A invenção de tipos humanos

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ARTIGO

 

 

 

Antonio Paim, historiador e colaborador do Espaço Democrático

 

A experiência histórica indica serem diversas as formas de criação de tipos humanos – que serão imitados ou copiados. Nos primórdios da civilização tratou-se mais de um comportamento, porquanto os personagens são incumbidos de uma missão. Remember Moisés. Ainda na Grécia Antiga essa função passou à primeira forma de expressão da obra de arte: a peça teatral. Importância crescente é atribuída a este segmento da vida social. O ápice foi denominado de Renascimento, entre os séculos 14 e 16, com maior intensidade na Itália e nos chamados Países Baixos.

A figura central do Renascimento seria Wiliam Shakespeare, autor de obra monumental, da qual se sobressaem os dramas históricos.

Para a elaboração dos dramas históricos, Shakespeare apoiou-se nas histórias relativas a figuras de nomeada, isto é, ao conhecimento histórico estabelecido, embora devesse, como autor teatral, criar personagens e incidentes. É nessa primeira fase que cria duas figuras imorredouras, do rico elenco de personalidades definidoras de diferentes caráteres: Ricardo III e Falstaff. Ricardo III é o paradigma do déspota hediondo, que não recua diante de qualquer baixeza que sirva aos seus propósitos. É uma personagem física e moralmente execrável. Em contrapartida, Falstaff é o tipo legendário do fanfarrão e mentiroso, extremamente simpático. A partir desses dois tipos criou os personagens inesquecíveis que viriam a compor as tragédias.

Na apreciação da obra de Shakespeare há unanimidades e divergências. Todos os estudiosos aceitam que renovou o teatro, dando passos gigantescos em relação à tradição grega. Também se considera como a maior figura do Renascimento e cuja obra jamais teria sido ultrapassada. Entretanto, o conhecido crítico norte-americano Harold Bloom (1930/2019), reconhecidamente um grande especialista em Shakespeare, procurou estabelecer uma distinção entre caráter e personalidade, com o propósito de indicar que a figura humana teria sido fixada por Shakespeare. À defesa dessa tese dedicou o livro The invention of the human (London, Fourth Estate, 1999). O caráter ocidental, escreve, seria proveniente de Homero e Platão; Aristóteles e Sófocles; a Bíblia e Santo Agostinho; Dante e Kant, para referir o essencial de uma lista que poderia abrigar outros nomes. E, completa: “A personalidade, em nosso sentido, é uma invenção de Shakespeare e nisto não consiste apenas a maior originalidade de dele, mas a autêntica causa de sua perpétua capacidade de persuasão. Ainda que louvemos ou deploremos as nossas próprias personalidades, nós somos os herdeiros de Falstaff e Hamlet, e de todos os outros personagens que povoam o teatro de Shakespeare, e que seria legítimo chamar de cores do espírito.” (ed. cit., pág. 4).

A personalidade não consistiria apenas num determinado caráter. Mas adicionalmente à capacidade de tornar-se emblemática e mobilizadora, provocando simpatia ou repulsa, diante da qual não podemos tornar-nos indiferentes. Ainda que se possa atribuir à tragédia grega – e mesmo a autores modernos como Dostoievski – o mesmo poder de persuasão, é fora de dúvida o significado da obra de Shakespeare, amplamente popularizada em nosso tempo pelo cinema.

Bloom acha que a obra de Shakespeare poderia ser dividida numa fase inicial, que corresponderia ao que denomina de aprendizado, e no período maduro. Na inicial há comédias, três dramas históricos (Henrique VI, Rei João e Ricardo III) e as primeiras tragédias. A obra da maturidade compreenderia também os três grandes grupos em que se costuma situar as suas peças.

Shakespeare escreveu ainda o que seria denominado de “obras líricas”, isto é, poemas e sonetos que não fazem parte das peças.

A obra completa de Shakespeare acha-se traduzida ao português.

Pode-se dizer de Shakespeare que seria basicamente inventor de figuras humanas. Louvando-nos dessa hipótese chega-se à conclusão de que outros escritores criaram figuras inexistentes e que acabam incorporadas ao que a sociedade ocidental tem de mais peculiar. Para exemplificar tomemos escritores emergentes na Época Moderna. O primeiro deles seria Daniel Defoe (1660/1731).

