Roberto Macedo: ‘A evolução da economia mundial segundo o FMI’

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ARTIGO

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou recentemente seu relatório trimestral intitulado Perspectiva Econômica Mundial (World Economic Outlook), a seguir referido como WEO-FMI (veja aqui). Na tabela abaixo são apresentados alguns números desse relatório relativos às taxas de variação do PIB real por grupos de países e países selecionados, verificadas no período 2016-2018, e também as taxas previstas para 2019 e 2020.

 

Fonte: WEO-FMI.

 

Com poucas exceções, esses números mostram que as maiores taxas de crescimento do PIB, de todo o período que a tabela cobre, ocorreram em 2017, caindo em 2018 e nas previsões para 2019, prevendo-se pequenas melhorias em 2020. As previsões para 2019 são mais confiáveis, pois já estamos no final do ano. As de 2020 são cobertas de muitas incertezas.

O resumo executivo do mesmo relatório dá a sua visão do que vem ocorrendo na economia mundial (tradução): “Depois de uma redução acentuada nos três últimos trimestres de 2018, o ritmo de atividade econômica mundial permanece fraco. Em particular, a atividade do setor manufatureiro se enfraqueceu substancialmente, alcançando níveis não observados desde a crise financeira mundial (Nota: 2008-2009). Tensões comerciais e geopolíticas ampliaram a incerteza quanto ao futuro do sistema de comércio global e, de um modo mais geral, da cooperação internacional, prejudicando a confiança nos negócios, as decisões de investimentos e o comércio global. Uma mudança notável na direção de políticas monetárias de estímulo – tanto na ação como na comunicação –, aliviou o impacto dessas tensões sobre o humor e a atividade dos mercados financeiros, enquanto um resiliente setor de serviços sustentou o crescimento do emprego.

Isso dito, as perspectivas continuam precárias. O crescimento global em 2019 está previsto à taxa de 3%, também o seu pior nível desde 2008-2009 (…) O previsto para 2020 mostra um pequeno impulso, para 3,4% (…) refletindo primariamente uma melhoria de mercados emergentes na América Latina, no Oriente Médio e na Europa emergente e em desenvolvimento, que ora passam por estresse macroeconômico.

Entretanto, com a incerteza sobre as perspectivas desses países (Nota: o que vale também para o caso brasileiro), um arrefecimento do crescimento na China e nos Estados Unidos e riscos predominantes para baixo, também poderá se materializar um ritmo mais baixo da atividade global. Para evitar isso, as políticas econômicas devem buscar o alívio das tensões comerciais, a retomada da cooperação multilateral, e ações de apoio à atividade econômica onde necessárias.”

Nesse contexto, outra lição desses dois relatórios é que o Brasil não pode contar com um impulso vindo da economia mundial, como aconteceu em meados dos anos 2000. O País até que se recuperou bem do impacto da crise mundial de 2008-2009, mas criou sua própria crise que reduziu o PIB em cerca de 6% no biênio 2015-2016, após o que ele terá crescido apenas perto de 3% no triênio 2017-2019, pois cresceu cerca de 2,1% nos dois primeiros anos deste último período, e estima-se que deverá aumentar 0,9% no ano corrente. Ou seja, a recuperação só alcançou metade das perdas do período 2015-2016.

Na tabela o Brasil faz feio, com a maior das duas únicas taxas negativas que aparecem na coluna de 2016, as menores taxas nas colunas de 2017 e 2019 e a segunda menor taxa na coluna de 2018. Na coluna de 2020 não se sai tão mal, mas isso ainda está por demonstrar.

Procurando me animar um pouco quanto à situação do Brasil, resolvi examinar, no mesmo relatório, os números da Argentina. Seu PIB caiu 2,5% em 2018, e as previsões são de que cairá 3,1% em 2019 e 1,3% em 2020. A inflação, medida pelos preços aos consumidores, foi de 34,3% em 2018, deve ficar em 54,4% neste ano, e a previsão para 2020 é 51%. A taxa de desemprego está, como a nossa, perto de 10% da população economicamente ativa. Enfrenta uma crise cambial e dificuldades na rolagem da dívida pública. É o maior devedor do Fundo Monetário Internacional.

Assim, está bem pior que o Brasil, mas é bom lembrar que o que acontece lá respinga também aqui, em particular prejudicando nossas exportações para aquele país, que é um mercado importante para as nossas vendas de manufaturados, como veículos.

Em termos de cenários da política econômica argentina, não vejo nada de positivo. Alberto Fernández foi eleito presidente, tendo Cristina Kirchner como vice. Na última contagem dos votos que vi, o placar foi de 47,9% para Fernández e 40,5% para Macri, que mesmo perdendo se saiu melhor do que esperado, pois pesquisas de opinião apontavam uma diferença mais próxima do dobro da verificada. Ou seja, a oposição não será desprezível.

Cristina certamente vai querer dar palpites na política econômica, mas seu governo teve papel importante na gestão da crise atual, que Macri não conseguiu resolver. Se Fernández se aconselhar com ela, a tendência será de agravamento dos problemas, a menos que ela tenha aprendido com os próprios erros. Em qualquer caso, a situação piorou tanto que, como nas doenças muito graves, torna-se inevitável um tratamento mais contundente e doloroso.

Como gosto de acompanhar experiências de política econômica em condições adversas, estarei atento ao que lá se passa para voltar ao assunto neste espaço numa outra oportunidade.

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