das características assumidas por essa forma inicial do novo regime, as abordaremos de modo autônomo.

      A estruturação de governo representativo na Inglaterra prolongou-se ao longo de, praticamente, todo o século XVII.

     O país vivia o ciclo da substituição da religião católica por uma das variantes do protestantismo. A governante que a concluiu seria Elisabete I, que reinou de 1558 a 1603. A ruptura com Roma fora realizada por seu pai, Henrique VIII (reinou entre 1509 e 1547). Elisabete I cuidou de estruturar a Igreja que seu pai estabelecera em substituição à católica, denominada de Anglicana. Por ter preservado muitos traços desta última, surgiram no país grupos de protestantes que se intitulavam de “puritanos”, por conceberem uma igreja sem quaisquer resquícios católicos.

      Atenta à magnitude desse problema, Elisabete I ocupar-se-ia em especial  do fato de que, por não ter filhos, ascenderia ao trono uma nova Casa Reinante, os Stuart, em substituição aos Tudor, ocupante do trono da Escócia. Acontece que mantinham-se fiéis ao catolicismo, sem embargo de que, os escoceses, por esmagadora maioria, tenham adotado o protestantismo. Essa disputa chegou ao ponto de levá-la a obter a condenação à morte de Mary Stuart, mãe do legítimo herdeiro do trono inglês., a fim de  assumir diretamente o encargo de educá-lo (subentenda-se, na religião da maioria). Este, com a sua morte, em 1603, tornou-se rei da Inglaterra, reinando com o nome de Jaime I. Faleceu em  1625, sendo substituído por Carlos I, que, sendo católico, traria à tona o conflito religioso.

        No continente, o mencionado tipo de disputa levara à guerra entre os principados alemães, que adotaram a reforma, e o Sacro Império, na pessoa de seu Imperador, Carlos V, confronto que durou quase uma década, desde a segunda metade dos anos quarenta até 1555, quando se firmou a denominada Paz de Augsburg, pela qual, Carlos V concedeu a liberdade religiosa nos principados alemães. Os súditos eram entretanto obrigados a seguir a crença religiosa escolhida pelo Príncipe, devendo emigrar os que a isso não desejassem submeter-se.

       Como a Casa Reinante, católica, conseguira sobreviver na Escócia, sem embargo da conversão de seus súditos ao protestantismo, Carlos I imaginou poderia alcançar idêntico resultado na Inglaterra como um todo. Assim, temerariamente, trata de reconstituir os laços com Roma, estimulado pelo parentesco com o Rei católico da França.

       Esse passo o isolaria grandemente dos barões feudais, estabelecendo a premissa de outra disputa. Só que, estes dispunham de grande poder, de que Carlos I não parece ter-se dado conta. O que lhe custaria muito caro, como teremos oportunidade de indicar.