 

Daniel Defoe (1660/1731)

 

Defoe era conhecido como jornalista, porém tornou-se verdadeiramente famoso com a história de um náufrago: Robson Crue. Interessa- nos aqui sua obra de moralista: Mol Flanders.

Assume-se desde o início como moralista. No”Prefácio do autor”, simula ter recebido um manuscrito, como era comum entre os novelistas. Assinala achar-se “escrito numa linguagem muito semelhante à de qualquer prisioneiro de Newgate e em nada recordava a de uma humilde arrependida, como parece ter sido mais tarde.” Explica-se: “Se uma mulher que se corrompeu na juventude, ou, mais ainda, que é fruto da devassidão e do vício, deseja contar suas práticas viciosas, descendo aos pormenores das ocasiões e circunstâncias que inicialmente a perverteram e esmiuçando seus progressos no mundo do crime, realizados ao longo de três vintenas de anos, é claro que um escritor terá dificuldade em tornar decentes suas memórias, de forma a não ensejar, especialmente aos leitores maldosos, a ocasião de se voltarem contra ele próprio”.

Ainda que haja tomado as precauções necessárias ao rever o original, “para se relatar a vida de uma corrupta e seu arrependimento é preciso que se apresentem os trechos menos inocentes com a mesma crueza da história verídica, até onde seja suportável, a fim de que ilustre ou ressalte o trecho do arrependimento que é com certeza o melhor e o mais belo, caso venha apresentado espirituosa e vivamente”.

Defoe foi um panfletário temível a serviço da destruição da Igreja Anglicana, em nome da seita puritana a que pertencia. Quando se decide por dedicar-se sobretudo à pregação moral, elabora um tratado com este expressivo título: “Acerca do uso e do abuso do leito matrimonial”, no qual, entre outras coisas, defende a tese de que a libidinagem do casal acaba por refletir-se na aparência dos filhos, cujos rostos tornam-se “cobertos de pústulas e cheios de manchas”. Assim, atribuía a acne que, com muita frequência, inferniza a vida de jovens adolescentes, à violação de regras morais no seio da família. O sucesso de Moll Flanders não se deve, entretanto, à intenção moral do autor, mas à sua força literária. A personagem foi prostituta durante doze anos, ladra profissional outros doze anos, casou-se cinco vezes (uma das quais com o próprio irmão), finalmente apanhada é deportada para a América, onde passa a viver honestamente, tendo alcançado fortuna graças ao trabalho árduo.

Essa vida atribulada é descrita com maestria. A maneira como refere o processo de seu arrependimento nada tem de piegas, tornando-se de todo convincente.

O relato da prisão e do julgamento de Moll Flanders é efetivado com grande vivacidade. O roubo que pretendia fazer não chega a consumar-se. O dono da loja inclina-se por perdoá-la, mas acaba presa. Seu passado leva o júri a condená-la à morte. Convenceu-se tratar-se de criatura irrecuperável.

Contando na prisão com assistência religiosa, é levada a balancear sua vida e também julgá-la com severidade. Arrepende-se. Mas será que não o fez por temor da morte? Hipótese provável quando teve oportunidade de ver o pavor de outros condenados no momento da execução. O sofrimento por que passa é transmitido com dramaticidade. Por interferência de um protetor, sua pena é transformada em deportação para a América. Reencontra o último marido, que está preso por ter sido levado ao crime por ela mesma. Libertado, acompanha-a no desterro.

A reconstituição da parte final da vida de Moll Flanders, na pena de Defoe, não se transforma em simples “happy end” porquanto entremeada pela angústia a que corresponde confessar ao marido passagens da vida que a mortificam.

 

STENDHAL-O VERMELHO E O NEGRO

 

Henri-Marie Bayle, mais conhecidos como Stendhal (1783-1842) é outro criador de tipos humanos, desta vez, tratando de pessoas vivendo na França depois da queda de Napoleão, em 1815. Na verdade, trata-se da apresentação de um painel (cáustico) da sociedade francesa do tempo dos ultra a partir da criação de um típico herói romântico (Julien Sorel).

