A trajetória do coronavírus no Brasil em relação a outros países

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ARTIGO

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Acompanho diariamente essa trajetória, utilizando dados processados na Europa, atualizados quase que diariamente. Notei uma deficiência da imprensa brasileira, onde o noticiário está muito pulverizado e não há números sínteses e comparativos de como está aqui a crise do novo coronavírus, a COVID-19, relativamente a outros países. Darei a minha opinião baseada em dados desse tipo em dois gráficos, preparados por uma instituição a partir de dados de fontes confiáveis, ainda que permaneçam dúvidas sobre as notificações de novos casos e de óbitos em vários países, inclusive o Brasil. Aqui os dados são do Ministério da Saúde, diariamente atualizados, e captados por entidades europeias que mencionarei.

O primeiro gráfico que abro diariamente é sobre o número de mortes e vem do Flourish Studio, por meio deste link. Ao apresentá-lo, colocarei a tradução do seu título, mas deixarei algumas informações em inglês, explicando parte delas mais à frente, para facilitar o eventual acesso do leitor a essa fonte.

COVID-19

      Número de mortes por país desde a décima morte

              Atualizado até a manhã do dia 22/4/20

 

 

Fonte: Dados do European Centre for Disease Prevention and Control (Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças), da União Européia, conforme processados pela organização Our World in Data (www.ourworldindata.org). Gráfico do Flourish Studio (www.flourishstudio.com)

Note-se, no canto superior esquerdo deste gráfico, na quinta linha do título em inglês, que ele abrange 12 países, mas no site abre mostrando os 10 primeiros em número de mortes. Junto desse número, no site, há duas setas, uma apontando para cima e a outra para baixo, sendo a primeira utilizada para ampliar e a segunda para reduzir o número de países no gráfico. Como não encontrei o Brasil, comecei a clicar a primeira seta, e logo o encontrei na 12ª posição.

Tratarei agora de uma tecnicalidade, mas vou sintetizá-la pela sua utilização, de mais fácil compreensão. A escala do eixo vertical, do número de mortes, é logarítimica, e assim a inclinação de cada linha revela a taxa de crescimento desse número. Note-se que há linhas indicando transversalmente taxas de 100, 30, 15 e 5% por dia, o que permite avaliar a taxa de expansão do número de mortes em cada país, sempre comparando a declividade de sua linha ou trecho dela com essas transversais. A linha do Brasil mostra taxas próximas de 30% no seu início, caminhando para 15% ao seu final. Ou seja, um movimento a taxas decrescentes. A China, tendo estabilizado seu número, agora tem taxa zero.

Note-se também que a linha do Brasil começa a taxas bem altas, mas depois fica abaixo da linha da Holanda (Netherlands), e em seguida é ultrapassada pela dos EUA (United States), onde a situação é a mais grave atualmente. Em seguida, a do Brasil fica um pouquinho acima das linhas do Irã e da China, mas não se sabe se vai seguir o rumo desses dois países, que reduziram ainda mais suas taxas – e no caso da China, como já dito, foi zerada.

Esse gráfico das mortes é, evidentemente, o mais importante. Numa dessas fontes encontrei referência ao fato de que o número de casos tem significado limitado, já que a maioria deles não foi confirmada e a maioria dos confirmados teve recuperação. Mas mesmo assim é interessante examinar seu número por país, pois mesmo com essas deficiências podem estar refletindo tendências também observadas no caso das mortes. Passando ao gráfico de casos confirmados, chega-se a ele clicando a seta maior que aparece na primeira linha em inglês do primeiro gráfico. Tendo assim a mesma fonte do anterior, esse outro gráfico é apresentado a seguir.

Coronavirus

     Número de casos confirmados por país desde o 100º caso

     Atualizado até a manhã do dia 22/04/20

 

Ele surge com 11 países, os maiores em número de casos, sem incluir o Brasil, e novamente cliquei a seta para cima encontrando-o logo em seguida, na 13ª posição, aparentemente numa posição confortável relativamente aos demais no ponto em que está, mas fui à frente e encontrei a Bélgica, Canadá e Holanda abaixo do Brasil, e se prosseguisse haveria outros. Com exceção da Bélgica, não coloquei estes países no gráfico, pois seus nomes se sobrepõem.

Comparando este gráfico com o anterior, nota-se que neste a linha do Brasil está abaixo da linha da China, enquanto no anterior as linhas dos dois países estão quase sobrepostas. Supondo que a subnotificação nos dois países não tenha afetado significativamente esse resultado, segue-se que no Brasil o número de casos notificados é menor do que na China, mas o número de mortos é quase igual ao da China, sugerindo que o tratamento realizado naquele país é mais eficaz do que o feito no Brasil. E tratamento no sentido lato, que inclui a testagem de forma bem ampla, o que ainda não foi feito no Brasil. É dessa testagem que surgem diagnósticos.

Ademais, na China o número de casos notificados e o de mortes já não crescem, enquanto não se sabe que rumo a linha do Brasil vai tomar daqui para a frente. Continuo acreditando que no Brasil o clima mais quente poderá reduzir o impacto do coronavírus se comparado ao ocorrido em países de clima mais frio, conforme conclusão de estudo realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, dos EUA, conhecido como MIT, reportado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 24/3/20. Esse estudo mostrou que o coronavírus prolifera de modo mais forte entre 3 e 17 graus centígrados. Tenho acompanhado a temperatura diariamente pelo mesmo jornal, e na cidade de São Paulo, neste outono, esse limite superior só tem sido atingido pela manhã ou à noite, enquanto que à tarde são comuns as temperaturas em torno de 25 graus. No dia 22/4, quando concluía este artigo, as previsões eram de 15, 26 e 17 graus, para a manhã, tarde e noite, respectivamente. Em contrapartida, há no Brasil um fator agravante, o da forte aglomeração de pessoas nos transportes coletivos, nas habitações localizadas em favelas e nos bairros mais pobres, o que facilita a propagação do vírus.

Note-se ainda que um traço comum à maioria das curvas dos países mostradas pelos dois gráficos é que suas taxas começam fortes e os números sobem rapidamente, mas depois elas são decrescentes e em alguns casos tendem a zero, ou até se tornarem negativas, conforme se pode confirmar nas fontes dos gráficos citados ampliando-os para um número maior de países.

Em síntese, no Brasil ainda não se pode prever o comportamento das suas curvas mais à frente. De qualquer forma, prefiro acompanhar esses gráficos que me parecem mais relevantes do que o nosso noticiário jornalístico disperso sobre vários aspectos do assunto. As muito relevantes taxas de variação apresentadas nesses dois gráficos raramente são avaliadas, e é frequente o blá-blá-blá opinativo de gente sem conhecimento do assunto, inclusive porque ele é uma novidade, e sem utilizar números como os aqui apresentados.

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