Julien Sorel é filho do proprietário de uma pequena serraria no interior da França. Aprendeu latim e, dotado de memória excepcional, era capaz de decorar os textos em latim dos grandes clássicos e da própria Bíblia. Do ponto de vista do pai e dos irmãos, musculosos e ignorantes, aquelas qualidades eram o suficiente para o considerarem inútil e o maltratarem impiedosamente. Julien simpatiza secretamente com Napoleão e sua época, naturalmente sem nenhuma base objetiva, apenas por imaginá-la como um grande contraste à situação que presencia. Stendhal pinta a sociedade francesa como achando-se sufocada pelo medo, encontrando-se na mais absoluta dependência da nobreza ressuscitada, ávida por recuperar o tempo perdido, detentora do poder em Paris. A pequena cidade em que vive Julien (Verrières) é dominada pelo Senhor de Renal – dono da fábrica de pregos – que, após a Restauração, envergonhado de ser industrial, consegue fazer-se presidente da Câmara Municipal. Na cidade campeia a subserviência e a maledicência. Os incidentes que a absorvem são absolutamente banais.

Outro grupo social descrito da forma a mais desfavorável é o clero. Julien Sorel passa 14 meses num seminário onde a grande maioria dos noviços é constituída de rudes, denominação que designa as figuras que exercem o poder no período que vai da queda de Napoleão (1815) à Revolução Liberal de 1830. Trata-se do ciclo em que se tenta restaurar o Antigo Regime (assim chamado o que vigorava antes da Revolução Francesa) camponeses, sem nenhuma vocação). O importante é adquirir um certo ar de santidade. Deste modo, a hipocrisia é a nota dominante. Entre os padres, o maior empenho é portar-se de modo a conseguir uma paróquia onde a renda da igreja proporcione vida farta e tranquila. A única figura decente nesse meio – o padre Pirard, apresentado como jansenista, isto é, pertencente ao grupo de partidários de uma igreja independente de Roma que aceitava muitos dos postulados da Reforma – acaba sendo perseguido.

Descrito como protetor de Julien, o padre Pirard consegue-lhe numa colocação em Paris, onde o levará a muitas sociedades de jansenistas. Julien fica então espantado; em seu espírito, a idéia de religião estava intimamente associada à hipocrisia e à esperança de ganhar dinheiro. “Passa a nutrir admiração por aqueles homens piedosos que não pensam em orçamentos… Um novo mundo abre-se para ele”.

Na carruagem que o transporta a Paris, Julien presencia um dos poucos comentários constantes do livro em que Napoleão é citado nominalmente. Trata-se de comentários de um grande proprietário que, enojado do ambiente da corte, refugia-se no interior e também ali não suporta a convivência. Este personagem culpa abertamente a Napoleão pela Restauração, com uma curiosa argumentação. Com a Concordata, tornou os padres funcionários públicos ao invés de obrigá-los a ganhar a própria vida da mesma forma como o fazem o comum dos profissionais liberais (médicos, advogados…). E prossegue: “E haveria hoje esses fidalgos insolentes se o seu Bonaparte não tivesse feito barões e condes; não, a moda teria passado. Depois dos padres, são os fidalgozinhos campestres que me causaram maior irritação e fizeram com que aderisse aos liberais”.

A estada em Paris irá proporcionar a Stendhal a oportunidade de descrever (e criticar) os nobres do Antigo Regime, agora de novo no poder. O novo emprego de Julien é na casa de um rico Marquês (De La Mole), à espera de ser elevado a Duque e tornado Par de França. Em seu salão pululam bajuladores. Refere-os deste modo: “… em primeiro lugar, cinco ou seis amigos da casa, que o lisonjeavam a todo instante, acreditando achar-se protegidos por um capricho do Marquês. Eram pobres criaturas mais ou menos triviais; mas cabe dizer em louvor desta classe de homens, tal como se encontra hoje nos salões da aristocracia, que não se rebaixam igualmente para todos. Alguns deles se deixariam maltratar pelo Marquês, mas se sentiriam revoltados ante uma palavra áspera que a sra. de La Mole lhes dirigisse”. E mais: “Havia muita soberba e bastante tédio no fundo da alma dos donos da casa; estavam muito acostumados a ultrajar para quebrarem o aborrecimento, de modo que não podiam esperar verdadeiros amigos.” Num dos momentos de intimidade, que o Marquês por vezes lhe permite, confessa-lhe que “é preciso se divertir … só isso é real na vida.”

Em síntese, o tom das conversas pauta-se pelo seguinte: “Contanto que não se brincasse nem com Deus nem com os padres nem com o Rei nem com os artistas protegidos pela Corte nem com tudo que é estabelecido; contanto que não se falasse bem nem dos jornais de oposição nem de Voltaire, nem de Rousseau, nem do que parecesse liberdade de opinião; contanto que sobretudo não se falasse nunca de política, podia-se livremente discorrer sobre qualquer coisa.”

Entretanto, o fio condutor do livro é a paixão de Julien Sorel pela Senhora de Rênal. Casada com o todo poderoso presidente da Câmara de Verrières, tem três filhos. Contratado para trabalhar como preceptor das crianças, Julien tinha na época 19 anos. Apaixona-se perdidamente por aquela bela mulher, que resiste o quanto pode, mas acaba por permitir que expresse o seu afeto. Julien o faz da forma a mais imprudente, para seu desespero. A situação mantém-se nesse pé até que Julien vai para o seminário. No intervalo, a Senhora de Renal é consumida pela paixão e tudo faz para esquecê-lo. No dia em que deve transferir-se para Paris, Julien irrompe em seus aposentos à noite. A Senhora pensa resistir, mas acaba cedendo. Por ter concordado em que permanecesse ali escondido durante o dia seguinte, vê-se colocada em situações verdadeiramente ridículas perante o marido e empregados.

Afinal descoberto, sem ser identificado, foge. Em Paris, em casa do Marquês de La Mole parece de todo haver esquecido o primeiro amor. Apaixona-se pela única filha e herdeira do poderoso senhor, Matilde. É uma jovem com a cabeça cheia de fantasias acerca dos seus ancestrais na Idade Média. Seu estado de humor oscila e alterna-se do mesmo modo que a relação com o amante. Afinal acaba por engravidar. Para abafar o escândalo, a família consegue fazê-lo passar pelo filho bastardo de um nobre e permite que se realize o casamento. É colocado no exército. A sorte parece sorrir-lhe. Nessa altura, investigando o seu passado, o Marquês obtém uma carta da Senhora de Renal, onde diz coisas dessa ordem: “Pobre e ávido, é com a ajuda da mais consumada hipocrisia e pela sedução de uma mulher rica e infeliz que este homem procurou conseguir uma nova situação e se tornar alguma coisa. Faz parte de meu penoso dever acrescentar que sou obrigada a crer que o sr. J. não deve ter nenhum princípio de religião. Em sã consciência sou levada a crer que um dos seus meios para ter êxito em uma casa consiste em procurar seduzir a mulher que ocupe a mais destacada posição. Coberto por uma aparência de desinteresse e por frases de romance, seu grande e cínico objetivo é chegar a dispor do dono da casa e de sua fortuna. Deixa atrás de si um rastro de desgraças e de lamentações eternas …”

Tudo desfeito, a reação de Julien Sorel é verdadeiramente espantosa e mais ainda o que se segue. Vai a Verrières e dá dois tiros na Senhora de Rênal, em plena igreja, durante o culto. Preso, é condenado à morte. Tendo sofrido apenas um ferimento, a vítima o procura na prisão e a paixão se reacende de ambos os lados. A pobre Matilde como que é esquecida.

Finalmente, morre na guilhotina.

Stendhal baseou-se numa história em parte verídica, notadamente o incidente da igreja. Mas, a partir de tais elementos, criou uma figura verdadeiramente espantosa.

Afora a fixação no amor impossível, típico de uma época de exaltação romântica, o que de fato move Julien Sorel perante a sociedade? Ressentimento pela origem humilde e a simultânea evidência de sua superioridade intelectual diante de nobres e burgueses?

Difícil de decidir. Do mesmo modo que o título pondo em contrate duas cores que podem simbolizar coisas diversas e que nem por isto se enquadram no contexto do livro. O certo é que se trata de uma criação imorredoura. Capaz de prender e deleitar o leitor mesmo em sucessivas leituras quando não há surpresas. Somente essa extraordinária qualidade literária explica a sua permanência no Cânon, que somente pode abrigar em seu seio as obras literárias imorredouras.

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